Com menos de 6 mil habitantes, Jequitibá recebe 30 mil visitantes no festival que a transformou na Capital Mineira do Folclore
Uma cidade com menos de 6 mil moradores que recebe mais de 30 mil pessoas em setembro para congados, folias e cortejos. Veja como surgiu essa tradição mineira
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
31/10/2026
Por quatro dias em setembro, uma cidade de cerca de 6 mil moradores passa a receber mais de 30 mil pessoas. Elas chegam a Jequitibá, a pouco mais de 100 km de Belo Horizonte, para ver congados, folias e cortejos que tomam as ruas durante o Festival de Folclore.
Como uma reunião em casa virou festival?
O festival acontece todos os anos na primeira quinzena de setembro, com entrada gratuita. A organização é da Prefeitura de Jequitibá, e a estimativa dos organizadores é de mais de 30 mil visitantes por edição.
Tudo começou com a iniciativa de um morador, que abriu a própria casa para receber os grupos folclóricos da cidade e da região. Em poucos anos, o encontro ganhou tamanho e mudou a forma como Minas Gerais passou a enxergar Jequitibá:
em 1986, Geraldo Inocêncio de Souza reuniu grupos folclóricos em sua casa;
em 1987, o encontro virou festival;
em 1988, a cidade recebeu o título de Capital Mineira do Folclore.
Quais tradições tomam as ruas durante o festival?
O folclore de Jequitibá não aparece só em setembro. Ao longo do ano, grupos de folia de reis, congado e pastorinhas mantêm as tradições vivas na cidade, passadas de uma geração para outra.
No festival, essas manifestações se juntam a grupos de outras cidades mineiras, e cada uma traz seus próprios cantos, roupas e instrumentos. Quem assiste ao cortejo percebe a diferença entre elas. Entre as tradições que costumam aparecer na programação, estão:
congado;
reinados;
folia do Divino;
folia de reis;
boi da manta;
cavalinho-de-pau;
candombe.
Os grupos da cidade mantêm a tradição o ano inteiro
Boa parte do folclore que aparece no festival nasce nas comunidades rurais do município, como Souza e Pindaíbas, onde os grupos ensaiam e se apresentam ao longo do ano. Alguns deles transformam em dança ofícios do dia a dia, como lavar roupa, tecer e plantar. Entre os nomes da cidade que costumam marcar presença no festival, estão:
as Cantadeiras do Souza, grupo tradicional com reconhecimento nacional;
as Lavadeiras de Jequitibá;
a Dança do Tear, das Pindaíbas;
as Pastorinhas do Souza;
a Guarda de Massambique do Santíssimo Sacramento.
Muitos desses grupos abrem a programação na quinta-feira, antes da chegada dos visitantes de fora, e voltam às ruas no domingo, quando se juntam a congados e folias vindos de cidades como Sete Lagoas, Matozinhos, Paraopeba e Caetanópolis.


Lagoa cercada por palmeiras e área de passeio em Jequitibá, MG - Foto: @praondevou


Capela histórica com portas azuis e cruzeiro de madeira em Jequitibá, MG - Foto: @praondevou
Como é a programação dos quatro dias?
A programação muda a cada ano, mas segue uma lógica parecida. Os grupos folclóricos ocupam ruas e praças ao longo do dia e no começo da noite, e os shows de música fecham a programação, com espaço garantido para a viola caipira.
Nas edições mais recentes, o festival reuniu atividades para moradores e visitantes de todas as idades, com momentos voltados para as escolas e um grande encerramento nas ruas no domingo. Alguns pontos se repetem ao longo dos quatro dias:
abertura com escolas e grupos folclóricos da cidade;
atividades educativas sobre patrimônio com alunos da rede municipal;
shows de música de raiz e viola, com nomes como Renato Teixeira, Chico Lobo e a Orquestra Mineira de Viola Caipira;
missa em homenagem aos folcloristas no domingo de manhã;
cortejo da cultura popular, com mais de 25 grupos de várias cidades de Minas.
A comida também conta a história da cidade
A cozinha local aparece com força durante o festival. Pratos feitos com ingredientes da região, como ora-pro-nóbis e cansanção, dividem espaço com doces, queijos e licores, e o frango caipira com cansanção está entre os pratos típicos. O festival tem até uma premiação própria para a culinária típica, que chegou à oitava edição em 2026.
Quem quer levar um pouco dessa cultura mineira para casa pode participar das oficinas gratuitas. Elas mudam a cada ano e já incluíram gastronomia, artesanato, confecção de oratórios, estandartes e bonecas abayomi, saboaria e percussão.
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O que conhecer em Jequitibá além do festival?
A história da cidade é mais antiga que o festival. Em 1856, a localidade virou freguesia com o nome de Santíssimo Sacramento da Barra do Jequitibá, e só se tornou município em 1948. O nome vem do Ribeirão Jequitibá, batizado por causa da árvore jequitibá-branco.
Jequitibá faz parte do Circuito das Grutas, e o acesso a partir de BH é feito pela BR-040 até Sete Lagoas e depois pela MG-238, em cerca de duas horas de carro. Com um dia a mais na cidade, dá para incluir no roteiro:
a Matriz do Santíssimo Sacramento, erguida no século 19 no lugar da capela de 1788 e tombada pelo estado em 1979;
a Capela de Nossa Senhora do Rosário, de 1887, ponto de encontro de reinados, congadas e folias;
a Lagoa Pedro Saturnino, perto da área do festival;
o Quilombo Doutor Campolina.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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