Construída em 1911, a antiga estação ferroviária de Mateus Leme já foi parada obrigatória da linha entre Belo Horizonte e Garças de Minas
Um prédio construído em 1911 ainda guarda, no interior de Minas, histórias de uma ferrovia que ligava a capital a uma região mineradora
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
20/08/2026
Antes das rodovias que hoje cortam o oeste de Minas, era o apito do trem que marcava a rotina de Mateus Leme. A antiga estação ferroviária da cidade foi inaugurada em 1º de julho de 1911 e se tornou parada obrigatória da linha que ligava Belo Horizonte a Garças de Minas. Mais de um século depois, o prédio segue de pé no centro da cidade, hoje com uma função bem diferente daquela para a qual foi construído.
A estação começou a funcionar em um momento decisivo para o desenvolvimento da cidade
A Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) construiu a linha Belo Horizonte-Garças de Minas entre 1911 e 1916, e Mateus Leme recebeu sua estação logo no primeiro ano de operação. A chegada dos trilhos agilizou o transporte entre as cidades da região e deu impulso ao comércio local.
Antes da ferrovia, o deslocamento até a capital e entre os municípios vizinhos era mais lento e dependia de estradas precárias. A estação passou a concentrar o movimento de passageiros e cargas, tornando-se um dos pontos mais importantes da cidade na época.
Que trajeto a linha percorria até chegar a Mateus Leme?
A linha Belo Horizonte-Garças de Minas não seguia direto entre as duas pontas: o trajeto passava por diversas cidades do oeste mineiro antes de alcançar seu destino final na região mineradora de Garças. Mateus Leme era um dos pontos de parada nesse percurso mais longo.
Entre as cidades que o trem cruzava no caminho estão:
Divinópolis;
Carmo do Cajuru;
Itaúna.
A arquitetura da estação guarda características raras do início do século 20
O prédio reflete o estilo eclético comum às construções ferroviárias do período, com fachada que ainda impressiona quem passa pelo centro de Mateus Leme. A estrutura original foi projetada para atender três funções ao mesmo tempo, todas ligadas pela mesma plataforma de embarque, usada tanto por passageiros quanto para o despacho de cargas.
A construção reunia um armazém, destinado ao transporte de mercadorias, uma agência, onde eram vendidas as passagens, e a residência do operador responsável pelo funcionamento diário da estação. Essa organização era comum às estações menores da Estrada de Ferro Oeste de Minas na época.


Antiga estação ferroviária de Mateus Leme, com fachada preservada ao lado dos trilhos, em MG - Foto: Igor Souza


Letreiro “Eu Amo Mateus Leme” e coreto em praça cercada por montanhas em Mateus Leme, MG - Foto: Igor Souza
O que aconteceu com a estação depois que os trens pararam de circular?
A linha férrea passou por várias administrações ao longo do século 20, até que o transporte de passageiros na região perdeu espaço para as rodovias. Com o tempo, a estação de Mateus Leme ficou sem uso e chegou a passar por um período de abandono.
Ao longo dos anos, a operação da linha mudou de mãos:
Rede Mineira de Viação, entre 1931 e 1965;
Viação Férrea Centro-Oeste, entre 1965 e 1975;
Rede Ferroviária Federal (RFFSA), entre 1975 e 1996;
Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), entre 1996 e 2005.
Como era a chegada do trem contada pelos moradores mais antigos?
Relatos de moradores mais antigos de Mateus Leme descrevem a chegada da primeira locomotiva a vapor como um acontecimento e tanto para quem nunca tinha visto nada parecido. A imagem do trem soltando fumaça e fazendo barulho impressionava especialmente as pessoas mais simples da região.
Um relato registrado pela cidade conta que gente simples corria esbaforida, julgando tratar-se de um dragão ao ver a máquina se aproximar pela primeira vez. A cena dá uma ideia do quanto a ferrovia mudou o cotidiano de quem vivia ali.
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Dá para visitar a estação hoje?
Sim. O prédio foi restaurado e reaberto em 2005, depois de anos abandonado, e teve sua fachada protegida por tombamento municipal. Hoje funciona como espaço cultural da cidade, mantendo viva parte da história que começou com a chegada dos trilhos.
Quem quiser conhecer de perto encontra:
a estação na Rua Pref. Alcides Cunha, nº 12, no centro de Mateus Leme;
o prédio funcionando como sede da Coordenadoria de Cultura Municipal.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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