De um lado o cânion, do outro um canal de água: a passarela de 1,5 km em Santo Antônio do Salto atravessa as duas paisagens ao mesmo tempo
Uma trilha em Minas Gerais coloca você entre duas paisagens ao mesmo tempo: pedra de um lado, água correndo do outro, em 1,5 km de caminhada suspensa
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
20/08/2026
Poucos trajetos no interior de Minas colocam o visitante entre duas paisagens que disputam a atenção ao mesmo tempo. Em Santo Antônio do Salto, distrito de Ouro Preto, uma passarela suspensa de 1,5 quilômetro corta o espaço entre um cânion de um lado e acompanha o curso de um canal de água do outro. A estrutura, conhecida até pouco tempo quase só pelos moradores da região, virou destino de quem procura uma trilha em Minas Gerais fora do roteiro mais óbvio. A razão não está apenas na vista, mas na história que liga esse canal às primeiras usinas elétricas da região.
O que torna essa passarela diferente de outros cânions mineiros?
A maioria dos cânions do estado oferece um único ângulo de observação, geralmente de cima ou a partir de um mirante fixo. Aqui a passarela corta o espaço entre as duas paisagens: de um lado, as formações rochosas e o curso estreito do rio; do outro, o canal que alimenta as usinas do distrito.
Essa dupla vista transformou Santo Antônio do Salto, um povoado tranquilo visitado principalmente por moradores da região, em um destino emergente depois que fotos e vídeos do local passaram a circular nas redes sociais. Antes disso, poucos turistas de Ouro Preto sabiam da existência da trilha.
A água que corre ao lado da trilha tem quase um século de história.
O canal que acompanha a passarela não é natural. Ele foi construído por volta de 1930 para abastecer três usinas hidrelétricas erguidas no distrito, aproveitando as quedas d'água da região. Santo Antônio do Salto acabou sendo uma das primeiras localidades da região a receber energia elétrica por causa dessa obra.
Antes da construção do canal, o acesso ao povoado era feito pela Serra das Lavras Novas, a cerca de 1.300 metros de altitude, um caminho tortuoso e considerado perigoso. A nova rota surgiu porque os caminhões que transportavam o maquinário das usinas não conseguiam passar pela estrada antiga.


Trilha às margens das águas do Cânion do Funil, cercada por mata e paredões rochosos em MG - Foto: Igor Souza
O caminho até o cânion também faz parte do passeio
Santo Antônio do Salto fica a cerca de 35 quilômetros do centro histórico de Ouro Preto, e o próprio trajeto de acesso já chama atenção: a estrada passa perto de duas usinas antes de chegar ao início da trilha. O percurso começa em terra firme e só depois segue pela estrutura suspensa ao lado do canal.
Ao longo do 1,5 quilômetro de passarela, alguns detalhes chamam atenção de quem caminha com calma:
as curvas do rio recortando a rocha, visíveis dos dois lados da estrutura;
os tons variados das pedras, expostos pela erosão ao longo dos anos;
a luz que atravessa a vegetação nos horários de sol mais baixo.
A trilha exige preparo físico?
Não. A caminhada é considerada de nível moderado e não exige preparo físico intenso, mas pede atenção ao piso, principalmente nos trechos de terra antes da passarela. Passeios guiados oferecidos por agências da região costumam ter duração de cerca de três horas, incluindo o deslocamento até o início do trajeto.
Para quem vai encarar o percurso, alguns itens fazem diferença:
calçado fechado e confortável, de preferência com solado firme;
água e um lanche leve;
protetor solar e boné ou chapéu;
roupas leves, já que o trajeto tem trechos sem sombra.


Passarela estreita ao lado do Cânion do Funil, entre paredões rochosos e vegetação preservada em MG - Foto: Igor Souza
Qual é o melhor momento para visitar?
A luz da manhã costuma render uma vista melhor do cânion e do canal, já que o sol ainda não bate de frente na passarela. Dias de tempo seco também facilitam o acesso pela estrada de terra que leva ao distrito, evitando trechos escorregadios.
Vale reservar o passeio com uma agência local: além de agilizar o acesso, o valor pago ajuda a sustentar a economia de um distrito que ainda vive principalmente do turismo recente e da vizinhança com as usinas. Respeitar a vegetação e não deixar lixo pelo caminho mantém a trilha em condições para quem for depois.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Vale a pena incluir Santo Antônio do Salto no roteiro por Ouro Preto?
Para quem já conhece o centro histórico de Ouro Preto e busca uma pausa ao ar livre, a resposta tende a ser sim. A combinação de cânion e canal de água na mesma caminhada é rara entre os destinos de trilha em Minas Gerais, e o trajeto de 1,5 quilômetro cabe tranquilamente em uma tarde de passeio.
A recomendação é simples: reservar o dia com folga na agenda, sair cedo de Ouro Preto e aproveitar que o distrito, mesmo com a atenção recente, ainda mantém o ritmo de um lugar pouco movimentado.


Vista do Cânion do Funil com passarela entre paredões rochosos, mata densa e curso d’água em MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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