Curvelo aparece nas travessias de "Grande Sertão: Veredas" e ainda guarda o clima do sertão que inspirou Guimarães Rosa
Guimarães Rosa chamou esta cidade de “capital” da sua literatura. Hoje, ruas com nomes de Riobaldo e Diadorim guardam o sertão mineiro que ele contou
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
21/10/2025
Em uma carta de 1963, Guimarães Rosa chamou Curvelo de “cidade capital” da sua literatura. A cidade mineira aparece em “Grande Sertão: Veredas” e em vários outros livros do escritor, e até hoje guarda ruas, esculturas e histórias ligadas ao sertão que ele contou.
Onde Curvelo aparece na obra de Guimarães Rosa?
Um levantamento feito por Neli Defensor Sant’Anna Martins encontrou 19 citações a Curvelo nos livros de Rosa. A cidade aparece em romances, novelas e contos, espalhada por diferentes fases da obra do autor. Entre os livros e histórias que mencionam Curvelo, estão:
Grande Sertão: Veredas;
Campo Geral;
Uma Estória de Amor;
Buriti, com quatro citações;
Dão-Lalalão, com três citações;
O Burrinho Pedrês.
A carta em que Rosa chama Curvelo de “cidade capital” de sua obra foi enviada à Semana da Comunidade de 1963. Hoje, a Academia Familiar de Letras João Guimarães Rosa, criada por parentes do escritor, promove palestras e publica livros na cidade.
Qual era a ligação do escritor com a cidade?
Guimarães Rosa nasceu em 1908 em Cordisburgo, que na época era distrito de Sete Lagoas, município vizinho a Curvelo. A relação com a cidade, porém, ia além da proximidade geográfica.
A família do escritor tinha raízes em Curvelo, e um morador da cidade teve papel marcante na infância de Rosa, quando ele ainda era chamado de Joãozito. Os registros sobre essa ligação destacam alguns pontos dessa história:
os trisavós de Rosa viveram em Curvelo, e depois tios e primos também;
o médico curvelano José Lourenço descobriu a miopia do menino em Cordisburgo;
o médico inspirou o personagem doutor José Lourenço do Curvelo, em “Campo Geral”.
O sertão de Rosa está nas ruas da cidade
Em um bairro de casas populares, as ruas receberam nomes de obras e personagens do escritor. Quem caminha por ali encontra nomes que parecem saídos das páginas de Grande Sertão: Veredas e de outros livros, como:
Riobaldo;
Diadorim;
Miguilim;
Manuelzão.
Muitos moradores não sabem a origem desses nomes. Já a Cooperativa Dedo de Gente, que forma jovens artesãos, faz peças inspiradas na obra, como uma escultura de Manuelzão e outra do cavalo Siruiz com Riobaldo.


Praça central de Curvelo, MG, com jardins, palmeiras, caminhos de pedra e coreto amarelo - Foto: Igor Souza


Igreja Matriz de Curvelo, MG, com duas torres, fachada branca e amarela e árvores na praça - Foto: Igor Souza
Como Curvelo nasceu?
Por volta de 1700, o lugar era um pouso de viajantes às margens do ribeirão Santo Antônio. Em 1720, nasceu a freguesia de Santo Antônio da Estrada, cujo primeiro vigário, o padre Antônio Corvelo de Ávila, deu nome à cidade.
Curvelo se tornou município em 1831 e cidade em 1875. Mais tarde, ganhou o apelido de “terra do ouro branco”, por causa do algodão, e sua indústria têxtil chegou a receber prêmio internacional em Turim, em 1911.
O que visitar em Curvelo além da literatura?
A Basílica de São Geraldo foi construída entre 1912 e 1919 por missionários redentoristas holandeses. A Oitava de São Geraldo começa na última semana de agosto e termina na primeira semana de setembro, com uma grande procissão, e atrai romeiros de vários lugares.
Para quem passa um ou dois dias na cidade, o roteiro pode juntar fé, história e cultura mineira, com paradas em igrejas, praças e espaços culturais. Entre os lugares que merecem uma visita, estão:
a Basílica de São Geraldo;
a Matriz de Santo Antônio, benzida em 1877, com altar-mor entalhado por Chico Entalhador;
o Centro Cultural, na antiga estação ferroviária;
o Parque de Exposições Antônio Ernesto de Salvo, palco da exposição agropecuária anual;
o Forró de Curvelo, festa beneficente realizada na primeira quinzena de julho.
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Curvelo também abre caminho para o sertão rosiano
A cidade fica a cerca de 170 km de Belo Horizonte, tinha 80.665 moradores no Censo de 2022 e é a terra natal da estilista Zuzu Angel. Na região, outros lugares ligados ao escritor completam a viagem, como Cordisburgo, Morro da Garça e Andrequicé.
As belezas naturais também fazem parte desse sertão. No município fica a Lapa dos Mosquitos, gruta explorada pela equipe do naturalista Peter Lund e hoje tombada como patrimônio municipal.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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