Desde 1720, o Serro é sede da Comarca do Serro Frio, uma das quatro primeiras comarcas criadas em Minas Gerais
Ladeiras de pedra, a primeira cidade tombada do país e um queijo que virou patrimônio: conheça a vila que já comandou boa parte do norte de Minas
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
13/10/2026
Muito antes de Diamantina ganhar fama, era no Serro que se decidiam os rumos de boa parte do norte de Minas. A antiga Vila do Príncipe concentrava justiça, impostos e o controle do ouro em uma área enorme da capitania. Três séculos depois, as ladeiras continuam lá, junto com igrejas, festas e o queijo que leva o nome da cidade.
O que era a Comarca do Serro Frio?
Na época colonial, a comarca era a unidade que organizava a justiça e a administração de um grande território. A do Serro Frio foi criada em 17 de fevereiro de 1720 e completou o grupo das quatro primeiras divisões da capitania, que eram:
Comarca de Vila Rica;
Comarca do Rio das Velhas;
Comarca do Rio das Mortes;
Comarca do Serro Frio.
A nova divisão se tornou a maior da capitania e transformou a vila em um centro de poder regional. Em 1725, foi determinada a criação de uma Casa de Fundição no local, para controlar o ouro extraído na região.
Como o ouro deu origem à cidade?
Em 1701, uma expedição liderada pelo bandeirante Antônio Soares Ferreira chegou à região chamada pelos indígenas de Ivituruí, termo traduzido como "morro do vento frio". O ouro encontrado nos córregos atraiu moradores rapidamente e deu origem aos primeiros arraiais.
Em 29 de janeiro de 1714, o povoado foi elevado a vila com o nome de Vila do Príncipe, data considerada a fundação oficial do município. A categoria de cidade, já com o nome Serro, só viria em 1838.


Casarões coloniais e igreja histórica no centro de Serro, MG, cercados por palmeiras e ruas antigas - Foto: Igor Souza
O Serro foi a primeira cidade tombada pelo Iphan
Em 1938, o conjunto arquitetônico e urbanístico do Serro foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Foi o primeiro município brasileiro a receber esse tipo de proteção, um ano após a criação do próprio órgão.
A cidade também é terra natal do político Teófilo Otoni, do ex-governador João Pinheiro, do escultor Mestre Valentim e do compositor Lobo de Mesquita. O Museu Casa dos Otoni reúne móveis e objetos dos séculos 18 e 19.
Quais igrejas não podem ficar de fora?
O centro histórico tem templos espalhados entre a parte baixa e a parte alta da cidade, e a caminhada entre eles exige fôlego por causa das ladeiras. Cada um mostra uma fase diferente da arte religiosa colonial mineira.
Para montar o roteiro a pé e não perder os principais, vale começar pela parte baixa e subir aos poucos, com pausas pelo caminho para observar o casario. Os destaques são:
Igreja de Santa Rita, com sua escadaria no alto da cidade;
Igreja de Nossa Senhora do Carmo, construída a partir de 1768;
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição;
Igreja do Bom Jesus de Matozinhos, em estilo rococó;
Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na parte alta.


Casarões coloniais e rua de pedra no centro histórico de Serro, MG - Foto: Igor Souza
Por que o queijo do Serro é tão famoso?
O modo artesanal de fazer o queijo do Serro foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais em 2002 e, depois, pelo Iphan, em âmbito nacional. A fama atravessa gerações e faz da cidade a chamada Terra do Queijo. Quem quer levar algumas peças para casa encontra boas opções em:
Cooperativa do Serro;
Casa de Túlio Madureira;
Salão do Queijo.
Comprar direto nesses pontos costuma sair mais barato do que nas cidades grandes. É também a chance de conversar com quem conhece o processo de perto e escolher entre queijos mais novos e mais curados.
Como funciona a Festa do Rosário?
A celebração acontece todos os anos no primeiro fim de semana de julho, e há registros da eleição de reis e rainhas na cidade desde 1716. A festa une rituais católicos e tradições de matriz africana em procissões pelas ladeiras.
O ponto alto é o congado, que representa o encontro entre portugueses, africanos escravizados e povos indígenas na formação do Brasil. Os grupos se diferenciam pelas roupas, instrumentos e estilos de dança, e são quatro ao todo:
Marujos;
Catopês;
Caboclos;
Caixa de Assovios.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
O Serro fica no caminho de Diamantina
A cidade faz parte do Caminho dos Diamantes da Estrada Real e costuma ser combinada com Diamantina na mesma viagem. Antes de sair, vale ter em mente as distâncias e o tempo aproximado de estrada:
Cerca de 330 km de Belo Horizonte, entre 4 e 4h30 de viagem;
Cerca de uma hora e meia de Diamantina.
O período de abril a outubro, mais seco, é o mais indicado para a visita. Com mais dias, os distritos de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras completam o roteiro com natureza e vilarejos tranquilos.


Escadaria cercada por casarões coloniais leva a uma igreja histórica no centro de Serro, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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