Congonhas guarda a obra que consagrou o Aleijadinho como gênio do barroco
Doze figuras de pedra observam quem sobe a escadaria. Entenda por que essa obra colonial ainda impressiona historiadores e turistas
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
26/07/2026
No alto de uma colina em Minas Gerais, um conjunto de esculturas em pedra-sabão observa quem sobe os degraus de um adro histórico. Ali, entre o final do século 18 e o início do 19, um artista com o corpo deformado por uma doença severa produziu o que muitos consideram o ápice do barroco produzido nas Américas. A história por trás dessas figuras envolve fé, sofrimento pessoal e uma técnica que resistiu a mais de dois séculos de intempéries.
O que torna esse conjunto único no barroco brasileiro?
O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos reúne uma basílica, um amplo adro e seis capelas dispostas em meia encosta, formando um percurso que mistura arquitetura, escultura e paisagem. A construção da igreja começou em 1757 e só foi concluída em 1790, décadas antes de Antônio Francisco Lisboa iniciar sua parte mais célebre do trabalho.
O conjunto foi pensado como uma peregrinação: o visitante sobe gradualmente, cruza os profetas no terreiro e só depois encontra as cenas da Paixão nas capelas. Essa sequência narrativa é um dos motivos que levam pesquisadores a tratar o santuário como um projeto único, não peças isoladas.
Quem foram os profetas esculpidos em pedra-sabão?
Entre 1800 e 1805, Aleijadinho esculpiu doze figuras em pedra-sabão para o terreiro da basílica, cada uma segurando uma faixa com um trecho de profecia bíblica. A escolha não seguiu exatamente a lista tradicional dos profetas menores: o artista substituiu Miquéias por Baruc, secretário de Jeremias, cujos textos historicamente ficaram associados aos do próprio Jeremias.
Entre as figuras que compõem o conjunto estão nomes centrais da tradição bíblica, cada uma com gestos e expressões distintas talhados na pedra:
Isaías, posicionado logo na entrada da escadaria;
Jeremias, representado com a pena na mão;
Ezequiel, com o braço esquerdo erguido;
Daniel, um dos quatro profetas maiores do conjunto;
Baruc, descrito como o mais jovem entre as figuras;
Jonas, associado a uma das profecias mais conhecidas do Antigo Testamento.


Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos com esculturas dos profetas em Congonhas, Minas Gerais - Foto: Igor Souza
As capelas dos Passos contam uma história à parte
Além dos profetas, o artista esculpiu cenas da Paixão de Cristo em madeira de cedro, distribuídas em seis capelas ao longo do caminho que desce da igreja. As figuras, em tamanho próximo ao humano, foram policromadas e reúnem dezenas de personagens organizados em composições teatrais.
Historiadores de arte descrevem essas cenas como um dos primeiros grandes exemplos de escultura devocional narrativa do Brasil colonial, com expressividade raramente repetida em obras do mesmo período. A combinação entre pedra no adro e madeira nas capelas também é vista como uma escolha deliberada de linguagem.
Por que Aleijadinho é chamado assim?
Antônio Francisco Lisboa nasceu em Vila Rica em 1738, filho de um carpinteiro e escultor português com uma mulher escravizada. Destacou-se cedo como entalhador e arquiteto em obras pelas Minas, mas foi a partir de 1777 que sua trajetória ganhou um capítulo mais duro.
Uma doença grave, cuja natureza exata ainda é discutida por pesquisadores, deformou progressivamente seu corpo, afetando principalmente mãos e pés. A tradição oral registra alguns detalhes desse período:
Perdeu parte dos dedos das mãos e dos pés;
Passou a se locomover apoiado nos joelhos;
Amarrava ferramentas ao pulso para continuar esculpindo.


Escultura de um dos profetas diante das torres da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas - Foto: Igor Souza
O reconhecimento veio antes da fama internacional
O santuário foi inscrito no Livro de Belas Artes do patrimônio nacional em 1939, décadas antes de qualquer título internacional. O reconhecimento reflete o esforço de preservacionistas brasileiros que, já na primeira metade do século 20, identificaram o valor excepcional do conjunto esculpido por Aleijadinho.
O passo seguinte veio apenas em dezembro de 1985, quando a Unesco declarou o santuário Patrimônio Cultural da Humanidade, tornando-o um dos primeiros sítios brasileiros com esse título. Em 2011, teve início um projeto de digitalização tridimensional das esculturas originais, base para réplicas em gesso e para futuras referências de restauro.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Como planejar a visita ao santuário?
O acesso ao adro e às capelas é gratuito e aberto diariamente, e o santuário segue ativo como paróquia, o que significa que celebrações religiosas podem acontecer durante a visita. A cidade fica a cerca de 80 quilômetros de Belo Horizonte, permitindo um passeio de um dia ou uma parada a caminho de outras cidades históricas.
Para aproveitar melhor o percurso, vale considerar alguns pontos antes de subir a escadaria:
Visitar pela manhã, quando a luz favorece a observação dos detalhes esculpidos;
Reservar tempo para as seis capelas, muitas vezes deixadas de lado por quem foca só nos profetas;
Levar água e protetor solar, já que boa parte do trajeto é a céu aberto;
Conferir horários de missas, que podem limitar o acesso a certas áreas;
Combinar a visita com o museu de arte sacra, próximo ao santuário.


Fachada da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos com esculturas dos profetas em Congonhas - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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