Com pouco mais de 11 mil habitantes, Resende Costa é hoje a Capital Nacional do Artesanato Têxtil

Um município mineiro de pouco mais de 11 mil moradores virou referência nacional em um tipo de artesanato que sustenta boa parte da economia local

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
01/10/2026

Passar pela avenida principal de Resende Costa significa atravessar vitrines cobertas de colchas, tapetes e almofadas coloridas, praticamente todas feitas à mão. Com pouco mais de 11 mil habitantes, a cidade do interior de Minas Gerais recebeu em 2024 o título de Capital Nacional do Artesanato Têxtil, reconhecimento que confirma uma vocação econômica que já vinha de décadas. O comércio de artesanato hoje sustenta boa parte da população local e atrai visitantes de várias partes do país.

Como Resende Costa conquistou o título de Capital Nacional do Artesanato Têxtil?

O título foi concedido pela Lei nº 14.929, sancionada sem vetos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 22 de julho de 2024. A norma nasceu do Projeto de Lei 3.183/2023, de autoria da deputada federal Ana Pimentel, e teve como relator no Senado o senador Carlos Viana.

Antes de virar referência nacional, a cidade já carregava o título de Capital Mineira do Artesanato Têxtil, concedido em 2021 pela Lei Estadual nº 23.770, sancionada pelo governador. O reconhecimento federal reforça um processo que já estava em curso havia alguns anos.

O artesanato sustenta boa parte da economia da cidade

Com pouco mais de 11 mil habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2022, Resende Costa depende fortemente dessa atividade: cerca de 70% da população está envolvida, direta ou indiretamente, no setor têxtil. A vocação para as vendas de artesanato virou, com o tempo, a principal fonte de renda de boa parte das famílias da cidade.

Esse movimento comercial também deixou marcas visíveis pela cidade e ajuda a explicar por que Resende Costa virou destino de compras para tanta gente:

  • Cerca de 80 lojas especializadas comercializam artesanato têxtil pela cidade;

  • Grande parte da produção é vendida para São Paulo e Rio de Janeiro;

  • Peças de Resende Costa já apareceram em cenários de novelas e minisséries de televisão.

De onde vem a tradição do tear na cidade?

A prática de tecer em tear manual remonta ao século XVIII e está diretamente ligada à escravidão e ao período da Inconfidência Mineira, segundo registros históricos da cidade. Esse período colonial também viveu momentos de forte repressão à atividade têxtil no Brasil:

  • 1785: D. Maria I assina o Alvará de Proibição de Fábricas e Manufaturas no Brasil;

  • 2022: o povoado dos Pintos é reconhecido por lei municipal como berço do artesanato têxtil de Resende Costa.

O conhecimento se manteve vivo principalmente pela transmissão entre gerações, sobretudo de mulheres mais velhas para filhas e netas. Foi assim que a técnica sobreviveu até se tornar, décadas depois, a atividade que hoje sustenta boa parte da cidade.

Redes artesanais coloridas expostas em varanda rústica de loja em Resende Costa, Minas Gerais
Redes artesanais coloridas expostas em varanda rústica de loja em Resende Costa, Minas Gerais

Redes artesanais coloridas expostas em varanda rústica de loja em Resende Costa, Minas Gerais - Foto: Igor Souza

Fachada de igreja histórica com torre, relógio e detalhes coloniais em Resende Costa, Minas Gerais
Fachada de igreja histórica com torre, relógio e detalhes coloniais em Resende Costa, Minas Gerais

Fachada de igreja histórica com torre, relógio e detalhes coloniais em Resende Costa, Minas Gerais - Foto: Igor Souza

Qual é a origem histórica de Resende Costa?

A ocupação da região começou no cruzamento de duas estradas coloniais, uma que ligava o norte ao sul da capitania e outra que seguia de Goiás ao Rio de Janeiro. A capela primitiva foi erguida em 1749, dando origem ao Arraial de Nossa Senhora da Penha de França da Lage.

O povoado só ganhou autonomia como município em 1911, quando recebeu o nome atual, uma homenagem ao inconfidente José de Resende Costa, filho do capitão de mesmo nome, que também participou da conspiração e viveu na região. A história dos dois envolve alguns capítulos marcantes:

  • O Capitão José de Resende Costa (1730-1798) era dono da Fazenda dos Campos Gerais;

  • Pai e filho foram condenados à morte pela participação na Inconfidência Mineira;

  • As penas foram comutadas para degredo na África;

  • O pai morreu no degredo, na atual Guiné-Bissau, sem nunca voltar ao Brasil;

  • O filho, degredado em Cabo Verde, foi um dos dois únicos condenados ao degredo autorizados a retornar ao país.

O que os visitantes encontram ao comprar artesanato na cidade?

Ao longo da avenida principal, dezenas de lojas exibem peças feitas em tear manual, uma técnica trazida ainda no período colonial pelos portugueses. Os produtos mais procurados pelos visitantes incluem:

  • Colchas de diferentes tamanhos e estampas;

  • Tapetes feitos com retalhos de tecido reaproveitados;

  • Almofadas em diversos padrões;

  • Cortinas e outros artigos têxteis para casa.

Parte da produção ainda aproveita resíduos de malharias que, de outra forma, seriam descartados pela indústria, o que agrega também um valor ecológico ao trabalho dos artesãos. É esse conjunto de tradição e reaproveitamento que atrai compradores de várias partes do Brasil.

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A cidade também está no roteiro da Estrada Real, a cerca de 180 km de Belo Horizonte

Resende Costa fica na mesorregião do Campo das Vertentes, no Caminho Velho da Estrada Real, próxima a cidades históricas como Tiradentes e São João del-Rei. Além do artesanato, a cidade preserva parte da arquitetura colonial que remonta ao século XVIII, somando-se às belezas que atraem turistas para esse trecho de Minas Gerais.

O acesso melhorou bastante nos anos 1980, com a construção da estrada asfaltada que liga a cidade à BR-383, rodovia que se conecta à BR-040 na altura de Conselheiro Lafaiete. Foi esse tipo de infraestrutura que ajudou a levar mais compradores e revendedores até Resende Costa.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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