Existem três teorias para explicar o apelido Bichinho, e uma tese de doutorado desafia a mais popular delas
Uma tese de doutorado encontrou documentos de 1717 que colocam em xeque a história mais contada sobre o nome deste povoado mineiro perto de Tiradentes
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
11/10/2026
Em documentos de 1717, o povoado já aparece com o nome que todo mundo usa até hoje: arraial do Bichinho. O detalhe parece pequeno, mas desmonta a explicação mais repetida por moradores e visitantes sobre a origem do apelido. O distrito de Vitoriano Veloso, em Prados, a cerca de 7 quilômetros de Tiradentes, carrega três versões diferentes para o nome, e uma pesquisa acadêmica ajuda a separar a lenda dos registros.
Quais são as três teorias para o apelido Bichinho?
A origem do nome Bichinho nunca foi explicada de forma oficial, e cada versão circula com força diferente. Algumas aparecem em guias de viagem, outras são contadas por quem mora no distrito e repassadas a quem chega para conhecer as lojas de artesanato e a igreja do século XVIII. Por isso, vale ouvir cada uma sabendo que se trata de tradição oral.
A mais conhecida liga o nome a um personagem da Inconfidência Mineira. As outras duas partem de detalhes do cotidiano e da religiosidade local, e ajudam a entender como a memória de um lugar pequeno vai sendo construída ao longo do tempo, passando de geração em geração. As três explicações mais citadas são:
O apelido do inconfidente Vitoriano Gonçalves Veloso, que seria "Bichinho";
Uma pequena lagartixa aos pés da imagem de Nossa Senhora da Penha, padroeira do povoado;
O bicho-de-pé que atingia os viajantes que chegavam a pé, vindos de Tiradentes.


Praça de Bichinho, MG, com fonte de pedra, letreiro turístico e casarões coloridos - Foto: Igor Souza
O que a tese de doutorado encontrou nos documentos?
A pesquisadora Vera Lúcia Ermida Barbosa estudou o povoado em sua tese de doutorado em Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra, publicada em 2019. O trabalho analisa como a identidade do lugar foi construída ao longo dos séculos, do período colonial até a chegada do turismo.
Ao reunir documentos antigos, a autora aponta que os primeiros registros manuscritos com o nome arraial do Bichinho datam de 1717. Vitoriano Gonçalves Veloso só nasceu em 1738, mais de 20 anos depois. Ou seja, o povoado já tinha esse nome antes mesmo de o inconfidente existir, o que enfraquece a teoria mais popular.


Igreja histórica de Bichinho, MG, com torre amarela e fachada colonial ao lado de casarão - Foto: Igor Souza
Vitoriano Veloso deu nome ao distrito mais de um século depois
Segundo a tese, foi por volta de 1894 que a comunidade passou a adotar o nome Vitoriano Veloso, em homenagem ao morador que participou da Inconfidência Mineira. Mesmo assim, o nome antigo nunca saiu do uso, e é por ele que o distrito segue conhecido entre moradores, comerciantes e turistas que passam pela região.
A história do homenageado ajuda a explicar por que ele virou símbolo do povoado. Vitoriano morava perto das terras de Hipólita Jacinta Teixeira de Mello, única mulher com participação ativa no movimento. Registros históricos reunidos pelo pesquisador José Antônio de Ávila Sacramento mostram um personagem pouco conhecido do grande público:
Nasceu em 1738, na região do povoado, filho de mãe escravizada e pai branco;
Trabalhava como alfaiate e era o único mulato entre os inconfidentes;
Levava cartas e recados secretos entre os envolvidos na conspiração;
Foi condenado ao degredo na África, onde morreu em 1803.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
O que ver no povoado além da história do nome?
A Igreja de Nossa Senhora da Penha é o principal marco histórico do distrito. A obra começou por volta de 1732 e foi concluída em 1771, com pinturas no forro atribuídas a Manoel Victor de Jesus. É nela que está a imagem ligada à teoria da lagartixa: na tradição portuguesa, Nossa Senhora da Penha de França aparece com um lagarto aos pés.
Desde 1992, com a criação da Oficina de Agosto, o povoado também ganhou fama pelo artesanato, com móveis e peças feitas com madeira de demolição, tecidos e esculturas. Como fica a cerca de 7 quilômetros de Tiradentes, o passeio cabe no mesmo dia de uma visita à cidade vizinha. Para aproveitar melhor, vale reservar tempo para:
Visitar a Igreja de Nossa Senhora da Penha e observar o forro pintado;
Percorrer as lojas e ateliês de artesanato espalhados pelo povoado;
Conhecer a Oficina de Agosto, que reúne artesãos da região;
Provar os doces caseiros vendidos no comércio local;
Seguir pela estrada de terra até Prados, sede do município, a cerca de 12 quilômetros.


Casas coloridas e inclinadas, com arquitetura diferenciada, em Bichinho, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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