Diamantina foi tombada pelo IPHAN em 1938, mais de 60 anos antes do título da UNESCO

Antes de virar Patrimônio Mundial, uma cidade da Serra do Espinhaço já era protegida havia mais de sessenta anos — e ainda guarda prédios assinados por Oscar Niemeyer

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
15/08/2026

O centro histórico de Diamantina recebeu proteção federal em 1938, quando o então recém-criado Sphan, hoje Iphan, começava a mapear o patrimônio do país. Só em dezembro de 1999, mais de 60 anos depois, a cidade também passou a ser reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Encravada na Serra do Espinhaço, a 292 km de Belo Horizonte, a antiga capital dos diamantes guarda essa dupla proteção em um casario que segue vivo até hoje.

O tombamento de Diamantina antecipou em décadas o reconhecimento internacional

O tombamento federal de 1938 foi um dos primeiros do país, realizado ainda nos anos iniciais do órgão de patrimônio nacional. Para o Iphan, Diamantina é um dos exemplos mais completos da mistura entre aventureirismo e refinamento europeu adaptada às Américas, síntese que só ganhou reconhecimento internacional seis décadas depois.

Entre a fundação do arraial e o título da Unesco, a linha do tempo da cidade passa por marcos bem definidos:

  • 1722: início do arraial do Tijuco, ainda como acampamento de garimpeiros;

  • 1729: descoberta dos diamantes na região;

  • 1734: criação da Intendência dos Diamantes por Portugal;

  • 1938: tombamento do centro histórico pelo então Sphan, hoje Iphan;

  • 1999: título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Igreja histórica com detalhes azuis entre casarões coloniais no centro histórico de Diamantina, MG
Igreja histórica com detalhes azuis entre casarões coloniais no centro histórico de Diamantina, MG

Igreja histórica com detalhes azuis entre casarões coloniais no centro histórico de Diamantina, MG - Foto: Igor Souza

Como o diamante transformou o antigo Arraial do Tijuco?

O que começou como um acampamento de garimpeiros por volta de 1722 mudou de patamar sete anos depois, quando os primeiros diamantes foram encontrados no vale do córrego. A região se tornou rapidamente a maior produtora de diamantes do mundo ocidental durante o século 18. A cidade está a 1.114 metros de altitude, em um relevo tão inclinado que a diferença de nível dentro do próprio centro histórico chega a 150 metros.

O volume de riqueza levou Portugal a criar, em 1734, a Intendência dos Diamantes, um regime de controle rígido sobre a extração e a circulação das pedras. Foi nesse cenário de rigor e opulência que viveu Chica da Silva, mulher negra liberta que se casou com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, um dos homens mais ricos do Brasil colonial.

O que ver no centro histórico em poucos dias?

O centro histórico é compacto e pensado para ser percorrido a pé, com as principais atrações concentradas ao redor da Rua da Quitanda. É ali também que nasceu Juscelino Kubitschek, cuja casa de infância virou um dos museus mais visitados da cidade.

Entre um trajeto e outro, alguns pontos concentram boa parte da história de Diamantina:

  • Casa de Chica da Silva, residência do século 18 onde ela viveu;

  • Casa de Juscelino Kubitschek, sobrado em pau a pique com objetos pessoais e documentos;

  • Casa da Glória, dois sobrados ligados pelo passadiço azul, hoje sede de um centro de geologia da UFMG;

  • Museu do Diamante, com peças da Real Extração e joias do ciclo dos diamantes;

  • Mercado Velho, erguido no século 19 para os tropeiros e hoje palco de feiras e serestas.

Catedral Metropolitana de Santo Antônio da Sé entre casarões coloniais no centro de Diamantina, MG
Catedral Metropolitana de Santo Antônio da Sé entre casarões coloniais no centro de Diamantina, MG

Catedral Metropolitana de Santo Antônio da Sé entre casarões coloniais no centro de Diamantina, MG - Foto: Igor Souza

A Vesperata transformou uma tradição religiosa em espetáculo cultural

A tradição nasceu no século 19, quando músicos tocavam do alto das sacadas durante as vésperas litúrgicas católicas. Décadas depois, o costume ganhou formato de espetáculo público e virou o maior atrativo cultural do calendário da cidade.

Hoje, a Vesperata reúne plateia sentada nas mesas da Rua da Quitanda enquanto instrumentos ecoam das varandas dos casarões coloridos, em datas específicas entre abril e outubro. A manifestação foi reconhecida como Patrimônio Cultural de Minas Gerais em 2016, e os ingressos costumam esgotar rapidamente quando o calendário oficial é divulgado. Nos fins de semana de apresentação, a programação inclui concertos em igrejas históricas e a tradicional feira do Mercado Velho, aos sábados pela manhã.

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

Por que Diamantina também tem assinatura de Oscar Niemeyer?

A cidade guarda uma raridade urbanística: as ruas de pedra do século 18 convivem com prédios modernistas encomendados pelo próprio Juscelino Kubitschek ao amigo Oscar Niemeyer, todos executados na década de 1950 no município natal do então presidente. Nascido e criado na cidade, JK nunca escondeu o carinho pelo lugar onde passou a infância antes de se tornar presidente do Brasil.

São três construções: o Hotel Tijuco, a Escola Estadual Júlia Kubitschek e a antiga Faculdade Federal de Odontologia, hoje campus da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. É o único núcleo colonial reconhecido pela Unesco no Brasil que também carrega assinatura modernista de Niemeyer, a 292 km de Belo Horizonte pela BR-040 e BR-259.

Rua histórica decorada com enfeites coloridos e casarões coloniais no centro de Diamantina, MG
Rua histórica decorada com enfeites coloridos e casarões coloniais no centro de Diamantina, MG

Rua histórica decorada com enfeites coloridos e casarões coloniais no centro de Diamantina, MG - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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