Em Cordisburgo, seis animais gigantes que viveram há milhares de anos ganharam réplicas de pedra numa praça pública
Seis animais gigantes, extintos há milhares de anos, ganharam réplicas de pedra numa praça pequena do interior mineiro, perto de Belo Horizonte
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
24/09/2026
Em 1872, três irmãos inauguraram no interior de Minas Gerais uma fábrica de tecidos com apenas 18 teares vindos dos Estados Unidos. O empreendimento cresceu, atraiu moradores para os arredores e acabou dando origem à cidade que hoje se chama Caetanópolis. Passados mais de 150 anos, essa história ainda aparece na paisagem, no relevo e no cotidiano do município.
Um convite entre irmãos deu início à indústria têxtil de Minas Gerais
Em 1864, os irmãos Bernardo e Caetano Mascarenhas procuraram o irmão mais velho, Antônio Cândido, que morava nas proximidades de Taboleiro Grande, atual Paraopeba. O convite era claro: juntar forças para montar uma fábrica de tecidos na região, algo praticamente inédito em Minas Gerais naquele momento. A sociedade entre os três selou o início de um projeto que mudaria a história do interior do estado.
Para viabilizar o negócio, os irmãos adquiriram a Fazenda da Ponte, próxima a Taboleiro Grande, em 1870. Coube a Bernardo Mascarenhas viajar até os Estados Unidos para comprar os equipamentos necessários, decisão que definiria o rumo da fábrica. Foi esse investimento inicial que, poucos anos depois, colocou o interior de Minas Gerais no centro da indústria têxtil nacional.


Escultura de preguiça-gigante no Zoológico de Pedras de Cordisburgo, MG, próxima ao coreto - Foto: Igor Souza
Por que os teares vieram dos Estados Unidos?
A escolha por equipamentos importados não foi aleatória: na época, o Brasil ainda não produzia teares com a qualidade necessária para abastecer uma fábrica de tecidos em escala relevante. Bernardo Mascarenhas cruzou o Atlântico justamente para resolver esse gargalo, garantindo que a nova fábrica começasse com tecnologia adequada. Essa viagem resultou em números que ainda hoje aparecem em qualquer registro sobre a origem da indústria têxtil mineira:
18 teares importados dos Estados Unidos;
Uma fábrica inaugurada em 12 de agosto de 1872.
Com esses teares em funcionamento, a fábrica se tornou a primeira unidade têxtil a operar de forma contínua e bem-sucedida em Minas Gerais — o estado já havia registrado tentativas anteriores de industrialização têxtil, mas nenhuma se firmou como a fábrica dos Mascarenhas. O feito rendeu à iniciativa dos irmãos um lugar de destaque na história industrial do país. Anos depois, a empresa passaria a se chamar Companhia Cedro e Cachoeira, nome que segue em atividade até hoje.
Como a fábrica deu origem à cidade de Caetanópolis?
Com a fábrica funcionando, os operários passaram a morar nos arredores, formando aos poucos uma vila conhecida como Cedro. O crescimento populacional acompanhou o ritmo da produção têxtil, e a localidade se tornou distrito de Paraopeba nos anos seguintes. Essa vila operária foi, na prática, o embrião do município que existe hoje.
A emancipação política só aconteceu em 1954, por iniciativa do Padre Chaves e de Antônio Joaquim Mascarenhas, que se tornou o primeiro prefeito. Com a nova condição de município, o nome mudou de Cedro para Caetanópolis, em homenagem ao coronel Caetano Mascarenhas, um dos fundadores da fábrica. O gesto reconheceu, de forma direta, quem havia dado origem a toda essa história.


Escultura de tigre-dentes-de-sabre no Zoológico de Pedras de Cordisburgo, MG, ao lado de coreto - Foto: Igor Souza
O que o relevo e o cerrado da região têm a ver com essa história?
Caetanópolis fica a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte, pela BR-040 em direção a Brasília, em uma área de aproximadamente 156 quilômetros quadrados. O relevo do município é marcado pela Serra do Imbiruçu, que chega a 1.065 metros de altitude na divisa com Sete Lagoas, e pela Serra da Lontra, com 946 metros. Essas elevações fazem parte do domínio dos campos e cerrados que caracteriza boa parte do interior de Minas Gerais.
O bioma cerrado, oficialmente reconhecido pelo IBGE como vegetação original da área, também influenciou o tipo de ocupação da terra ao longo dos séculos. Entre indústria têxtil, extração de pedra ardósia e atividades rurais, o município soma hoje diferentes frentes econômicas que convivem lado a lado. Alguns pontos ajudam a resumir essa combinação entre relevo, produção e história:
Indústria têxtil, herança direta da fábrica fundada em 1872;
Extração e beneficiamento de pedra ardósia;
Agricultura ligada às características do solo da região;
Pecuária distribuída pelas propriedades rurais do entorno;
Relevo com altitudes que variam entre 946 e 1.065 metros.
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Quais lugares contam essa trajetória hoje?
Quem visita Caetanópolis encontra pontos turísticos que resgatam essa história por toda a cidade. A antiga fábrica, hoje sob a marca Cedro, continua sendo o marco mais evidente dessa trajetória centenária. Outros espaços completam esse roteiro e ajudam a entender como o município se desenvolveu ao longo do tempo:
Museu Têxtil Décio Mascarenhas, em funcionamento desde 1983;
Igreja Matriz de Santo Antônio, um dos maiores templos dedicados ao santo em Minas Gerais;
Memorial Clara Nunes, inaugurado em 2012.
O Museu Têxtil reúne mais de mil peças ligadas à história da fábrica e é considerado um dos mais completos do país no seu segmento. Caetanópolis também é lembrada como terra natal da cantora Clara Nunes, o que amplia ainda mais o interesse por sua história. Juntas, essas referências mostram como um projeto iniciado em 1872 segue presente no dia a dia do município.


Escultura de mamute no Zoológico de Pedras de Cordisburgo, MG, em meio a árvores e caminhos - Foto: Igor Souza
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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