Dores de Campos, a capital das selarias: a cidade mineira onde quase toda a população trabalha com couro
Em Dores de Campos, no Campo das Vertentes mineiro, oito em cada dez moradores vivem de um ofício que começou nas costas de mulas, há quase dois séculos
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
21/07/2026


Igreja Matriz de fachada rosa e branca sob céu azul em Dores de Campos, Minas Gerais - Foto: Igor Souza
Existe uma cidade em Minas Gerais onde abrir a porta dos fundos de qualquer casa tem boa chance de revelar uma pequena oficina de couro funcionando. Trata-se de Dores de Campos, na região das Vertentes, que carrega oficialmente o título de Capital Mineira da Sela, concedido pela Assembleia Legislativa do estado em 2017, e onde a maior parte da população vive direta ou indiretamente do trabalho artesanal com couro.
Como a fabricação de selas virou a base econômica da cidade?
A origem do povoado remonta a 1830, quando o lugar ainda era marcado por poucas casas e pela agricultura voltada à subsistência dos moradores. Com o crescimento da população, surgiram necessidades que a lavoura sozinha não conseguia suprir, e foi nesse contexto que a atividade de seleiro começou a se firmar na região, entre os anos de 1835 e 1840.
A chegada dos tropeiros foi decisiva para transformar essa produção artesanal em um negócio de verdade. Esses comerciantes viajavam de fazenda em fazenda, vendendo mercadorias e levando selas, arreios e outros itens de montaria para diferentes regiões de Minas Gerais e do interior de São Paulo, criando uma demanda constante pelo trabalho dos seleiros locais.
Quantas pessoas realmente vivem desse ofício hoje?
Estimativas indicam que cerca de 85% da população do município está ligada de alguma forma à confecção de artigos de montaria e ao trabalho com couro. O número impressiona ainda mais quando se observa a quantidade de selarias espalhadas pela cidade, que somam aproximadamente oitenta estabelecimentos, entre empresas formais com registro e pequenas oficinas conhecidas como "selarias de fundo de horta".
Essas oficinas menores costumam funcionar dentro de casa, envolvendo toda a família no processo produtivo. É comum que o ofício seja transmitido entre gerações de forma quase natural, quando crianças crescem brincando ao lado dos pais que trabalham o couro diariamente, absorvendo aos poucos as técnicas do ofício.
O que exatamente é produzido nessas oficinas?
A especialidade mais conhecida da cidade é a fabricação de selas e acessórios de montaria, mas a produção vai muito além disso. As mãos habilidosas dos artesãos locais também produzem bolsas, pastas, malas, carteiras, calçados e cintos, sempre com o couro como matéria-prima central de todo o trabalho.
Entre os itens fabricados especificamente para o uso com animais, alguns se tornaram verdadeiras especialidades da região:
Rédeas e estribos, peças que exigem precisão no corte do couro;
Cabrestos e barrigueiras, usados no manejo diário dos animais;
Mantas e peitorais, com acabamentos que variam conforme o cliente.
Como esse trabalho ganhou reconhecimento fora da cidade?
A criação da feira local de artesanato e indústria foi fundamental para dar visibilidade aos produtos fabricados na região, ajudando a fortalecer tanto o comércio interno quanto a exportação dos artigos de couro para outras partes do país e do exterior. Selarias da cidade já enviaram produtos para mercados como Espanha, México e Bolívia, mostrando que a fama do trabalho artesanal local ultrapassou fronteiras nacionais.
O reconhecimento oficial como Capital Mineira da Sela consolidou ainda mais essa identidade, criada ao longo de quase dois séculos de prática constante. Hoje, alguns marcos ajudam a entender essa trajetória, do povoado simples até o título estadual:
1830: início do povoamento, ainda baseado na agricultura de subsistência;
1938: elevação do antigo Arraial da Patusca à categoria de cidade;
2017: reconhecimento oficial como Capital Mineira da Sela pela Assembleia Legislativa.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Vale a pena visitar essa cidade pessoalmente?
Sim, especialmente para quem se interessa por artesanato, moda country ou turismo rural. Caminhar pelas ruas da cidade significa esbarrar com frequência em selarias funcionando, algumas delas abertas há décadas e comandadas por famílias inteiras que dominam todas as etapas do processo, da escolha do couro até o bordado final das peças.
A cerca de onze quilômetros da rodovia que liga Barbacena a São João del-Rei, a cidade segue um ritmo tranquilo de interior, mas que esconde uma produção capaz de abastecer fazendeiros, lojistas e amantes de equitação em diferentes regiões do Brasil. Para quem busca conhecer um lado menos óbvio de Minas Gerais, esse é um destino onde a tradição não fica restrita a museus, mas segue viva no trabalho diário de praticamente toda a população local.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


Posts que você pode gostar
Todos os Direitos Reservados © 2024
Contato e parcerias: olharesporminasoficial@gmail.com
