Fundada por um padre há 143 anos, Cordisburgo recebeu um nome que mistura latim e alemão para dizer "cidade do coração"

Uma capela de 1884, uma venda que virou museu e jovens que recitam um gênio da literatura: a pequena cidade mineira que guarda muito mais do que uma gruta

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
20/10/2026

Poucos nomes de cidade em Minas carregam uma declaração de fé tão direta quanto Cordisburgo. A palavra junta “cordis”, do latim, a “burgo”, termo de origem germânica, e o resultado é algo como “cidade do coração”. A escolha não foi por acaso: ela homenageia o Sagrado Coração de Jesus, padroeiro do lugar, e explica como o povoado começou no fim do século 19.

De onde vem o nome Cordisburgo?

“Cordis” é a forma latina que significa “do coração”. Já “burgo” chegou ao português pelo latim, mas vem de uma raiz germânica que indicava povoação ou cidade, a mesma que aparece em nomes como Hamburgo. Juntas, as duas partes formam um nome que soa estrangeiro, mas tem um sentido simples e religioso.

O nome atual, porém, levou décadas para se firmar. O povoado mudou de denominação algumas vezes, sempre ligado à devoção que o originou. A sequência foi esta:

  • Arraial de Vista Alegre, em 1883;

  • Coração de Jesus da Vista Alegre, em seguida;

  • Cordisburgo da Vista Alegre, a partir de 1890;

  • Cordisburgo, a partir de 1923.

Quem foi o padre que deu início à cidade?

A história começa com o padre João de Santo Antônio. Em 21 de agosto de 1883, ele deu início à formação do arraial que mais tarde se tornaria a cidade. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus esteve presente desde o começo e acabou se tornando a própria identidade do lugar.

No ano seguinte, em 1884, foi erguida a Capelinha de São José, apontada como a primeira capela do povoado. A emancipação só veio em 17 de dezembro de 1938, quando Cordisburgo deixou de depender de outro município.

Que marcas Guimarães Rosa deixou na cidade do coração?

Foi em Cordisburgo que nasceu, em 1908, o escritor João Guimarães Rosa, autor de “Grande Sertão: Veredas”. Ele passou ali os primeiros anos de vida e, aos nove, partiu de trem com a família para Belo Horizonte. Esses anos de infância deixaram rastros que podem ser vistos pela cidade:

  • A estação ferroviária de 1904, em frente à casa da família e cenário do conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”;

  • O Portal Grande Sertão, com vaqueiros em bronze em tamanho real;

  • A casa onde o escritor cresceu, hoje transformada em museu.

A estação está fechada, mas segue como referência para quem procura os lugares ligados ao escritor. O passeio é curto, feito a pé, e mostra como a cidade aparece em vários textos do autor.

Igreja de fachada branca e azul com duas torres, vista da praça com bancos em Cordisburgo, MG
Igreja de fachada branca e azul com duas torres, vista da praça com bancos em Cordisburgo, MG

Igreja de fachada branca e azul com duas torres, vista da praça com bancos em Cordisburgo, MG - Foto: Igor Souza

Estação ferroviária histórica de Cordisburgo, MG, com trilhos, locomotiva e construção
Estação ferroviária histórica de Cordisburgo, MG, com trilhos, locomotiva e construção

Estação ferroviária histórica de Cordisburgo, MG, com trilhos, locomotiva e construção - Foto: Igor Souza

O Museu Casa Guimarães Rosa guarda a infância do escritor

A casa térrea de adobe, construída na virada do século 19 para o 20, misturava moradia e comércio. Ali, o pai do escritor, Florduardo Pinto Rosa, mantinha uma venda que funcionou até 1923. O imóvel virou museu em 1974 e foi tombado pelo Estado em 2002, com acervo de objetos e documentos sobre a vida e a obra do autor.

O que mais chama a atenção, porém, são os contadores de histórias do Grupo Miguilim. Desde 1995, jovens moradores da cidade contam histórias da obra de Guimarães Rosa para os visitantes. Todo mês de julho, o museu também recebe a Semana Rosiana, que reúne leitores, pesquisadores e moradores.

O que a Gruta de Maquiné tem a ver com a história da cidade?

A gruta entrou para a história antes mesmo do arraial. Ela foi encontrada em 1825 por um fazendeiro, Joaquim Maria Maquiné, e a partir de 1834 passou a ser estudada pelo naturalista dinamarquês Peter Lund, que enviou para a Dinamarca boa parte dos fósseis encontrados ali.

Fica a cerca de 5 km do centro, por estrada asfaltada, e combina bem com o roteiro histórico. Antes de entrar, vale conhecer alguns detalhes que ajudam a planejar a visita:

  • Cerca de 650 metros de extensão;

  • Sete salões ao longo do percurso;

  • O maior deles, o Salão do Cemitério, passa de 160 metros;

  • Trecho de visitação todo iluminado e de caminhada fácil;

  • Visitas sempre acompanhadas por guias, em grupos.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Cordisburgo cabe em um fim de semana sem pressa

A cidade fica a cerca de 120 km de Belo Horizonte, com acesso pela BR-040 até a região de Sete Lagoas e depois por rodovia estadual. É perto o bastante para um bate-volta, mas um pernoite permite ver tudo com calma. Para aproveitar melhor a viagem, algumas escolhas ajudam:

  • Visitar a gruta pela manhã e deixar o centro para a tarde;

  • Conferir os dias de funcionamento do museu antes de sair;

  • Planejar a viagem para julho, se a ideia for acompanhar a Semana Rosiana.

No fim do passeio, o nome da cidade deixa de ser só uma curiosidade. Entre a devoção que batizou o arraial, a casa da venda e as histórias contadas pelos jovens do Miguilim, Cordisburgo recompensa quem chega com tempo.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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