Com nome de bandeirante paulista e genro de Borba Gato, Mateus Leme guarda uma origem que remonta ao início do século 18
Uma igreja rococó concluída em 1790, uma estação de trem que virou casa de cultura e vestígios de lavras de ouro: a cidade a uma hora da capital mineira
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
22/10/2026
Pouca gente que passa por Mateus Leme, a 61 km de Belo Horizonte, imagina que o nome da cidade é o de uma pessoa de carne e osso. O homenageado foi um bandeirante paulista que se casou com a filha de Borba Gato e circulou pelas áreas de mineração no começo do século 18. A partir dessa ligação familiar, a história local ajuda a entender como o ouro redesenhou o centro de Minas.
Quem foi o bandeirante Mateus Leme?
Mateus Leme era paulista e fazia parte de uma rede de famílias que liderou a ocupação do interior mineiro. Os casamentos entre essas famílias aproximavam interesses e ampliavam o alcance das expedições. No caso dele, a ligação passava por três gerações de bandeirantes:
Fernão Dias Pais, conhecido como o caçador de esmeraldas;
Borba Gato, genro de Fernão Dias e ligado à descoberta de ouro no Rio das Velhas;
Mateus Leme, genro de Borba Gato.
Apesar do sobrenome conhecido, a trajetória de Mateus Leme pelas regiões de mineração ainda é pouco documentada. Os registros apontam que ele fundou o arraial de Itatiaiuçu e que, como capitão-mor, participou de combates contra indígenas no interior da Bahia.
Como o ouro deu origem ao arraial?
O lugar já aparece numa carta de sesmaria de 1710, documento usado na época para conceder terras. A atração era o ouro encontrado no Morro de Mateus Leme, onde ainda existem vestígios de antigas lavras e de aquedutos usados para levar água até os pontos de extração.
A procura das áreas mineradoras por alimentos e mercadorias atraiu comerciantes, e o arraial cresceu. Quando a extração perdeu força, a agricultura e a pecuária passaram a sustentar a população, que permaneceu na região mesmo sem o ouro como principal fonte de renda.
A linha do tempo mostra três séculos de mudanças
Durante o século 18, o arraial não chegou a ser freguesia. Era uma capela subordinada à paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral del Rei, núcleo que mais tarde deu origem a Belo Horizonte. Ao longo do tempo, o lugar também esteve ligado a Sabará, Pitangui, Bonfim e Pará de Minas.
A autonomia veio devagar, e o município ainda perderia parte do território quando antigos distritos se emanciparam, como Igarapé e Juatuba. Os principais marcos dessa trajetória são estes:
1710: uma carta de sesmaria cita o lugar;
1748: registros indicam uma capela no local da atual matriz;
1790: conclusão da Igreja Matriz de Santo Antônio;
1822: uma visita pastoral contabiliza cerca de 2.358 moradores;
1832: criação da freguesia de Santo Antônio do Morro de Mateus Leme;
1911: inauguração da estação ferroviária;
1938: emancipação, com separação de Pará de Minas.


Praça de Mateus Leme, MG, com letreiro turístico, coreto e montanhas cobertas pela vegetação ao fundo - Foto: Igor Souza


Estação ferroviária de Mateus Leme, MG, com fachada branca e azul, telhado colonial e trilhos ao lado - Foto: Igor Souza
Por que a ferrovia mudou o mapa do município?
No começo do século 20, os trilhos da Estrada de Ferro Oeste de Minas chegaram à região, ligando Belo Horizonte ao interior. Casas e comércios surgiram ao redor das paradas, e o distrito de Azurita cresceu praticamente em função do trem. Por muito tempo, boa parte dos moradores trabalhou na ferrovia.
A linha ainda é usada por trens de carga, mas as estações ganharam outros papéis. Duas construções contam essa fase da história:
A estação da sede, inaugurada em 1911, tombada pelo município em 2002 e restaurada em 2005 para abrigar a Casa de Cultura;
A estação de Azurita, cuja fachada foi preservada.
O que a Igreja Matriz de Santo Antônio guarda?
A matriz foi construída na segunda metade do século 18 e concluída em 1790. A obra costuma ser atribuída a Aleijadinho pela tradição local, mas o registro do patrimônio estadual credita a construção ao minerador Alferes João Francisco da Silva. O interior segue o estilo rococó, com elementos que merecem atenção:
Altares trabalhados;
Peças de talha em madeira;
Painéis pintados;
Pintura original do altar principal, revelada na restauração.
Os próprios moradores se mobilizaram pela restauração em 1976, mesmo ano em que o tombamento estadual foi aprovado. Entre 1986 e 1987, o trabalho nos elementos artísticos trouxe de volta a pintura que estava escondida no retábulo-mor, a grande estrutura de madeira atrás do altar.
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Mateus Leme é uma cidade de passagem com história própria
Com 37.841 habitantes no Censo de 2022, Mateus Leme integra a Região Metropolitana de Belo Horizonte e tem três distritos: a sede, Azurita e Serra Azul. A cidade também abriga o primeiro radar meteorológico instalado em Minas Gerais, informação que surpreende quem só conhece o lugar pela estrada.
Para quem sai da capital, a viagem leva cerca de uma hora e permite combinar o centro histórico, a estação e o distrito de Azurita no mesmo dia. A visita começa bem pela matriz, de onde se percebe como a cidade cresceu em volta da igreja e do antigo arraial do ouro.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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