Durante quase o ano inteiro, cem casas ficam de portas fechadas no topo da Serra do Carola, no Serro
Cerca de cem casinhas passam o ano trancadas no alto de uma serra mineira e só abrem as portas por uma semana. Entenda a tradição e saiba como chegar
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
05/11/2026
No alto de uma serra a 18 km do centro do Serro, cerca de cem casinhas passam quase o ano inteiro trancadas, sem ninguém dentro. Elas só ganham vida em julho, quando os donos sobem o morro para o Jubileu de Nossa Senhora das Dores. A vila da Serra do Carola é um dos exemplos mais curiosos de como a fé moldou a paisagem do interior de Minas.
Por que as casas ficam fechadas quase o ano todo?
As casas não foram feitas para moradia fixa. Foram erguidas por fiéis para servir de abrigo durante o jubileu, a festa religiosa que reúne devotos no topo da serra todos os anos.
Fora desse período, não há motivo para subir e ficar. A maioria das construções tem um único cômodo, e os moradores da região costumam chamá-las de barraquinhas, nome que lembra as barracas improvisadas dos primeiros romeiros.
A tradição começou com um cruzeiro de madeira
No início do século XX, católicos da região passaram a subir a serra em busca de proteção e milagres. O trajeto, íngreme, tinha cerca de três quilômetros morro acima.
Com o tempo, a devoção ganhou estrutura própria no alto do morro. Segundo os relatos reunidos pela imprensa e por historiadores locais, a ocupação seguiu esta ordem:
um devoto ergue um cruzeiro de madeira no platô mais alto;
a Capela de Nossa Senhora das Dores é construída por volta de 1920, em terreno doado;
os romeiros trocam as barracas por casinhas ao redor da capela.
Como acontece o Jubileu de Nossa Senhora das Dores?
A festa é o único momento do ano em que a vila fica cheia. Moradores das redondezas, romeiros e filhos que deixaram a região voltam para rezar, rever parentes e reabrir as casas da família.
A programação segue um calendário fixo, repetido ano após ano. Para quem pensa em acompanhar a celebração, estes são os pontos principais:
acontece em julho, entre o segundo e o terceiro domingo do mês;
dura cerca de oito dias;
reúne fé, peregrinação e confraternização;
a prefeitura faz a limpeza da vila durante a festa.
A quem pertencem as casas da Serra do Carola?
Embora tenham sido construídas e mantidas pelos fiéis, as casinhas pertencem oficialmente à paróquia. Cada família cuida da sua, mas o terreno e o conjunto estão ligados à igreja.
Nem todo o topo da serra fica vazio. Uma reportagem do jornal Estado de Minas, de 2016, mostrou que uma única família morava de forma fixa no alto do morro, convivendo com o silêncio das casas fechadas.
Por que a vila não pode mudar de cara?
O conjunto arquitetônico da Serra do Carola, com cerca de 3,1 hectares, é protegido pelo patrimônio municipal do Serro desde 2000. A capela foi restaurada em 2016, com pintura e fiação novas.
O tombamento mantém o desenho da vila do jeito que os fiéis o construíram. Na prática, a proteção estabelece duas regras simples:
não é permitido construir novas edificações;
não é permitido descaracterizar o conjunto.


Casinhas coloridas em meio à paisagem da Serra do Carola, no Serro, MG - Foto: Igor Souza


Igreja branca com portas azuis na Serra do Carola, no Serro, MG - Foto: Igor Souza
Vila Fantasma é um apelido que os moradores não adotam
Quem pesquisa sobre o lugar encontra uma série de nomes diferentes, o que costuma confundir o visitante. Até a grafia da serra varia: aparece como Carola em algumas fontes e Caroula em outras.
O apelido mais famoso, Vila Fantasma, ganhou espaço na internet, mas não é usado por quem é da região. Ao planejar a viagem, vale conhecer as outras formas de chamar o lugar:
Vila Mato Grosso: como é conhecida localmente;
Deputado Augusto Clementino: nome oficial do distrito;
Vila de Capelinha: em referência à capela no alto da serra;
Vila Fantasma do Serro: apelido usado por visitantes.
Como chegar à Serra do Carola?
O caminho parte do Serro, cidade que teve o conjunto histórico tombado pelo Iphan em 1938. O trajeto tem trechos asfaltados com muitas curvas e termina numa subida de terra.
Não há grandes dificuldades, mas o último trecho pede atenção, principalmente em dias de chuva. Partindo do trevo do Serro, o roteiro é este:
seguir pela MG-010, no sentido de Conceição do Mato Dentro;
após cerca de 15 km, entrar à direita na placa do distrito;
percorrer 3 km de estrada de terra morro acima.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
O que ver no distrito fora da época do jubileu?
Quem visita a região em outros meses encontra a vila fechada, mas pode aproveitar o restante do distrito. Além da Capela de São Sebastião, padroeiro local, há outras festas no calendário, em abril e em setembro.
A paisagem em volta da serra também guarda atrativos naturais. Entre os pontos citados pela prefeitura do Serro, estão:
Cachoeira do Buraquinho;
Pedra Lisa;
Pedra Redonda;
Capelinha da Comunidade do Ribeirão;
vista do alto da Serra do Carola.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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