Com 5,10 metros no ponto mais alto, o Bicame de Pedra se sustenta sem uma gota de argamassa

Erguida em 1792 por pessoas escravizadas, uma muralha de pedra de 5,10 metros se mantém de pé sem cimento e foi eleita uma das 21 maravilhas da Estrada Real

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
12/10/2026

Nenhum cimento, nenhuma argamassa: só pedras encaixadas umas nas outras. É assim que o Bicame de Pedra, em Catas Altas, se mantém de pé desde 1792. Com 5,10 metros no ponto mais alto, a antiga muralha foi erguida por pessoas escravizadas para levar água da Serra do Caraça até as áreas de mineração, e hoje é reconhecida como uma das 21 maravilhas da Estrada Real.

Como uma muralha de pedra se sustenta sem argamassa?

O segredo está na técnica de construção em pedra seca. As pedras de quartzito foram posicionadas de forma que o próprio peso de cada bloco ajudasse a travar os outros. A prefeitura de Catas Altas descreve o método como canjicado, em que as peças são assentadas sem qualquer material de ligação entre elas.

Registros sobre o monumento apontam que a obra segue princípios da construção romana, baseados no encaixe e no equilíbrio das peças. O resultado é uma estrutura que atravessou mais de dois séculos de chuva, sol e variação de temperatura. Três elementos ajudam a entender essa engenharia:

  • Pedras de quartzito encaixadas, sem argamassa nem cimento;

  • Um arco central, também em pedra seca, que permite a passagem de um lado para o outro;

  • Um canal aberto no topo, ainda preservado em boa parte do trecho que restou.

Para que servia o Bicame de Pedra?

O Bicame de Pedra é um aqueduto. Ele foi construído em 1792 para captar água da Serra do Caraça e conduzi-la até o povoado de Brumado, onde o ouro era extraído e lavado. A água corria pelo canal no alto da muralha, aproveitando a inclinação do terreno, e também abastecia fazendas da região.

A obra foi feita por pessoas escravizadas, no auge da mineração em Minas Gerais. Segundo o portal Conheça Minas, o aqueduto chegava a cerca de 12 quilômetros de extensão. Hoje restam cerca de 200 metros da estrutura original, trecho que ainda permite entender o tamanho do trabalho feito à época.

Detalhes da estrutura de pedras do Bicame de Pedra, em Catas Altas, MG, com montanhas ao fundo
Detalhes da estrutura de pedras do Bicame de Pedra, em Catas Altas, MG, com montanhas ao fundo

Detalhes da estrutura de pedras do Bicame de Pedra, em Catas Altas, MG, com montanhas ao fundo - Foto: Igor Souza

Arco de pedras do Bicame de Pedra, em Catas Altas, MG, com paisagem verde ao fundo
Arco de pedras do Bicame de Pedra, em Catas Altas, MG, com paisagem verde ao fundo

Arco de pedras do Bicame de Pedra, em Catas Altas, MG, com paisagem verde ao fundo - Foto: Igor Souza

O Bicame de Pedra é patrimônio protegido de Catas Altas desde 1998

Em 1998, o conjunto arquitetônico e paisagístico do Bicame de Pedra foi tombado pelo município, o que garante a proteção legal da estrutura e do entorno. O monumento também foi escolhido como uma das 21 maravilhas da Estrada Real, reconhecimento que ajudou a colocá-lo no roteiro de quem percorre a região.

A preocupação com a conservação também mudou a forma de visitar o lugar. Em 2014, o Ministério Público abriu um inquérito que apontou riscos à estrutura por causa do tráfego intenso de veículos ao lado da muralha, como fissuras, rachaduras e até deslocamento de pedras. Alguns marcos dessa trajetória de proteção são:

  • 1792: construção do aqueduto;

  • 1998: tombamento municipal do conjunto;

  • 2014: inquérito do Ministério Público sobre os riscos à estrutura;

  • 2017: proibição do trânsito de veículos na estrada ao lado do bicame.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como visitar o Bicame de Pedra em Catas Altas?

O Bicame de Pedra fica no povoado de Quebra Ossos, a cerca de 12 quilômetros do centro de Catas Altas, com acesso pela MG-129 e por estrada de terra. Desde 2017, o trecho final de cerca de 280 metros que leva direto ao monumento só pode ser feito a pé, para evitar rachaduras e deslocamento das pedras.

Uma escada encaixada na lateral do portal dá acesso à parte de cima da muralha, de onde é possível ver o canal por onde a água passava. Do alto, dá para entender como a obra aproveitava o terreno para levar a água morro abaixo. Como se trata de uma estrutura com mais de 230 anos e sem argamassa, a visita pede alguns cuidados:

  • Deixar o carro antes do trecho proibido e seguir a pé;

  • Subir a escada com calma, usando calçado firme;

  • Não retirar nem mover pedras da estrutura;

  • Evitar a visita em dias de chuva forte, quando a terra fica escorregadia;

  • Combinar o passeio com uma visita à Serra do Caraça, de onde vinha a água.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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