Eleito uma das 21 maravilhas da Estrada Real, o Bicame de Pedra resiste há mais de 230 anos em Catas Altas
Uma parede de pedra do século XVIII ainda resiste aos pés de uma serra mineira, erguida para abastecer a lavagem do ouro na região
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
05/09/2026
Uma parede de pedra erguida há mais de 230 anos ainda corta a paisagem aos pés da Serra do Caraça, em Catas Altas. O Bicame de Pedra foi construído por volta de 1792, por mãos escravizadas, para levar água até a região de Brumado, onde o ouro extraído das minas era lavado. Hoje, a construção é reconhecida como uma das 21 maravilhas da Estrada Real.
O Bicame de Pedra é um aqueduto erguido por mãos escravizadas há mais de dois séculos
A construção do aqueduto é atribuída a trabalhadores escravizados, por volta de 1792, num dos períodos mais intensos da mineração de ouro em Minas Gerais. A obra fazia parte da estrutura que sustentava a extração do minério na região.
Seu objetivo era captar água na Serra do Caraça e conduzi-la até o povoado de Brumado, onde o ouro retirado das minas passava pelo processo de lavagem. A história do monumento carrega, assim, o peso do trabalho forçado que sustentou o ciclo do ouro:
Construção datada de aproximadamente 1792;
Realizada por mão de obra escravizada;
Água destinada à lavagem do ouro em Brumado.
Como a água era conduzida até Brumado?
O Bicame funcionava como um elevado de pedras, erguido para vencer o desnível entre a Serra do Caraça e a parte mais baixa da região. A água captada na serra seguia por essa estrutura até chegar ao ponto onde o ouro era processado.
Em seus pontos mais altos, a construção chega a 5,10 metros de altura. A escala da obra reflete a importância que o abastecimento de água tinha para viabilizar a exploração do ouro naquele período.
Que técnica de construção permitiu ao bicame resistir tanto tempo?
O aqueduto foi erguido com pedras de quartzito, seguindo técnicas inspiradas na construção romana, sem uso de cimento ou argamassa. O encaixe preciso das pedras é o que garante a estabilidade da estrutura até hoje.
Esse método fica especialmente visível no arco do portal central, onde as pedras foram posicionadas de forma que umas travam as outras. É esse sistema de encaixe, e não qualquer material de ligação, que resistiu ao tempo:
Pedras de quartzito extraídas da região;
Técnica sem uso de cimento ou argamassa;
Encaixe das pedras no arco do portal central;
Estabilidade mantida por mais de 230 anos.


Bicame de Pedra com estrutura histórica e montanhas ao fundo em Catas Altas, MG - Foto: Igor Souza


Arco de pedra do Bicame de Pedra cercado por vegetação em Catas Altas, MG - Foto: Igor Souza
O que restou do bicame depois de mais de 230 anos?
Da estrutura original, restam hoje menos de 200 metros, segundo o cadastro municipal de patrimônio. O restante foi perdido ao longo de mais de dois séculos de exposição ao tempo e à ação da natureza.
Mesmo reduzido, o trecho que sobrou preserva o arco do portal e uma escadaria lateral, que dá acesso à parte superior da construção. É esse fragmento que hoje recebe os visitantes que chegam à região.
Onde fica o bicame e como chegar até ele?
O monumento está a cerca de 12 quilômetros do centro de Catas Altas, no povoado de Quebra Ossos. O acesso é feito por estrada de terra, seguindo o sentido de Santa Bárbara e Barão de Cocais até um atalho que leva ao local.
A visitação é gratuita e pode ser feita em qualquer dia, sem horário fixo. Antes de seguir viagem, vale considerar alguns pontos práticos:
Cerca de 12 km de distância do centro de Catas Altas;
Trecho final por estrada de terra;
Entrada gratuita, sem necessidade de agendamento;
Sem horário fixo de funcionamento;
Melhor luz para fotos ao entardecer.
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O bicame integra rotas oficiais da Estrada Real.
Reconhecido como uma das 21 maravilhas da Estrada Real, o Bicame de Pedra também faz parte do Caminho dos Diamantes, um dos trajetos históricos que compõem a rota. Sua localização, aos pés da Serra do Caraça, reforça essa ligação com o passado colonial da região.
O monumento ainda serve como marco da Rota Nos Passos de Dom Viçoso, caminho de 88 quilômetros entre o Santuário do Caraça e Cartuxa, em Mariana, criado em homenagem ao sétimo bispo de Mariana. Entre os pontos que situam o bicame nesse conjunto de rotas estão:
Uma das 21 maravilhas da Estrada Real;
Parte do Caminho dos Diamantes;
Marco da Rota Nos Passos de Dom Viçoso.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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