Em Cachoeira do Campo, Ouro Preto: a igreja que consagrou o 1º governador eleito das Américas

Dentro de uma matriz colonial a 75 km de BH, aconteceu algo que nenhum livro de escola conta direito. A história desse distrito de Ouro Preto vai te surpreender

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
14/07/2026

Igreja Matriz de Cachoeira do Campo em Ouro Preto com fachada branca, torres amarelas
Igreja Matriz de Cachoeira do Campo em Ouro Preto com fachada branca, torres amarelas

Igreja Matriz de Cachoeira do Campo em Ouro Preto com fachada branca, torres amarelas e andaimes laterais - Foto: Igor Souza

Em 1708, antes dos Estados Unidos existirem, antes de qualquer república americana ser fundada, um governador foi eleito pelo povo e consagrado dentro de uma igreja no interior de Minas Gerais. O distrito de Cachoeira do Campo, pertencente a Ouro Preto, foi o palco desse episódio que ficou fora dos livros didáticos. Fica a 75 quilômetros de Belo Horizonte pela BR-356 e a apenas 22 quilômetros do centro de Ouro Preto.

O que foi a Guerra dos Emboabas e por que ela aconteceu ali?

O termo "emboaba" era usado pelos bandeirantes paulistas para chamar os forasteiros que chegavam às minas de ouro. Portugueses e imigrantes de outras regiões disputavam com os paulistas o controle da exploração aurífera em Minas Gerais, e o conflito se acirrou entre 1708 e 1709 numa das disputas mais sangrentas do período colonial.

Cachoeira do Campo foi o cenário da batalha decisiva. Manuel Nunes Viana liderou os chamados emboabas e saiu vencedor. Logo depois, dentro da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, ainda em construção, ele foi sagrado por aclamação popular o primeiro governador eleito pelo povo da história das Américas. A Coroa Portuguesa não aceitou, nomeou um governador oficial e criou a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro em 1709. Mas o fato já havia acontecido.

A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré guarda mais do que esse episódio

A igreja foi construída entre 1700 e 1725 e é um exemplar do estilo nacional-português, o primeiro do barroco mineiro. Os altares são suntuosos e o interior tem ricos elementos artísticos que contrastam com a fachada mais contida. Durante o período colonial, os governadores da Capitania de Minas assistiam à missa nessa matriz, pois havia em Cachoeira do Campo um palácio da Coroa portuguesa. A visitação é gratuita e acontece todos os dias das 9h às 11h e das 14h30 às 18h.

No adro da mesma matriz aconteceu outro episódio histórico em 1720: a prisão de Felipe dos Santos, que liderou a Sedição de Vila Rica contra a cobrança abusiva de impostos pela Coroa. Sobre sua execução há controvérsias históricas:

  • Uma versão relata enforcamento seguido de esquartejamento;

  • Outra descreve o corpo amarrado a cavalos que saíram em disparada;

  • O companheiro de revolta, Pascoal Guimarães, foi condenado e teve sua propriedade incendiada.

O Palácio dos Governadores existiu aqui e hoje é um colégio

Em 1773, o governador Dom Rodrigo de Menezes mandou construir em Cachoeira do Campo um palácio de campo para uso dos governadores da Capitania. A edificação foi ampliada em 1782 e chegou a ter um lago artificial de 100 por 35 metros com capacidade estimada de mais de 20 milhões de litros de água, onde até uma embarcação a vela de 7 metros navegava. Os governadores preferiam Cachoeira a Vila Rica exatamente pelo clima mais ameno e pela distância do barulho das minerações.

O palácio não existe mais. Em 1811 foi transformado em internato pelas Irmãs Salesianas e hoje funciona no local o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. As ruínas do conjunto ainda podem ser vistas e indicam a grandiosidade da construção original.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

O que mais vale parar para conhecer no distrito

Cachoeira do Campo é também o maior distrito de Ouro Preto, com população superior a 12 mil habitantes segundo o censo de 2022, e funciona como polo de artesanato e gastronomia na BR-356. A Praça do Artesão concentra produção regional variada, e a Cervejaria Ouropretana tem sua fábrica instalada no distrito, com visitas guiadas disponíveis ao processo de produção.

Para quem quer montar um roteiro pelo distrito, os pontos que combinam história e experiência prática são:

  • Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, com visitação gratuita e interior barroco bem preservado;

  • Praça do Artesão, com móveis de demolição, bordados, culinária típica e objetos decorativos;

  • Cervejaria Ouropretana, com tour pelo processo de produção e degustação de mais de 15 rótulos de chope;

  • Ruínas do Palácio dos Governadores, hoje Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, com vestígios da construção colonial.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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