Em Ladainha, os trilhos da Bahia-Minas passaram por 42 anos e deixaram estações, túneis e a antiga oficina de locomotivas de 1918
Trilhos, túneis e a única oficina de locomotivas de toda uma ferrovia seguem de pé numa cidade do Vale do Mucuri. Veja o que a linha deixou para trás
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
05/08/2026
Quem passa por Ladainha, no Vale do Mucuri, ainda esbarra com pedaços de ferro e de pedra que não estão ali por acaso. São o que restou da Estrada de Ferro Bahia-Minas, que chegou à cidade em 1918 e movimentou a economia da região por décadas. Estações, túneis e a única oficina de locomotivas de toda a linha continuaram no lugar mesmo depois que os trens pararam de vez, em 1966.
O que ainda dá para ver dos trilhos em Ladainha?
A ferrovia foi desativada há quase sessenta anos, mas Ladainha não apagou suas marcas. Boa parte da estrutura que servia aos trens continua de pé, hoje incorporada à rota turística que reúne os monumentos da antiga linha entre a Bahia e Minas Gerais. É um conjunto que sobreviveu ao tempo e ao abandono.
Andando pela cidade e pelos arredores, dá para reconhecer construções que tiveram função clara no funcionamento da estrada. Alguns pontos concentram o que há de mais significativo desse período:
A antiga estação e a casa do agente, ambas de 1918;
A oficina de máquinas, única em toda a ferrovia;
Os túneis abertos na rocha para a passagem dos trilhos;
Trechos de trilho e pequenas obras espalhados pela paisagem.


Antiga estação ferroviária de Ladainha MG ao lado de praça arborizada sob céu azul - Foto: Igor Souza
Por que a oficina de Ladainha era única na ferrovia?
A oficina de máquinas instalada em Ladainha não era uma construção qualquer. Ela foi a única de toda a Estrada de Ferro Bahia-Minas, o que colocou a cidade no centro da manutenção de praticamente tudo o que rodava sobre os trilhos entre os dois estados.
Ali se fazia desde a peça mais miúda até a locomotiva inteira. O trabalho pesado gerava emprego e atraía gente de fora, o que ajudou a economia local a crescer enquanto a linha esteve ativa. Na prática, a oficina dava conta de várias frentes:
Fabricação e conserto de peças, de parafusos a componentes grandes;
Reparo de vagões e de locomotivas;
Manutenção geral do material que circulava na linha.
Como os túneis foram abertos na rocha?
Para vencer o relevo da região, os construtores nem sempre tiveram como desviar dos obstáculos. Em 1918, um túnel foi aberto diretamente na rocha para dar passagem aos trilhos, e ele segue firme mais de cem anos depois, incorporado à memória do transporte que marcou o Mucuri.
No trecho entre Teófilo Otoni e Ladainha foram construídos dois túneis que resistem até hoje. Eles ajudam a medir o tamanho do esforço que a obra exigiu, num tempo em que quase tudo dependia de trabalho braçal, ferramenta simples e muita mão de obra.


Antiga ponte ferroviária metálica com montanha rochosa e mata ao fundo em Ladainha MG - Foto: Igor Souza
A estação guarda a lembrança de uma economia que passou
A chegada dos trilhos mudou a vida de Ladainha. Com a estação vieram investimento, movimento de mercadorias e postos de trabalho que antes não existiam por ali. A cidade viveu um período de fôlego enquanto o trem cruzava a região com regularidade.
Esse crescimento, porém, não se sustentou. A expansão da ferrovia foi interrompida e, em 1966, toda a linha acabou fechada. O que ficou para trás ainda conta essa história em duas frentes bem visíveis:
A estação e a casa do agente, ligadas hoje à memória ferroviária;
Os prédios que abrigavam os funcionários da linha.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Vale a pena parar em Ladainha numa viagem pelo Mucuri?
Ladainha não é um destino cheio de atrativos montados para o turista, e talvez esteja aí parte do seu interesse. Quem gosta de história e de andar por lugares de verdade encontra na cidade um capítulo concreto da ferrovia que ligou o Vale do Mucuri ao litoral baiano.
Se a ideia é conhecer a região com calma, vale juntar a parada a outros pontos da mesma linha. Para aproveitar melhor o passeio, considere:
Reservar tempo para ver a estação e a oficina sem pressa;
Incluir Teófilo Otoni, onde estão outros túneis do mesmo trecho;
Seguir a rota que reúne os monumentos da antiga Bahia-Minas.


Antigo túnel ferroviário cercado por mata e paredões de pedra em Ladainha MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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