Em Cordisburgo, um fazendeiro encontrou por acaso, há 201 anos, a gruta que se tornou o berço da paleontologia no Brasil
Um fazendeiro cavava atrás de salitre e encontrou, por acaso, ossos de animais gigantes extintos há milênios. A descoberta virou marco da ciência no Brasil
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
12/09/2026
Nem toda descoberta científica nasce em laboratório. Às vezes começa com uma picareta cavando atrás de salitre, no meio do mato, longe de qualquer universidade. Foi assim que, há exatos 201 anos, um homem que cuidava de terras no interior de Minas Gerais topou, por acaso, com a entrada de uma caverna desconhecida. Lá dentro havia ossos de animais gigantes, extintos havia milênios — um achado que mudaria os rumos da ciência no Brasil.
Como um fazendeiro comum acabou mudando os rumos da ciência no Brasil?
Em 1825, aquele trecho do sertão mineiro não tinha estradas boas nem ligação com centros de pesquisa. O homem que encontrou a fenda na rocha não tinha formação científica e não imaginava o tamanho do achado. Ele apenas registrou o fato como uma curiosidade da propriedade.
A notícia se espalhou pela região e o nome do lugar passou a circular entre vilas próximas. Levaria quase uma década, porém, até alguém com conhecimento técnico chegar até lá e entender o real valor daquilo.
O que ele estava procurando quando topou com a entrada da gruta?
A busca por salitre era comum no Brasil do século 19, sobretudo em áreas afastadas dos grandes centros. O mineral era essencial para a fabricação de pólvora, usada em conflitos, na caça e na defesa de propriedades rurais.
Esse tipo de exploração explica por que tantas cavernas brasileiras foram encontradas por moradores locais, e não por expedições científicas. Vale lembrar por que o salitre tinha tanto valor naquele período:
matéria-prima direta da pólvora de armas de fogo;
item de comércio valorizado em regiões distantes da costa.
Um naturalista dinamarquês morou dentro da caverna por quase dois anos
Em 1834, nove anos depois da descoberta, o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund chegou à região decidido a investigar o achado. Ele se instalou dentro da caverna, numa rotina de trabalho que duraria cerca de dois anos.
Foi uma dedicação pouco comum até para os padrões científicos da época. Durante esse período, Lund:
catalogou milhares de ossos fósseis retirados do local;
documentou câmaras e formações rochosas em detalhe;
lançou as bases da paleontologia e da arqueologia no Brasil.


Entrada da Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, MG, cercada por grandes formações rochosas - Foto: Igor Souza
Que tipo de criaturas gigantes foram encontradas lá dentro?
O período em que esses animais viveram é conhecido como Pleistoceno, quando parte da fauna brasileira era formada por mamíferos bem maiores do que qualquer coisa vista hoje no país. Muitos deles foram extintos antes da chegada dos primeiros povos à região.
Entre os fósseis retirados da gruta, os pesquisadores identificaram:
um tigre-dente-de-sabre, da espécie Smilodon populator;
uma preguiça-gigante extinta, batizada depois em homenagem ao próprio local;
restos de outros mamíferos de grande porte já extintos.
Por que esse achado é considerado o marco inicial da paleontologia brasileira?
Antes do trabalho de Lund, o Brasil não tinha uma tradição organizada de estudo de fósseis nem pesquisadores dedicados a esse tipo de investigação. O material recolhido naquela gruta foi decisivo para chamar a atenção da comunidade científica europeia.
Boa parte dos fósseis catalogados por Lund segue estudada, presente em coleções de museus e citada em publicações sobre a pré-história do continente. Por isso o episódio é tratado, em livros e pesquisas, como o ponto de partida da paleontologia no país.


Formação rochosa conhecida como Pão Francês no interior da Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, MG - Foto: Igor Souza
A estrutura da gruta impressiona até quem já visitou várias cavernas
O conjunto de galerias soma cerca de 650 metros, distribuídos em sete salões diferentes, cada um com formações próprias de estalactites, estalagmites e colunas de calcário. Essa variedade é um dos motivos pelos quais o local segue recebendo visitantes quase dois séculos depois.
Alguns espaços ganharam nomes próprios ao longo do tempo, conforme o formato das rochas ou episódios da exploração científica. Entre os principais salões abertos à visitação estão:
Salão do Vestíbulo;
Salão das Colunas;
Salão do Trono;
Salão dos Lagos;
Salão das Fadas.
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Como funciona a visitação hoje, quase dois séculos depois?
A gruta foi aberta para passeios em 1908 e, em 1967, tornou-se a primeira caverna do Brasil com iluminação artificial. Em 2005, passou a integrar uma unidade de conservação estadual, o que ajudou a proteger a formação rochosa e os sítios arqueológicos do local.
A visita é sempre acompanhada por um guia local, e algumas informações práticas ajudam quem pensa em conhecer o lugar de perto:
funcionamento das 8h às 17h, com últimos passeios às 16h;
pagamento apenas em dinheiro no local;
meia-entrada para estudantes e pessoas acima de 60 anos;
crianças até 5 anos não pagam ingresso.
Uma descoberta por acaso, feita por um homem sem qualquer pretensão científica, reescreveu um capítulo da história natural do país — e segue aberta para quem quiser ver de perto onde tudo começou.


Formações naturais e escadaria no interior da Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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