Fora dos roteiros turísticos, Ladainha, no Vale do Mucuri, é o destino mineiro que vale a viagem

Ladainha nasceu por causa de uma ferrovia, quase sumiu quando os trilhos foram arrancados e hoje guarda túneis, cachoeiras e uma pedra gigante no Vale do Mucuri. Vale rodar até lá

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
22/07/2026

Uma cidade que existe por acidente. Ladainha, no Vale do Mucuri, a pouco mais de 40 quilômetros de Teófilo Otoni, só surgiu porque uma estrada de ferro precisava passar por ali no início do século 20. Quando os trilhos foram retirados, décadas depois, a economia despencou e o município encolheu — hoje são pouco mais de 14 mil habitantes, segundo o Censo de 2022. O que ficou para trás é justamente o motivo de ir.

Como uma ferrovia inventou uma cidade do zero?

Antes de 1914, não havia povoado onde hoje é a sede de Ladainha. O que atraiu os primeiros moradores foram as obras do prolongamento da Estrada de Ferro Bahia-Minas, conduzidas pelo coronel José Ribeiro de Oliveira, que doou o terreno onde as primeiras casas foram levantadas.

A ferrovia trouxe oficinas, moradia para os operários e movimento. O crescimento foi rápido o bastante para que o povoado virasse distrito e, em 1948, município desmembrado de Poté. Os marcos dessa formação ainda são visíveis:

  • O antigo leito da linha, hoje usado como estrada de terra;

  • As casas construídas para as famílias dos ferroviários;

  • A estação, que atualmente funciona como rodoviária da cidade.

De onde vem esse nome tão incomum?

A explicação mais repetida por lá, e registrada pela própria Câmara Municipal, envolve um morador antigo apelidado de Podô, conhecido por rezar terços com ladainha em todas as ocasiões. Quando foi preciso batizar oficialmente a estação, o coronel Ribeiro respondeu, brincando: "Ladainha do Podô".

A piada pegou. O nome ficou na estação, passou para o povoado e depois para o município inteiro. É o tipo de história que se conta no comércio da praça e que explica bem o clima da cidade: ninguém ali leva muito a sério a própria importância.

Lago cercado por vegetação com grande formação rochosa ao fundo em Ladainha, Minas Gerais
Lago cercado por vegetação com grande formação rochosa ao fundo em Ladainha, Minas Gerais

Lago cercado por vegetação com grande formação rochosa ao fundo em Ladainha, Minas Gerais - Foto: Igor Souza

O que restou depois que os trilhos foram arrancados?

Em 1966, o governo militar desativou a Bahia-Minas e mandou retirar os trilhos. A região entrou em decadência econômica, o assunto virou tema de pesquisa acadêmica e de documentário, e Ladainha passou a conviver com a marca de cidade que perdeu seu motivo de existir.

A estrutura física, porém, continua lá, e é o que sustenta o passeio mais interessante do município. O percurso pelo antigo traçado, feito de carro ou bicicleta, reúne:

  • Túneis abertos dentro da rocha;

  • Pontilhões de ferro sobre córregos;

  • Estações preservadas ao longo do caminho;

  • Vilas de operários que viraram povoados.

A Pedra de Ladainha aparece antes da cidade

Muito antes de chegar, quem vem pela estrada já vê o paredão de rocha se levantando da mata. É a Pedra de Ladainha, o cartão-postal do município, avistada de praticamente qualquer ponto da cidade. Os moradores mais antigos a chamam de Martha Rocha, referência à Miss Brasil de 1954.

A subida existe, mas não é passeio de domingo. A trilha tem trechos com apoio de cabo de aço e exige preparo físico e calçado adequado. Quem prefere vista sem esforço equivalente costuma escolher a Pedra do Jardim, procurada no fim da tarde.

Antigo túnel ferroviário cercado por mata entre Ladainha e Novo Cruzeiro, em Minas Gerais
Antigo túnel ferroviário cercado por mata entre Ladainha e Novo Cruzeiro, em Minas Gerais

Antigo túnel ferroviário cercado por mata entre Ladainha e Novo Cruzeiro, em Minas Gerais - Foto: Igor Souza

Onde estão as cachoeiras do município?

Ladainha é cercada por mata atlântica em bom estado de conservação, e é dali que saem as quedas d'água que abastecem os fins de semana da região. Boa parte delas fica justamente às margens do antigo leito da ferrovia, o que permite juntar os dois passeios no mesmo dia.

As mais conhecidas têm prainhas de areia e enchem no verão, quando o calor do Mucuri aperta:

  • Cachoeira do Seu Wilson: a mais citada, boa para banho;

  • Cachoeira do Icari: também próxima ao traçado da Baíminas;

  • Demais quedas: acesso complicado, recomenda-se guia local.

Quem mais vive no território de Ladainha?

O município abriga uma aldeia maxakali, ocupada a partir de uma retomada no fim de 2006, com cerca de 200 pessoas. A presença indígena na região é anterior à cidade, à ferrovia e à colonização: os vales do Mucuri e do Jequitinhonha eram território maxakali muito antes de qualquer trilho.

Não se trata de atrativo turístico e não deve ser tratado como tal. É contexto — e ajuda a entender que a história de Ladainha começa bem antes de 1914, ainda que a cidade em si tenha nascido de uma obra de engenharia.

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

A viagem pede estrada e disposição

O acesso principal é por Teófilo Otoni, que concentra aeroporto regional e ligação pela BR-116. De lá, são poucos quilômetros até a cidade. A estrutura é de cidade pequena: hospedagem limitada, pousadas simples, comércio que fecha cedo.

Ladainha não está em roteiro nenhum e não finge estar. Quem vai, encontra túnel de trem sem grade, cachoeira sem bilheteria e uma pedra enorme sem fila. Em troca, precisa aceitar rodar bastante e resolver as coisas na conversa com quem mora lá.

Vista panorâmica de lagoas, morros e áreas rurais no município de Ladainha, em Minas Gerais
Vista panorâmica de lagoas, morros e áreas rurais no município de Ladainha, em Minas Gerais

Vista panorâmica de lagoas, morros e áreas rurais no município de Ladainha, em Minas Gerais - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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