Criado em 1953, Concórdia do Mucuri é maior que muita cidade do Vale — e quase ninguém sabe onde fica

Concórdia do Mucuri nasceu de sete posses registradas em 1850, mudou de nome duas vezes e hoje é o distrito mais populoso da região — mesmo perdendo mil moradores em doze anos

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
23/07/2026

Existe no nordeste de Minas um lugar que não é cidade, não aparece em mapa turístico e mesmo assim tem mais moradores que boa parte dos municípios ao redor. Concórdia do Mucuri, distrito de Ladainha, reúne 4.416 habitantes em 219 quilômetros quadrados — um quarto de todo o território do município a que pertence. E é o distrito mais populoso do Vale do Mucuri inteiro.

Como um distrito acaba sendo mais antigo que sua cidade?

A origem é 1850, quando sete homens se estabeleceram na região por iniciativa de Teófilo Ottoni, então diretor da Companhia do Mucuri. As posses foram registradas nos livros eclesiásticos da paróquia de Minas Novas, conforme a Lei de Terras daquele mesmo ano. Dali veio o nome do povoado: Sete Posses.

A trajetória administrativa depois disso foi movimentada, e explica por que o distrito é mais velho que Ladainha:

  • 1894: criado o distrito de Sete Posses, ligado a Teófilo Otoni;

  • 1902: o distrito é transferido e passa a se chamar Concórdia;

  • 1948: Ladainha vira município, desmembrada de Poté;

  • 1953: Concórdia do Mucuri é recriado como distrito, já dentro de Ladainha.

A lei de 1953 apenas oficializou o que já existia

A Lei Estadual nº 1.039, de 12 de dezembro de 1953, criou formalmente o distrito de Concórdia do Mucuri. Na prática, recriou: a antiga Vila de Concórdia já era sede distrital desde o início do século 20, quando Sete Posses foi rebaixada a povoado.

O que mudou foi a hierarquia. A vila que já tinha sido cabeça da região passou a responder a Ladainha, um povoado que nem existia quando Concórdia foi criada. É o tipo de inversão que só a história administrativa mineira produz.

Por que 1914 mudou tudo por ali?

Naquele ano chegaram o abarracamento e o escritório do prolongamento da Estrada de Ferro Bahia-Minas, que ia de Teófilo Otoni a Tremedal. A povoação da Estação Ladainha, dentro do distrito de Concórdia, nasceu dessa obra. A estação foi inaugurada em 26 de dezembro de 1918 e, em 1922, o local chegou a ser indicado para receber as oficinas da ferrovia.

Os nomes que puxaram esse crescimento estão registrados nos relatos da época:

  • Os irmãos Tourinho, Teodorico e Afonso, administradores das obras do prolongamento;

  • O coronel José Ribeiro de Oliveira, principal construtor de casas na povoação.

O que uma capela erguida em dois dias conta sobre o lugar?

Em setembro de 1917, durante a visita pastoral de Dom Serafim Gomes Jardim, foi levantada a capela do Sagrado Coração de Jesus. A obra saiu em dois dias e uma noite, por iniciativa de dona Alice Moreira e custeada pelo coronel Ribeiro. Foi inaugurada na mesma ocasião.

O episódio resume a lógica da ferrovia: tudo era feito às pressas, para acompanhar o avanço dos trilhos. A vida religiosa do distrito hoje se organiza em torno da Paróquia Senhor Bom Jesus.

Vista panorâmica das montanhas, vales verdes e estrada de terra na zona rural de Concórdia do Mucuri
Vista panorâmica das montanhas, vales verdes e estrada de terra na zona rural de Concórdia do Mucuri

Vista panorâmica das montanhas, vales verdes e estrada de terra na zona rural de Concórdia do Mucuri - Foto: Igor Souza

Estrutura de pedras sobre laje rochosa com montanhas e vegetação ao fundo em Concórdia do Mucuri
Estrutura de pedras sobre laje rochosa com montanhas e vegetação ao fundo em Concórdia do Mucuri

Estrutura de pedras sobre laje rochosa com montanhas e vegetação ao fundo em Concórdia do Mucuri - Foto: Igor Souza

Onde estão os quase mil moradores que sumiram?

Entre o Censo de 2010 e o de 2022, Concórdia do Mucuri passou de 5.358 para 4.416 habitantes. São 942 pessoas a menos, queda de 17,58% em doze anos. Mesmo assim, continua liderando a lista de distritos do Vale.

A explicação está em 1966, quando o governo federal desativou a Bahia-Minas e mandou retirar os trilhos. Sem a ferrovia, a região perdeu sua base econômica e entrou em declínio. O efeito aparece de forma simples:

  • Casas fechadas em ruas inteiras;

  • Comércio concentrado em poucos pontos;

  • Migração para São Paulo, Espírito Santo e o eixo de Teófilo Otoni.

O que existe de natureza na região?

Aqui vale precisão: os atrativos naturais mais conhecidos estão no território de Ladainha, não no distrito. A Pedra de Ladainha se levanta da mata e é vista de qualquer ponto da cidade. As cachoeiras do Seu Wilson e do Icari ficam às margens do antigo leito da ferrovia, com prainhas de areia.

O município é cercado por mata atlântica em bom estado, e é ali que nasce o Rio Mucuri do Norte, um dos dois formadores do Rio Mucuri. Quem passa por Concórdia costuma usar o distrito como referência de caminho, não como destino:

  • Percurso pelo antigo leito da Bahia-Minas, de carro ou bicicleta;

  • Túneis e pontilhões de ferro preservados;

  • Trilha até a Pedra de Ladainha, com apoio de cabo de aço.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Vale desviar da BR-116 por isso?

Depende do que se procura. Não há estrutura turística, pousada de porte nem restaurante montado para visitante. O que existe é história administrativa densa, paisagem de mata e o retrato honesto de um território que encolheu.

Quem passa por Teófilo Otoni e tem meio dia sobrando encontra um distrito que já foi mais importante que a cidade que o comanda — e que continua sendo, em números, o maior do Vale. É pouco para uma viagem inteira. É bastante para um desvio.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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