Em Curimataí, no Norte de Minas, um canal d'água atravessa a rua principal e passa pelos quintais das casas há gerações

Um canal d’água feito há gerações passa pela rua e pelos quintais desta vila do sertão do Norte de Minas, cercada por cachoeiras, moinhos de fubá e serras

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
23/10/2025

Em 1817, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire escreveu que Curimataí era a única povoação do seu caminho com jardins. Mais de 200 anos depois, a água continua correndo pelo meio da vila, no interior de Minas Gerais, e passando pelos quintais das casas.

Onde fica Curimataí?

Curimataí é um distrito de Buenópolis, no Norte do estado, a cerca de 300 km de Belo Horizonte. A vila fica em um vale entre a Serra de Minas e a Serra do Cabral, na região do Espinhaço.

O acesso é feito por estrada de terra a partir de Buenópolis. Pelo Censo de 2022, o distrito tinha 1.370 moradores, que vivem entre ruas de terra batida e casas com traços dos séculos 18 e 19.

Como funciona o rego que corta a vila?

O canal acompanha a Rua do Rego e atravessa o centro de Curimataí. Segundo reportagem do jornal O Tempo, esses pequenos cursos d’água foram construídos por pessoas escravizadas para abastecer os moinhos da região.

Com o tempo, a água passou a fazer parte da rotina de quem mora ali e ganhou outros usos dentro das casas. Quem caminha pela rua percebe logo alguns detalhes que mostram essa relação entre a vila e o rego:

  • a água correndo ao lado da rua de terra;

  • as casas antigas e coloridas ao longo do canal;

  • os quintais com hortas abastecidas pelo rego;

  • os jardins mantidos com a mesma água.

Os jardins de Curimataí já chamavam atenção há dois séculos

Quando passou pela região, Saint-Hilaire registrou que os regatos ao redor do povoado permitiam irrigar hortas e jardins. Para ele, isso diferenciava a vila dos outros lugares por onde tinha passado.

Hoje, o rio, os córregos e o rego seguem no centro da vida local. A água está no quintal, na horta e também no banho de cachoeira, a poucos minutos da praça.

Casa rural em Curimataí, MG, com janelas verdes, telhado de barro e jardim arborizado
Casa rural em Curimataí, MG, com janelas verdes, telhado de barro e jardim arborizado

Casa rural em Curimataí, MG, com janelas verdes, telhado de barro e jardim arborizado - Foto: @praondevou

Casa antiga em Curimataí, MG, com fachada verde-clara, janelas de madeira e flores rosas no jardim
Casa antiga em Curimataí, MG, com fachada verde-clara, janelas de madeira e flores rosas no jardim

Casa antiga em Curimataí, MG, com fachada verde-clara, janelas de madeira e flores rosas no jardim - Foto: @praondevou

De onde vem a história da vila?

A origem de Curimataí está ligada à época do ouro e do diamante no Norte de Minas. O nome tem origem indígena e significa “rio dos curimatãs”, um peixe de escamas comum na região.

A data exata da fundação não é consenso entre os historiadores. Os registros reunidos sobre a vila mostram uma trajetória marcada por mudanças de território e por mais de uma versão sobre quem foram os primeiros moradores do lugar:

  • uma hipótese aponta o surgimento entre 1760 e 1770;

  • outra liga os primeiros moradores ao ouro e ao diamante levados sem pagar impostos;

  • a vila já pertenceu à Vila do Príncipe, atual Serro;

  • também esteve ligada a Curvelo;

  • foi criada como distrito por decreto em 14 de julho de 1832, ligada a Diamantina;

  • desde 1938, faz parte de Buenópolis.

Que cachoeiras ficam perto do centro?

A vila é cortada pelo Rio Curimataí, um dos maiores afluentes do Rio das Velhas. Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, ele leva água limpa para o rio principal.

Por estar tão perto do centro, a água do rio forma pontos de banho que podem ser visitados sem trilhas longas, alguns sem necessidade de guia. Quem não sabe nadar deve ter cuidado nos poços mais fundos. Entre as cachoeiras mais conhecidas, estão:

  • Cachoeira de Curimataí, também chamada de Cachoeira das Lavadeiras, a cerca de 1 km, com poço de cerca de 4 metros de profundidade;

  • Cachoeira do Brejinho, ou do Rio Preto, a cerca de 30 minutos de trilha;

  • Cachoeira do Simão, que perde bastante água na seca.

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A vila guarda outras marcas da cultura mineira

A força da água também movia os moinhos às margens do Rio Curimataí. Ali, o milho virava fubá e canjiquinha, e algumas dessas estruturas ainda funcionam ao longo da Trilha dos Moinhos.

Além do rego e das cachoeiras, a vila tem construções e paisagens que ajudam a entender a cultura mineira do sertão. Para quem tem mais tempo e quer conhecer esse lado da vila, alguns pontos merecem entrar no roteiro:

  • a Igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, palco de procissões e novenas;

  • o Curral da Contagem, do século 18, com paredes de pedra de cerca de 70 cm de espessura;

  • os moinhos de fubá, alguns ainda em funcionamento;

  • o Alto da Cachoeira, mirante com vista para o vale e as serras;

  • o acesso ao Parque Nacional das Sempre-Vivas, já que a vila é uma das suas portas de entrada.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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