Em 1861, Juiz de Fora ganhou ligação com Petrópolis por 144 km de estrada macadamizada, uma técnica rara no Brasil
Mil mulas, colonos alemães e 12 horas de diligência marcaram a primeira estrada com pavimento moderno da América Latina, aberta com a presença do imperador
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
01/11/2026
Em 23 de junho de 1861, D. Pedro II embarcou numa diligência em Petrópolis e desceu em Juiz de Fora no fim da jornada. Era a viagem inaugural da Estrada União e Indústria, 144 quilômetros de pista feita com uma técnica que ninguém ainda tinha usado na América Latina. A obra mudou o transporte do café e o destino da cidade mineira.
Quem teve a ideia de ligar Juiz de Fora a Petrópolis?
O projeto nasceu com Mariano Procópio Ferreira Lage, que obteve a concessão da estrada em 1854. Para tirar a ideia do papel, ele criou a Companhia União e Indústria, que tinha como acionistas fazendeiros de café interessados em uma forma mais rápida e segura de levar as sacas até o porto.
As obras começaram em 12 de abril de 1856, com a presença do imperador e da família imperial. O primeiro trecho, entre Vila Teresa e Pedro do Rio, foi aberto em 1858, e a estrada completa ficou pronta cinco anos depois do início, prazo considerado curto para uma obra desse porte na época.
O que é a técnica de macadame?
O macadame é um método de pavimentação feito com camadas de pedra britada, bem compactadas e organizadas por tamanho. Em vez de grandes blocos, a pista recebia pedras cada vez menores à medida que subia, formando uma superfície firme e com boa drenagem. A estrutura seguia esta lógica:
Base com pedras de 5 a 7,5 centímetros de diâmetro;
Camadas intermediárias com pedras progressivamente menores;
Acabamento com pedras de cerca de 2 centímetros.
O pavimento ficava com uma espessura de cerca de 25 centímetros, bem menos que o metro das antigas estradas romanas. Com largura média de 8 metros, a União e Indústria permitia que carruagens circulassem nos dois sentidos a até 20 quilômetros por hora.
A obra trouxe cerca de 2 mil alemães para Juiz de Fora
Para dar conta da construção, Mariano Procópio contratou trabalhadores na Alemanha e criou a Colônia Dom Pedro II, que abrigou cerca de 2 mil imigrantes. Em 12 de abril de 1858, 1.162 pessoas chegaram de uma só vez à cidade, um volume enorme para o povoado da época.
Muitos desses colonos também passaram a cuidar das estações de troca de animais ao longo do caminho. A presença alemã deixou marcas na formação de Juiz de Fora, e a própria casa de Mariano foi projetada por um arquiteto alemão, Carlos Augusto Gambs.


Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar uma diligência do século XIX em estrada de pedra


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar as camadas de uma estrada feita em macadame
Como era a viagem de diligência pela União e Indústria?
O percurso completo levava cerca de 12 horas, tempo que deu nome ao guia Doze Horas em Diligência, publicado em 1872. No auge, as estrebarias da companhia reuniam perto de mil mulas, sendo 400 para as diligências de passageiros e 600 para as carroças de carga, quase sempre carregadas de café.
A troca de animais acontecia em estações espalhadas pelo caminho, onde os viajantes também paravam para descansar. Entre as paradas mais conhecidas da estrada, estavam:
Pedro do Rio, a primeira delas;
Juliaca;
Serraria;
Entre-Rios;
Paraibuna.
O que aconteceu com a estrada depois?
A chegada dos trilhos mudou o jogo. Com o avanço das ferrovias, a forma de viajar e de transportar cargas pela região mudou, e a estrada foi perdendo protagonismo ao longo das décadas seguintes:
1898: pontes da estrada entre Areal e Três Rios são adaptadas para receber trens;
Meados do século XX: novos trechos são construídos entre Petrópolis e Itaipava;
1973: a estrada é incorporada ao traçado previsto da BR-040;
1980: a BR-040 assume o papel de via principal entre as duas cidades.
Hoje, a antiga União e Indústria segue em uso como rodovia de tráfego local, dividida em trechos com diferentes numerações estaduais e federais. Pontes e viadutos da época ainda podem ser vistos no caminho, especialmente no lado fluminense da estrada.
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Juiz de Fora guarda a memória de Mariano Procópio
A antiga Villa Ferreira Lage, residência da família de Mariano, recebeu D. Pedro II em 1869 e virou museu em 23 de junho de 1921, data do centenário de nascimento do empreendedor. A iniciativa foi do filho dele, Alfredo Ferreira Lage, que doou o conjunto ao município nos anos 1930.
Hoje, o Museu Mariano Procópio ajuda a contar a história da estrada e do período imperial, e vale confirmar os horários de visitação antes de ir. Para quem visita, o conjunto reúne:
Cerca de 50 mil peças, com destaque para o período do Império;
O casarão projetado por Carlos Augusto Gambs;
Um parque arborizado com lago, aberto ao público.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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