Diamantina é a única cidade brasileira que reúne patrimônio colonial tombado pela UNESCO e obras assinadas por Oscar Niemeyer
Um hotel de concreto com colunas em V, igrejas do século 18 e música tocada das sacadas dos casarões. Veja como a terra de JK uniu barroco e modernismo
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
08/10/2026
Poucas cidades brasileiras permitem sair de uma igreja do século 18 e, alguns quarteirões depois, entrar em um hotel de concreto com colunas em V. Em Diamantina, o casario do antigo Arraial do Tejuco divide a paisagem com quatro obras de Oscar Niemeyer, encomendadas por Juscelino Kubitschek para a cidade onde ele nasceu.
Desde quando Diamantina é Patrimônio Mundial?
O centro histórico de Diamantina chama atenção pela forma como as construções coloniais se encaixam no relevo acidentado da Serra do Espinhaço. As ruas de pedra, os sobrados e as igrejas formam um conjunto que manteve o traçado original e ganhou reconhecimento dentro e fora do país.
A proteção veio em duas etapas, com mais de seis décadas de diferença entre o reconhecimento nacional e o internacional. Nesse intervalo, a cidade manteve boa parte do casario de pé. Os principais marcos ajudam a entender o valor do conjunto preservado:
Tombamento pelo patrimônio nacional em 1938, ano do centenário do município;
Inscrição na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em dezembro de 1999;
Área reconhecida de 28,5 hectares no centro histórico.
O Arraial do Tejuco nasceu do ouro e cresceu com os diamantes
A ocupação começou com a descoberta de ouro por Jerônimo Gouveia na confluência dos rios Piruruca e Grande. O povoado surgiu por volta de 1722 e, a partir de 1730, foi ficando mais denso, ainda com uma população flutuante, que acompanhava a oferta de minério.
No século 18, o antigo Tejuco se tornou o maior centro de extração de diamantes do mundo. Essa riqueza ficou registrada nas igrejas de Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Carmo, São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Rosário, e também no Passadiço da Glória, um dos cartões-postais da cidade.


Casarões coloniais e rua de pedra no centro histórico de Diamantina, MG - Foto: Igor Souza
Como Oscar Niemeyer chegou a Diamantina?
A ligação passa por Juscelino Kubitschek, nascido em Diamantina em 1902. Na década de 1950, quando governava Minas Gerais, JK levou para a cidade natal a arquitetura moderna que já tinha encomendado a Niemeyer na Pampulha. O resultado foram quatro obras que continuam de pé:
Hotel Tijuco;
Escola Estadual Júlia Kubitschek, que homenageia a mãe de JK;
Antiga Faculdade de Odontologia, hoje ligada à Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri;
Praça de Esportos, sede do Diamantina Tênis Clube.
As quatro construções são tombadas pelo patrimônio nacional, assim como o conjunto colonial. É essa convivência entre o barroco do século 18 e as linhas retas do modernismo que torna a visita a Diamantina tão especial para quem gosta de arquitetura.


Rua com casarões coloridos e decoração suspensa no centro histórico de Diamantina, MG - Foto: Igor Souza
O que torna o Hotel Tijuco tão diferente?
Inaugurado no fim de 1951, o Hotel Tijuco é a obra de Niemeyer mais conhecida na cidade. O prédio tem formato de trapézio invertido, com linhas retas, formas geométricas e concreto armado. Ele se apoia em colunas em V que contrastam com os sobrados coloniais ao redor.
As varandas têm treliças azuis, e o telhado tem formato de borboleta. O hotel tem 27 apartamentos, com capacidade para 80 hóspedes, e ainda guarda móveis dos anos 1950 com os tradicionais pés de palito.
O que mais visitar em Diamantina?
A história de Juscelino vai além das obras modernistas. Ele viveu na cidade até os 19 anos, e a casa onde passou a infância virou memorial em 1985. A programação cultural e os arredores também ajudam a montar um roteiro de dois ou três dias.
Para quem quer ir além do centro histórico e conhecer outros lados da cidade, seja pela música, pela memória política ou pela paisagem da Serra do Espinhaço, três programas merecem espaço na agenda:
A Casa de JK, memorial dedicado ao ex-presidente;
A Vesperata, com músicos nas sacadas dos casarões e público na rua, em datas marcadas entre abril e outubro;
A Vila do Biribiri, a 14,5 quilômetros do centro, tombada pelo patrimônio estadual em 1998.
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A viagem até Diamantina pede planejamento
Diamantina fica no nordeste de Minas Gerais e exige algumas horas de estrada a partir da capital. Por isso, vale chegar com a hospedagem reservada, principalmente nos fins de semana de Vesperata. Antes de sair, dois pontos fazem diferença na organização do passeio:
A cidade está a cerca de 292 quilômetros de Belo Horizonte, a aproximadamente quatro horas e meia de viagem;
No inverno, entre junho e agosto, as temperaturas ficam entre 9 °C e 23 °C, com pouca chuva.
No verão, entre dezembro e fevereiro, os termômetros variam de 17 °C a 27 °C, e as chuvas são mais frequentes. Quem quer assistir à Vesperata deve conferir o calendário oficial antes de fechar a data, já que as apresentações acontecem apenas em dias marcados.


Igreja histórica cercada por casarões coloniais no centro de Diamantina, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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