Em 1906, Araguari virou o ponto de partida da ferrovia que levou os trilhos de Minas até o interior de Goiás
Três ferrovias se cruzavam nesta cidade mineira, e uma delas mudou o rumo do Centro-Oeste. Veja o que restou dessa história e onde ela ainda pode ser vista
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
29/10/2026
Foi um decreto federal assinado em março de 1906 que colocou Araguari no centro de um dos projetos mais ousados do interior do Brasil. Dali sairia a Estrada de Ferro Goiás, criada para ligar o Triângulo Mineiro a um território ainda isolado do resto do país. O plano levou décadas para se completar, mas mudou de vez a história de Araguari.
Por que Araguari foi escolhida como ponto de partida?
A resposta está nos trilhos que já existiam. Em 1896, a Companhia Mogiana, vinda de São Paulo, inaugurou sua estação em Araguari, que se tornou o fim da linha paulista. Para levar o trem até Goiás, nada mais lógico do que começar onde a outra ferrovia parava.
A ideia, porém, era antiga. O projeto nasceu como Estrada de Ferro Alto Tocantins, ficou engavetado por cerca de doze anos e só foi retomado em 1906, já com o novo nome e com Araguari confirmada como ponto inicial. Na retomada, o desenho da empreitada ficou assim:
A companhia tinha capital privado, mas contava com o apoio do governo federal;
A linha começaria na ligação com a Mogiana, em Araguari;
O destino final previsto era a Cidade de Goiás, então capital do estado.
Os trilhos avançaram devagar pelo sul de Goiás
A construção foi lenta e irregular. As obras em território goiano começaram em 1909, e cada trecho entregue mudava a vida de cidades afastadas dos grandes mercados. Alguns marcos ajudam a entender esse ritmo:
1913: os trilhos alcançam Ipameri, no sudeste goiano;
1914: surge a estação de Roncador, que fecha o primeiro grande trecho, com 234 quilômetros desde Araguari;
1935: o primeiro trem chega a Anápolis, em 7 de setembro;
1952: a estação de Goiânia, inaugurada dois anos antes, começa a receber trens.
No auge, a linha somava cerca de 480 quilômetros e 30 estações. O curioso é que o destino original nunca foi alcançado: a antiga capital ficou de fora, e a ponta dos trilhos acabou sendo Goiânia, que nem existia em 1906.
O que mudou em Araguari com o entroncamento?
Com a chegada da Estrada de Ferro Goiás, Araguari virou ponto de encontro de duas companhias e, mais tarde, de uma terceira, a Oeste de Minas. Era ali que a produção vinda do interior goiano trocava de trem para seguir rumo ao Sudeste, o que fez da cidade um polo econômico do Triângulo Mineiro por um bom tempo.
Em 1920, depois de seguidas crises, o governo federal assumiu a companhia. O dinheiro público investido na ferrovia se concentrou em Araguari, e é dessa década que vêm os prédios do conjunto ferroviário que ainda marca o centro da cidade.


Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar a chegada dos trilhos ao cerrado no início do século XX


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar objetos do cotidiano ferroviário do início do século XX
Como era a vida dos ferroviários na cidade?
Entre as décadas de 1930 e 1960, a ferrovia era muito mais do que um meio de transporte em Araguari. A empresa organizava o dia a dia de quem trabalhava nela, do estudo ao lazer, e criou em torno dos trilhos uma espécie de cidade dentro da cidade.
Esse complexo formou gerações de famílias ferroviárias, cujos sobrenomes ainda aparecem nos nomes de ruas e na memória local. Entre as estruturas mantidas pela empresa, estavam:
A Escola Profissional Ferroviária;
A Vila Ferroviária, onde moravam os funcionários;
As oficinas de manutenção e fabricação de vagões;
O Hospital Ferroviário;
O clube Goiás Atlética e a cooperativa de consumo.
O que aconteceu com os trilhos depois do auge?
A partir dos anos 1930, o setor ferroviário brasileiro entrou num longo processo de perda de força. O avanço das rodovias tirou passageiros e cargas dos trens, e a chegada tardia dos trilhos a Goiânia coincidiu com o momento em que as estradas ganhavam prioridade no país.
Em Araguari, o golpe mais duro veio em 1973, quando a Mogiana encerrou suas atividades na cidade e teve a estação abandonada até a demolição. O prédio da Goiás também ficou sem uso, enquanto a linha passava para a Rede Ferroviária Federal e, em 1996, para a iniciativa privada.
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A antiga estação virou o maior símbolo do patrimônio ferroviário de Araguari
Ao contrário da Mogiana, o prédio da Goiás resistiu. De arquitetura eclética, ele foi tombado pelo Estado junto com os edifícios ao redor, restaurado e devolvido à população em 2005 como Palácio dos Ferroviários. Para quem visita a cidade hoje, essa memória está reunida em:
O Palácio dos Ferroviários, que abriga a sede da prefeitura;
O conjunto de prédios da antiga estação, na Praça Gaioso Neves;
O Parque dos Ferroviários, criado em 2021 sobre a antiga área operacional da linha.
Antes de ir, vale confirmar com a prefeitura os horários dos espaços abertos à visitação. O passeio é curto, mas mostra por que o turismo em Araguari passa pela lembrança dos trilhos que um dia levaram Minas até o interior de Goiás.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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