Congonhas guarda o único conjunto de Aleijadinho declarado Patrimônio da Humanidade
Um artista brasileiro, já doente e no fim da vida, deixou sua obra-prima em uma cidade mineira reconhecida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
19/09/2026
No alto do Monte Maranhão, em Congonhas, um conjunto de igreja, escadaria e capelas reúne a obra mais reconhecida internacionalmente de um só artista brasileiro. O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos carrega o título de Patrimônio da Humanidade concedido pela UNESCO, um reconhecimento que nenhum outro conjunto de Aleijadinho recebeu isoladamente.
O que forma o conjunto do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos?
O santuário foi erguido em etapas entre 1757 e 1875, por iniciativa do português Feliciano Mendes, que fez a obra em pagamento a uma graça alcançada. Hoje, o conjunto reúne três elementos que se completam:
A igreja do Bom Jesus, com interior decorado em estilo rococó;
A escadaria externa, ornada com os Doze Profetas esculpidos em pedra-sabão;
Seis capelas com cenas dos Passos da Paixão de Cristo, reunindo mais de 60 esculturas em cedro.
Juntos, esses elementos formam o que estudiosos consideram o maior conjunto de arte colonial já produzido no país.
O reconhecimento da UNESCO veio décadas depois do tombamento nacional
Antes do reconhecimento internacional, o santuário já era tratado como prioridade de preservação em território brasileiro. O órgão federal de patrimônio incluiu o conjunto entre os primeiros bens tombados logo após sua fundação, ainda nas primeiras décadas do século XX.
Essa importância se confirmou décadas depois, em escala internacional:
1939: tombamento pelo IPHAN, um dos primeiros registros do órgão;
1985: declaração de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Por que os Doze Profetas são considerados a obra-prima de Aleijadinho?
As esculturas foram talhadas em pedra-sabão entre 1800 e 1805, já no fim da vida do artista, quando ele enfrentava limitações físicas severas impostas pela doença que o acompanhava. Mesmo assim, o resultado é apontado por especialistas como o ponto mais alto de sua produção.
Aleijadinho iniciou a carreira em Ouro Preto, mas foi em Congonhas que atingiu sua fase mais plena como escultor. A obra dos profetas resume essa trajetória, unindo técnica refinada e força expressiva num só conjunto monumental.


Escultura de profeta diante da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG - Foto: Igor Souza


Profetas de Aleijadinho diante da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG - Foto: Igor Souza
O que tem dentro das seis capelas dos Passos?
Cada uma das seis capelas reúne cenas talhadas em cedro que narram os momentos finais da Paixão de Cristo, com figuras em tamanho natural distribuídas ao longo do caminho até a igreja.
Ao todo, mais de 60 esculturas compõem esse conjunto, produzidas com a mesma atenção ao detalhe que caracteriza o trabalho de Aleijadinho nas peças em pedra-sabão da escadaria externa.
O santuário também é destino de peregrinação?
Antes de qualquer visita, vale anotar alguns dados práticos sobre o local:
Jubileu, a principal romaria do santuário, realizado todos os anos em setembro;
Visitas guiadas disponíveis mediante agendamento prévio;
Duração média de três horas para o passeio guiado completo;
Endereço oficial na Praça da Basílica, no centro de Congonhas.
Peregrinos visitam o santuário desde o século XVIII, o que faz dele um dos roteiros de fé mais tradicionais do país, além de sua relevância artística e histórica.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
A preservação do conjunto enfrenta desafios até hoje
Apesar do reconhecimento internacional, o santuário convive com dificuldades comuns a muitos monumentos históricos do país. A cidade ao redor perdeu parte de suas características coloniais depois que a mineração de ferro substituiu o ciclo do ouro como principal atividade econômica.
Diante desse cenário, algumas iniciativas tentam equilibrar preservação e vida urbana:
Atos de vandalismo enfrentados ao longo dos anos;
Descaracterização do entorno urbano após o fim do ciclo do ouro;
Programa Monumenta, criado em 2002 para financiar a preservação de patrimônios;
Museu de Congonhas, criado em 2015 numa parceria entre UNESCO, IPHAN e a prefeitura;
Museu interativo com imagens dos profetas, desenvolvido com apoio da USP.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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