Conselheiro Lafaiete homenageia um jurista nascido ali em 1834 que chefiou o gabinete de ministros de D. Pedro II

Ligado ao movimento republicano, ele acabou no comando do governo do Império. A trajetória desse mineiro mudou até o nome da própria terra natal

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
29/10/2026

Até 1934, quem desembarcava na cidade dizia que estava em Queluz. A mudança de nome veio no centenário de nascimento de Lafayette Rodrigues Pereira, jurista que saiu de uma fazenda da região para chefiar o gabinete de ministros de D. Pedro II. Entender quem foi esse homem ajuda a explicar boa parte da história de Conselheiro Lafaiete.

Quem foi o conselheiro que dá nome à cidade?

Lafayette nasceu em 28 de março de 1834, filho de Antônio Rodrigues Pereira, que foi vereador e juiz em Queluz e anos depois recebeu o título de Barão de Pouso Alegre. Ainda menino, ele e o irmão foram entregues aos cuidados de um tio padre, que os ensinou línguas clássicas. Os primeiros passos depois disso mostram a velocidade da carreira:

  • Aos 18 anos, foi estudar Direito em São Paulo, onde se destacou como o melhor aluno da turma;

  • Formado, assumiu o cargo de promotor público em Ouro Preto;

  • Em 1859, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar com grandes nomes da advocacia da época.

No Rio, também ajudou a fundar o jornal Atualidade e se aproximou do Partido Liberal. Era o começo de uma trajetória que misturaria, por décadas, a advocacia, a imprensa e a política.

Como um ex-republicano chegou a chefiar o governo do Império?

Em 1870, Lafayette dirigia o jornal A República e foi escolhido secretário do clube que lançou o Manifesto Republicano. Seu nome aparece entre os signatários do documento, embora ele tenha afirmado mais tarde que não assinou pessoalmente.

Mesmo assim, foi na monarquia que a carreira deslanchou. Em menos de vinte anos, ocupou alguns dos postos mais altos do Império:

  • Presidente das províncias do Ceará e do Maranhão, entre 1864 e 1866;

  • Ministro da Justiça, de 1878 a 1880;

  • Senador vitalício, escolhido por D. Pedro II em 1879;

  • Conselheiro de Estado, a partir de 1882;

  • Presidente do Conselho de Ministros, o mesmo que chefe de governo.

O gabinete Lafayette durou pouco mais de um ano

Ele assumiu a presidência do Conselho em 24 de maio de 1883, acumulando também o Ministério da Fazenda. O período foi marcado pela chamada Questão Militar, uma série de atritos entre o governo e oficiais do Exército que ajudaria, anos depois, a enfraquecer a própria monarquia.

O gabinete caiu em 6 de junho de 1884, e Lafayette voltou ao Senado e ao Conselho de Estado. Ficou nessas funções até novembro de 1889, quando a República foi proclamada e ele deixou os cargos que ocupava.

Ilustração de escrivaninha antiga com livros, pena e lampião aceso
Ilustração de escrivaninha antiga com livros, pena e lampião aceso

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar o ambiente de trabalho de um jurista do século XIX

Ilustração de sala antiga com mesa longa coberta de pano verde
Ilustração de sala antiga com mesa longa coberta de pano verde

Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar uma sala de reuniões de ministros no século XIX

Por que ele é considerado um dos grandes juristas do país?

Fora da política, Lafayette deixou uma obra que marcou o Direito brasileiro. No livro Direitos de Família, propôs uma forma de organizar o Direito Civil inspirada no modelo alemão, que influenciou o Código Civil de 1916 e o de 2002. Já em Direito das Coisas, tratou de um tema praticamente inexplorado no país até então.

O prestígio dele ultrapassou as fronteiras do país e rendeu convites e homenagens importantes. Entre os principais reconhecimentos, estão:

  • Atuação como árbitro em disputas ligadas à Guerra do Pacífico, no Chile, em 1885;

  • Indicação, em 1907, como um dos primeiros juízes brasileiros na Corte Permanente de Arbitragem, em Haia;

  • Eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 1908, na cadeira que havia sido de Machado de Assis;

  • O nome dado ao Fórum de Belo Horizonte, inaugurado em 1950.

Por que Queluz trocou de nome em 1934?

O nome antigo vinha do período colonial. A Real Vila de Queluz foi criada em 1790, e o batismo se deve ao fato de o documento ter sido assinado no Palácio de Queluz, em Portugal. Em 27 de março de 1934, um decreto estadual mudou o nome da cidade, e a escolha teve mais de um motivo:

  • A homenagem ao centenário de nascimento do conselheiro;

  • A estação ferroviária da Central do Brasil, que já se chamava Lafaiete;

  • A confusão frequente com a cidade de Queluz, em São Paulo.

Lafayette não viu a mudança. Ele morreu no Rio de Janeiro em 29 de janeiro de 1917 e foi sepultado em sua terra natal, ao lado dos pais. Desde 1934, quem nasce no município é chamado de lafaietense.

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A cidade guarda raízes anteriores ao próprio conselheiro

Muito antes da vila, a parte alta da cidade era ocupada pelos índios carijós, e o lugar ficou conhecido como Campo Alegre dos Carijós. É nessa área que hoje está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em cuja construção os próprios indígenas ajudaram com o trabalho braçal.

A busca por ouro na região, a partir do fim do século XVII, acelerou o povoamento e deu origem ao arraial. Mais tarde, em 1842, a então Queluz foi palco de uma derrota importante das tropas do governo durante a Revolução Liberal, episódio que reforçou a fama liberal da cidade.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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