Com 20 hectares de área urbana cercados por 70 de erosão, Morro do Ferro virou ponto de pesquisa geológica

Uma colina no interior de Minas guarda uma das maiores concentrações de um mineral raro, estudada por cientistas de vários

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
24/10/2026

No alto de uma colina às margens da BR-494, a 35 km da sede de Oliveira, um distrito de pouco mais de 2 mil habitantes vive cercado por barrancos vermelhos. Morro do Ferro é o distrito mais antigo do município, nasceu à beira da Picada de Goiás e convive há gerações com voçorocas que atraem pesquisadores.

Como uma vila de 20 hectares ficou cercada por 70 de voçorocas?

As chuvas fortes de janeiro de 1996 levaram os moradores a cobrar um estudo sobre os barrancos que avançavam rumo às casas. O levantamento técnico concluído no ano seguinte mediu cerca de 20 hectares de área urbana e 70 hectares de voçorocas no entorno, com risco geológico para vidas e imóveis.

O tamanho do fenômeno transformou o distrito em ponto de pesquisa geológica, visitado por professores e estudantes da PUC Minas, da UFLA, da Unicamp e da UEMG, e levou o caso a telejornais de alcance nacional. Os números do levantamento ajudam a dimensionar a situação:

  • Cerca de 20 hectares de área urbana, ilhados no topo da colina;

  • Aproximadamente 70 hectares de voçorocas ao redor do perímetro habitado;

  • Recomendação de acompanhamento permanente e de obras contra a erosão.

Igreja Matriz de Morro do Ferro, MG, com torre sineira e praça arborizada em frente
Igreja Matriz de Morro do Ferro, MG, com torre sineira e praça arborizada em frente

Igreja Matriz de Morro do Ferro, MG, com torre sineira e praça arborizada em frente - Foto: Igor Souza

Por que o chão de Morro do Ferro cede com tanta facilidade?

Os solos da região são Latossolos e Cambissolos, pobres em nutrientes e cobertos por cerrado e campo cerrado. No fim da estiagem, a vegetação fica rala e deixa a terra exposta à água. A esse cenário somaram-se séculos de uso intenso do terreno:

  • Trilhas de tropeiros, boiadas e carros de boi na antiga Picada de Goiás;

  • Valas cavadas para marcar divisas entre fazendas;

  • Garimpo de ouro nas margens dos pequenos córregos;

  • Retirada de cascalho em três serras para pavimentar a BR-381 e a BR-494;

  • Desmatamento e queimadas nas encostas.

A extração de cascalho começou nos anos 1960 e deixou marcas profundas na Serra da Capelinha, bem em frente à área habitada. Sem cobertura vegetal, as valas abertas pelas máquinas passaram a carregar terra para o Córrego São João, que atravessa a parte urbana do distrito.

De onde vem o nome Morro do Ferro?

O povoamento começou com bandeirantes e tropeiros a caminho dos sertões de Minas e de Goiás. O primeiro nome do lugar foi Serra do Sal, e a capela erguida em 1765 fez o arraial passar a se chamar São João Batista, padroeiro que ainda hoje dá nome à paróquia.

O distrito foi criado oficialmente em 1842, mas o nome atual só chegou no fim de 1943, por lei estadual, em referência às jazidas de minério de ferro da Serra dos Alemães, nas proximidades. Hoje, Morro do Ferro ocupa quase um quarto de todo o território de Oliveira.

Voçoroca de erosão em Morro do Ferro, MG, com encosta avermelhada, vegetação e trilha pedregosa
Voçoroca de erosão em Morro do Ferro, MG, com encosta avermelhada, vegetação e trilha pedregosa

Voçoroca de erosão em Morro do Ferro, MG, com encosta avermelhada, vegetação e trilha pedregosa - Foto: Reprodução Digital

A lenda da praga que teria aberto os barrancos

A explicação popular mais antiga para as voçorocas é uma lenda centenária. Num dia de Natal, o vigário de Oliveira se atrasou para a missa no arraial por causa de uma enchente, e um coronel ameaçou amarrá-lo a um dos coqueiros que ficavam em frente à matriz.

Ao saber da ameaça, o padre teria anunciado do altar que o lugar acabaria engolido por buracos. A narrativa conta que os coqueiros secaram logo depois e que as voçorocas só se acalmaram quando missionários traçaram sobre elas um grande sinal da cruz.

O que os moradores fizeram para conter as voçorocas?

Em novembro de 1997, a comunidade criou uma comissão dedicada exclusivamente às erosões do distrito. A partir dali, moradores, escola e voluntários passaram a testar soluções simples e baratas para segurar a terra nos pontos mais críticos ao redor das casas:

  • Paliçadas de bambu no fundo das voçorocas, erguidas em 1998;

  • Plantio de 1.762 mudas em um dos barrancos, após uma gincana escolar;

  • Rede de esgoto que parou de despejar dentro dos abismos;

  • Restrição a veículos acima de 12 toneladas nas ruas.

A limitação aos caminhões veio porque o solo frágil provoca trincas em muitas paredes do distrito. Para o tráfego pesado, foi aberto um acesso alternativo de 900 metros, e o bambu plantado ao longo de décadas ainda ajuda a segurar parte das encostas.

+ Leia também: Conselheiro Mata se revela o destino perfeito para desligar o celular

Fogueiras de 11 metros mantêm viva a festa do padroeiro

Nenhum assunto mobiliza tanto o distrito quanto a Festa de São João Batista, reconhecida em 2024 como de relevante interesse cultural de Minas Gerais. A celebração reúne milhares de visitantes no fim de junho e preserva ritos da paróquia, instalada canonicamente em 1871.

A abertura acontece com a procissão da antiga imagem de São João Batista de Tábua, seguida de missa e queima de fogos. Ao longo dos dias, a programação combina tradição religiosa e cultura rural, com elementos que dão identidade própria à festa:

  • Três fogueiras com mais de 11 metros de altura cada;

  • Ladainha rezada em latim;

  • Desfile de carros de boi pelas ruas do distrito.

Praça arborizada de Morro do Ferro, MG, com coreto central, palmeiras e bancos
Praça arborizada de Morro do Ferro, MG, com coreto central, palmeiras e bancos

Praça arborizada de Morro do Ferro, MG, com coreto central, palmeiras e bancos - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

Posts que você pode gostar

Todos os Direitos Reservados © 2024

Contato e parcerias: olharesporminasoficial@gmail.com