Em 1853, a jovem escravizada Rosa achou em Estrela do Sul um diamante de mais de 250 quilates que ganhou fama mundial
Um achado no cascalho de um rio mineiro rendeu liberdade a uma jovem e levou uma pedra rara a exposições em Londres e Paris e às joias de um príncipe indiano
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
30/10/2026
Foi num monte de cascalho às margens do Rio Bagagem, em julho de 1853, que uma jovem escravizada chamada Rosa encontrou uma pedra que mudaria a história do lugar. O achado virou o diamante Estrela do Sul, passou por bancos, exposições e coleções de três continentes e acabou dando nome à cidade mineira onde foi encontrado.
Como uma jovem escravizada encontrou a pedra?
Rosa pertencia a Casimiro de Morais, morador da antiga Bagagem, povoado de garimpo no Triângulo Mineiro. Pela versão mais conhecida, ela entregou o diamante ao senhor e, em troca, recebeu a liberdade e a promessa de uma pensão para o resto da vida. Há ainda uma versão paralela, que atribui o achado a um jovem escravizado chamado Marcos.
Seja qual for a origem exata, a pedra chamou atenção logo de cara. Antes de qualquer lapidação, o diamante apresentava características pouco comuns para os padrões da época:
Peso bruto de mais de 250 quilates;
Formato natural com 24 faces;
Alguns pequenos pontos escuros no interior.
Por que o diamante valia tanto?
Casimiro encarregou um intermediário de vender a pedra, que acabou vendida por 3 mil libras esterlinas. Pouco depois, o comprador a registrou num banco do Rio de Janeiro com um valor dez vezes maior. Da Bagagem, o diamante seguiu para Amsterdã, onde passou pelas mãos de uma das lapidações mais tradicionais da Europa:
Seguiu para a casa Coster, de Amsterdã;
Ficou a cargo de Voorzanger, que havia trabalhado no famoso Koh-i-Noor;
Ganhou formato oval, em almofada;
Terminou com 128,48 quilates, perto da metade do peso original.
O resultado foi uma pedra branca quando vista sob luz refletida, mas com um leve tom rosado quando a luz a atravessa. Foi o grupo de comerciantes Halphen, de Paris, que a batizou de Estrela do Sul, nome com que ela ficou famosa.
A pedra rodou o mundo antes de chegar à Índia
Os novos donos levaram o diamante às grandes vitrines da época. Ele foi exibido na Exposição Internacional de Londres, em 1862, e na Exposição Universal de Paris, em 1867, eventos que reuniam o que havia de mais valioso e inovador no mundo.
Uma venda para um marajá indiano, por 110 mil libras, chegou a ser negociada, mas não se concretizou. A pedra só foi parar na Índia quando o príncipe Malhar Rao, da família Gaekwad, de Baroda, pagou 80 mil libras por ela e a montou num colar ao lado de outro diamante célebre, de 78,5 quilates.


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar o garimpo de diamantes em leito de rio no século XIX


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar uma oficina de lapidação de pedras no século XIX
Onde está o Estrela do Sul hoje?
Depois de décadas na Índia, o diamante voltou ao mercado internacional e foi parar na vitrine de uma das joalherias mais conhecidas do mundo. Em 2006, apareceu montado numa pulseira apresentada numa feira de antiguidades de prestígio em Paris.
O caminho até lá passou por alguns donos conhecidos, e um integrante da antiga família real indiana ainda contesta a venda. A sequência de proprietários registrada desde o século XIX inclui:
A família Gaekwad, de Baroda;
O comerciante Rustomjee Jamsetjee, de Mumbai;
A joalheria Cartier, que comprou a pedra por volta de 2002.
Como o diamante mudou o nome da cidade?
O nome antigo tinha origem curiosa. Segundo a tradição, os garimpeiros deixavam suas coisas num ponto à beira do rio e, ao voltar, diziam que iam à bacagem, palavra usada para os pertences de quem viaja. Com o tempo, o povoado cresceu e ganhou etapas importantes:
1853: Dona Beija, nome famoso de Araxá, muda-se para a Bagagem e passa a negociar diamantes;
1856: o lugar vira vila, separado de Patrocínio;
1861: a vila é elevada a cidade;
Por volta de 1870: a produção de diamantes começa a cair;
1901: a cidade passa a se chamar Estrela do Sul.
A troca de nome foi uma homenagem direta ao diamante e à história de Rosa. Com a queda do garimpo, muitos moradores foram embora, e quem ficou passou a viver da lavoura e da criação de gado, atividades que seguem fortes até hoje.
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Estrela do Sul ainda guarda a memória do garimpo
A cidade fica no Triângulo Mineiro, a cerca de 505 quilômetros de Belo Horizonte, com acesso pela MG-223. O Rio Bagagem continua cortando o município, e casarões, igrejas e fazendas do período ajudam a contar como era a vida na época de maior movimento das lavras.
A história local também inspirou a literatura. O romance O Garimpeiro, de Bernardo Guimarães, tem a região como pano de fundo, e a presença das pessoas escravizadas, que eram maioria nos primeiros tempos, aparece na arquitetura e na cultura que a cidade preserva.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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