Em 1724, a igreja de Raposos se tornou a primeira Matriz de toda Minas Gerais, por alvará de Dom João V

A meia hora de Belo Horizonte, um vilarejo silencioso guarda uma capela do século 17 que virou parada obrigatória da primeira ferrovia do Brasil

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
03/08/2026

Ouro Preto, Mariana e São João del-Rei dividem a fama de guardar as igrejas mais antigas de Minas Gerais. Mas o título de primeira matriz do estado pertence a uma capela erguida às margens do Rio das Velhas, em um povoado que hoje soma pouco mais de 71 quilômetros quadrados. A 32 km de Belo Horizonte, Raposos recebeu o título por alvará direto do rei português Dom João V, em 1724 — três décadas antes de boa parte das cidades históricas mineiras sequer existir.

Raposos nasceu de uma expedição em busca de ouro no Rio das Velhas

A história do povoado começa junto com a própria história de Minas. Em 1690, o bandeirante Pedro de Morais Raposo foi designado pelo governador-geral Arthur de Sá e Meneses para procurar ouro e pedras preciosas nos sertões da capitania, então habitados pelos índios Cataguás, povo que ocupava boa parte do que hoje é a região metropolitana da capital mineira.

A expedição subiu o Rio Guaicuy, hoje Rio das Velhas, e parou na confluência com o Ribeirão da Prata, onde encontrou ouro de aluvião e fundou o Arraial dos Raposos. Em 8 de dezembro daquele ano, foi consagrada ali a capela de pau a pique de Nossa Senhora da Conceição, embrião da futura matriz.

Por que a igreja da cidade virou a primeira matriz de Minas Gerais?

A capela original passou por reforma a partir de 1703 e ganhou traços da primeira fase do barroco mineiro. O templo cresceu junto com a riqueza aurífera do arraial, que chegou a abastecer regiões vizinhas como Sabarabuçu, Arraial Velho e Santo Antônio do Rio Acima durante o auge da mineração.

O reconhecimento oficial veio em 1724, quando o templo recebeu a vigária colatícia por alvará de Dom João V, tornando-se a primeira matriz de Minas Gerais. Na prática, essa condição garantia à paróquia um vigário fixo e autonomia administrativa dentro da estrutura eclesiástica portuguesa, um privilégio raro para um arraial daquele tamanho.

Fachada da igreja matriz com torres, relógios e detalhes azuis em Raposos, MG
Fachada da igreja matriz com torres, relógios e detalhes azuis em Raposos, MG

Fachada da igreja matriz com torres, relógios e detalhes azuis em Raposos, MG - Foto: Igor Souza

Torre com relógio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Raposos, MG
Torre com relógio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Raposos, MG

Torre com relógio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Raposos, MG - Foto: Igor Souza

A cidade também guarda os primeiros trilhos de ferro do Brasil

Além da matriz, Raposos concentra outro marco pouco lembrado fora de Minas. O município recebeu, em 1869, um trecho pioneiro da Estrada de Ferro Dom Pedro II, a primeira linha ferroviária construída no país, ligando Ouro Preto, Raposos e Sabará. Passageiros e cargas de minério passaram a circular pela estrada de ferro, encurtando o trajeto até então feito por tropas de mulas.

Dois marcos físicos ainda contam essa história de perto:

  • Ponte Pedro II, estrutura de ferro de 300 metros fabricada na Inglaterra e transportada em partes para cruzar o Rio das Velhas;

  • Antiga Estação Ferroviária, inaugurada em 1891 e hoje sede do escritório de turismo da cidade.

Quais outras atrações valem a visita?

Fora do circuito histórico, o município guarda cachoeiras de acesso relativamente fácil e tradições populares que resistem há séculos. O Manancial do Ribeirão da Prata funciona como porta de entrada para o Parque Nacional da Serra do Gandarela, uma das áreas de proteção ambiental mais recentes de Minas Gerais, cuja cobertura vegetal compõe corredores importantes para a fauna da região.

Entre os pontos mais procurados por quem visita a região estão:

  • Capela de Nossa Senhora do Rosário, erguida no século 18 por população escravizada;

  • Cachoeira de Santo Antônio, com piscina natural de águas geladas;

  • Cachoeira Janela do Céu, acessível por trilha de cerca de 7 km em cada sentido;

  • manifestações culturais como Congado, Marujada e Folia de Reis, mantidas ao longo do ano;

  • trilhas ao redor do Manancial do Ribeirão da Prata, com trechos de vegetação preservada.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como chegar e quando visitar Raposos?

O acesso a partir de Belo Horizonte é direto pela rodovia AMG-150, com cerca de 32 km e tempo médio de 50 minutos fora do horário de pico. A BR-381 oferece uma rota alternativa pela região leste da capital, com saída próxima a Nova Lima. Quem vem de fora do estado pode usar o Aeroporto Internacional de Confins, a cerca de 60 km de distância, com opções de transfer e ônibus regulares.

A escolha da época de visita muda bastante a experiência:

  • inverno, entre junho e agosto, com clima seco e melhor visibilidade para fotografar as igrejas e a Ponte Pedro II;

  • verão, entre dezembro e fevereiro, quando as chuvas deixam as cachoeiras com volume mais cheio.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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