Engenheiro Corrêa guarda um capítulo esquecido da história de Ouro Preto

Uma estação de trem abandonada por mais de 50 anos, um acidente que batizou o lugar e uma capela do século 19: o distrito mineiro que pouca gente conhece

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
06/10/2026

Um acidente na ferrovia, pouco depois da chegada dos trilhos no fim do século 19, deu nome a um distrito inteiro de Ouro Preto. Engenheiro Corrêa, com pouco mais de 400 moradores, cresceu em volta de uma estação ferroviária que passou décadas desativada e, depois de restaurada, voltou a servir à comunidade. Para quem percorre a Estrada Real em Minas Gerais, é uma parada que ajuda a entender uma parte pouco contada da região.

Como um engenheiro virou nome de lugar?

Antes da ferrovia, o povoado se chamava Santo Antônio do Monte e se formou em torno de uma pequena capela dedicada ao santo, cercada por fazendas que combinavam mineração e produção de alimentos. A estação chegou em 1896, batizada de Estação Sardinha por causa do Ribeirão Sardinha, que banha a região e servia às fazendas e às áreas de mineração próximas.

O nome atual homenageia Manuel Francisco Corrêa Júnior, engenheiro da ferrovia que morreu em um acidente no quilômetro 514, perto da estação, pouco tempo depois da inauguração. Para entender como o pequeno povoado chegou até aqui, vale acompanhar a sequência de fatos que marcou a sua trajetória ao longo de mais de um século:

  • 1896: inauguração da Estação Sardinha, na antiga Estrada de Ferro D. Pedro II;

  • fim do século 19: homenagem ao engenheiro morto no acidente, que passa a dar nome à estação e ao lugar;

  • 1953: elevação à categoria de distrito de Ouro Preto;

  • 1997: desativação da estação;

  • novembro de 2024: início da restauração;

  • dezembro de 2025: reinauguração do prédio restaurado.

O que a estação ferroviária ainda conta?

O distrito é cortado pela Linha do Centro da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, que nasceu como Estrada de Ferro D. Pedro II e hoje é operada pela MRS Logística. Única parada entre Miguel Burnier e Itabirito, a estação reunia tudo o que uma localidade ferroviária precisava, com agência bancária, serviço postal e uma caixa d’água de ferro que abastecia as locomotivas a vapor.

Desativado em 1997, o prédio passou décadas sem uso e chegou a um estado de ruína. A restauração começou em novembro de 2024, com recursos da Lei Rouanet, patrocínio da Herculano Mineração e do Grupo J. Mendes e apoio da Prefeitura de Ouro Preto. A obra incluiu novo telhado, recuperação das paredes e reforço da estrutura, e a estação foi reinaugurada em 14 de dezembro de 2025.

A estação restaurada virou espaço de cultura e memória

Além do prédio, a restauração alcançou todo o entorno do conjunto ferroviário. A caixa d’água histórica foi revitalizada, a fonte original foi recuperada e a área ganhou paisagismo, drenagem, iluminação e monitoramento. Por dentro, o espaço foi pensado para receber moradores e visitantes ao longo do ano, com ambientes como:

  • biblioteca;

  • sala de informática;

  • áreas para eventos e apresentações;

  • espaços para cursos e atividades educativas.

A memória do lugar também ganhou versão digital. Um projeto do Instituto Federal de Minas Gerais, campus Ouro Preto, criou uma reconstituição em 3D da estação em pleno funcionamento, pensada como material didático para moradores, estudantes e pesquisadores que queiram entender como a ferrovia movimentava o distrito.

Fachada de igreja branca e azul em Engenheiro Corrêa, Ouro Preto, MG
Fachada de igreja branca e azul em Engenheiro Corrêa, Ouro Preto, MG

Fachada de igreja branca e azul em Engenheiro Corrêa, Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza

Detalhe da cruz e imagem religiosa na igreja de Engenheiro Corrêa, MG
Detalhe da cruz e imagem religiosa na igreja de Engenheiro Corrêa, MG

Detalhe da cruz e imagem religiosa na igreja de Engenheiro Corrêa, MG - Foto: Igor Souza

Três templos resumem a fé do distrito

A religiosidade segue firme no calendário local. Em agosto, a festa de Nossa Senhora acontece junto com as comemorações do Sagrado Coração de Jesus. Já as celebrações de São José e São Sebastião reúnem novenas, missas, barraquinhas e leilões, em um formato bem típico das festas do interior mineiro.

Essa devoção também aparece nas construções religiosas que acompanham a história do lugar desde a época do antigo povoado. Entre os pontos turísticos do distrito, estes são os que mais ajudam a entender essa ligação com a fé:

  • Capela de Santo Antônio do Monte, do século 18, ligada à origem do povoado;

  • Capela de São José, do fim do século 19, de linhas sóbrias e influência neoclássica;

  • Igreja de Nossa Senhora da Conceição, construída por volta de 1940, quando o templo anterior já não comportava os fiéis.

Quais belezas naturais aparecem pelo caminho?

As belezas naturais de Engenheiro Corrêa são discretas, mas estão por toda parte. As matas ao redor concentram muitas espécies de pássaros pequenos, o que agrada quem gosta de observar aves com calma. O Ribeirão Sardinha segue cortando a região como afluente do Ribeirão Mata Porcos, numa bacia de mais de 120 km² que também banha Santo Antônio do Leite e Miguel Burnier.

Do alto de Santo Antônio do Monte, onde fica a capela mais antiga do distrito, a vista alcança o vale. Pelo caminho, ainda é possível ver restos de muros de pedra seca, que marcavam os limites das antigas fazendas e mostram como a terra era dividida na época em que a região abastecia Vila Rica.

+ Leia também: Qual é a cidade vizinha de Barbacena famosa por seu festival de frutas?

Como incluir o distrito em um roteiro pela Estrada Real?

Engenheiro Corrêa integra o Caminho Velho da Estrada Real, rota do ciclo do ouro que ajudou a formar as fazendas e os pontos de parada da região. Isso permite encaixar a visita em uma viagem por Ouro Preto e arredores, sem precisar planejar uma viagem só para o distrito.

Por ser um lugar pequeno, com estrutura simples de serviços, a visita funciona melhor como passeio de meio dia ou de um dia inteiro. Alguns cuidados ajudam a aproveitar melhor o tempo por lá e evitam surpresas na hora de chegar:

  • o distrito fica a cerca de 38 km do centro de Ouro Preto;

  • as opções de comida são poucas, como a Lanchonete e Restaurante Tonho;

  • consulte a programação da estação, que recebe cursos e eventos ao longo do ano;

  • programe a ida para agosto se quiser acompanhar as festas religiosas;

  • leve calçado confortável para subir até Santo Antônio do Monte.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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