Existe uma capital no Brasil que foi inteira desenhada no papel antes de existir: é Belo Horizonte
Para substituir Ouro Preto, Minas ergueu do zero uma capital planejada no papel, com ruas em xadrez e avenidas diagonais, inaugurada ainda no fim do século XIX
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
30/07/2026
Antes de ter a primeira casa, a primeira rua ou o primeiro morador, Belo Horizonte já existia inteira em uma prancheta. A capital de Minas Gerais foi desenhada no papel, com ruas, avenidas e bairros definidos antes de qualquer construção sair do chão. Poucas cidades brasileiras nasceram assim, de forma totalmente planejada, e essa origem explica muito do jeito organizado que a cidade mantém até hoje.
Por que Minas precisou de uma nova capital?
A história começa em Ouro Preto, a antiga capital do estado. Encravada entre montanhas, a cidade tinha pouco espaço para crescer e enfrentava limites de relevo que dificultavam sua expansão. Com a Proclamação da República, em 1889, ganhou força a ideia de transferir a capital para um lugar mais amplo e moderno.
Em dezembro de 1893, o Congresso do estado decidiu que a capital deveria mudar de lugar. Vários pontos de Minas chegaram a ser cogitados, entre eles Juiz de Fora e Barbacena, até que a escolha recaiu sobre a região onde ficava um pequeno arraial, que daria origem à nova cidade.
Belo Horizonte foi projetada antes de existir
É aqui que está o ponto mais curioso da história. Em vez de crescer aos poucos, como a maioria das cidades, Belo Horizonte foi inteiramente planejada em projeto antes de ser construída. Cada rua, avenida e quarteirão foi pensado no papel, dentro de um desenho que organizava a futura capital como um todo.
Com isso, a cidade se tornou uma das primeiras do país a nascer de forma planejada, ideia bastante avançada para o fim do século XIX. Essa característica coloca Belo Horizonte ao lado de poucas capitais brasileiras que foram desenhadas antes de existir de fato.


Jardins da Praça da Liberdade e Edifício Niemeyer em Belo Horizonte, MG - Foto: Igor Souza
Quem desenhou a cidade e como?
O responsável pelo projeto foi o engenheiro Aarão Reis, natural do Pará, escolhido para comandar a criação da nova capital. Ele apresentou o plano em 1895 e liderou a comissão encarregada da obra, que começou em 1894 com prazo de cinco anos para ficar pronta. A referência eram cidades modernas da época.
O projeto de Aarão Reis tinha características bem definidas, que ajudam a entender o desenho da cidade:
A divisão em zonas urbana, suburbana e rural, cada uma com sua função.
O traçado em xadrez, com ruas cruzando em ângulos retos.
As grandes avenidas em diagonal, cortando a malha da cidade.
A inspiração em capitais modernas, como Paris e Washington.
O prazo de cinco anos para erguer tudo do zero.
O que existia antes de Belo Horizonte?
O terreno escolhido não era vazio. No lugar existia o arraial de Curral del Rei, um pequeno povoado antigo que acabou sendo praticamente apagado do mapa para dar espaço à nova capital. Dois pontos ajudam a entender essa transição:
O antigo arraial de Curral del Rei, que ocupava a área.
A demolição de boa parte do povoado para erguer a cidade planejada.
Essa substituição gerou perdas históricas, já que construções e memórias do antigo arraial desapareceram no processo. Ainda assim, foi sobre esse terreno que a capital foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897, em uma cerimônia oficial que marcou o nascimento da cidade.


Avenida arborizada no bairro Mangabeiras com as montanhas e antenas da Serra do Curral ao fundo em Belo Horizonte - Foto: Igor Souza
A cidade mudou de nome depois de pronta
Nem mesmo o nome da capital nasceu definido. Ao ser inaugurada, a cidade foi batizada de Cidade de Minas, denominação que durou poucos anos. Só mais tarde ela passaria a se chamar Belo Horizonte, nome que já era usado para se referir à região e à paisagem local.
A trajetória do nome resume bem como a cidade foi se definindo aos poucos:
O nome inicial de Cidade de Minas, usado na inauguração de 1897.
A troca para Belo Horizonte, oficializada já no século XX.
A origem do nome, ligada à paisagem e à região onde a cidade surgiu.
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O que restou do projeto original hoje?
Mais de um século depois, boa parte do desenho de Aarão Reis ainda é visível. O traçado planejado continua marcando a região central, mesmo que a cidade tenha crescido muito além do que o projeto previa. Alguns elementos ajudam a reconhecer o plano original no dia a dia:
As ruas em xadrez cruzadas por avenidas em diagonal, na área central.
A Avenida do Contorno, que delimitava a zona urbana planejada.
Praças e áreas projetadas desde o início, como a Praça da Liberdade.
O crescimento da cidade para muito além dos limites do plano.
Nem tudo saiu como Aarão Reis imaginou, e a planta não foi seguida à risca com o passar das décadas. Ainda assim, olhar para o mapa da região central é uma forma de enxergar, na prática, a cidade que um dia existiu só no papel antes de virar a capital de Minas.


Vista panorâmica da cidade de Belo Horizonte a partir das montanhas do Mirante da Serra do Curral, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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