Com 18 teares vindos dos EUA, nasceu em 1872 a fábrica que originou Caetanópolis
Uma fábrica com apenas 18 teares vindos dos Estados Unidos, montada por três irmãos em 1872, mudou para sempre o destino de uma cidade no interior mineiro
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
23/09/2026
Em 1872, três irmãos inauguraram no interior de Minas Gerais uma fábrica de tecidos com apenas 18 teares vindos dos Estados Unidos. O empreendimento cresceu, atraiu moradores para os arredores e acabou dando origem à cidade que hoje se chama Caetanópolis. Passados mais de 150 anos, essa história ainda aparece na paisagem, no relevo e no cotidiano do município.
Um convite entre irmãos deu início à indústria têxtil de Minas Gerais
Em 1864, os irmãos Bernardo e Caetano Mascarenhas procuraram o irmão mais velho, Antônio Cândido, que morava nas proximidades de Taboleiro Grande, atual Paraopeba. O convite era claro: juntar forças para montar uma fábrica de tecidos na região, algo praticamente inédito em Minas Gerais naquele momento. A sociedade entre os três selou o início de um projeto que mudaria a história do interior do estado.
Para viabilizar o negócio, os irmãos adquiriram a Fazenda da Ponte, próxima a Taboleiro Grande, em 1870. Coube a Bernardo Mascarenhas viajar até os Estados Unidos para comprar os equipamentos necessários, decisão que definiria o rumo da fábrica. Foi esse investimento inicial que, poucos anos depois, colocou o interior de Minas Gerais no centro da indústria têxtil nacional.
Por que os teares vieram dos Estados Unidos?
A escolha por equipamentos importados não foi aleatória: na época, o Brasil ainda não produzia teares com a qualidade necessária para abastecer uma fábrica de tecidos em escala relevante. Bernardo Mascarenhas cruzou o Atlântico justamente para resolver esse gargalo, garantindo que a nova fábrica começasse com tecnologia adequada. Essa viagem resultou em números que ainda hoje aparecem em qualquer registro sobre a origem da indústria têxtil mineira:
18 teares importados dos Estados Unidos;
Uma fábrica inaugurada em 12 de agosto de 1872.
Com esses teares em funcionamento, a fábrica se tornou a primeira unidade têxtil a operar de forma contínua e bem-sucedida em Minas Gerais — o estado já havia registrado tentativas anteriores de industrialização têxtil, mas nenhuma se firmou como a fábrica dos Mascarenhas. O feito rendeu à iniciativa dos irmãos um lugar de destaque na história industrial do país. Anos depois, a empresa passaria a se chamar Companhia Cedro e Cachoeira, nome que segue em atividade até hoje.


Capela de Nossa Senhora em Caetanópolis, MG, com fachada branca e azul e imagem religiosa na praça - Foto: Igor Souza


Memorial Clara Nunes em Caetanópolis, MG, instalado no Instituto Clara Nunes e dedicado à cantora - Foto: Igor Souza
Como a fábrica deu origem à cidade de Caetanópolis?
Com a fábrica funcionando, os operários passaram a morar nos arredores, formando aos poucos uma vila conhecida como Cedro. O crescimento populacional acompanhou o ritmo da produção têxtil, e a localidade se tornou distrito de Paraopeba nos anos seguintes. Essa vila operária foi, na prática, o embrião do município que existe hoje.
A emancipação política só aconteceu em 1954, por iniciativa do Padre Chaves e de Antônio Joaquim Mascarenhas, que se tornou o primeiro prefeito. Com a nova condição de município, o nome mudou de Cedro para Caetanópolis, em homenagem ao coronel Caetano Mascarenhas, um dos fundadores da fábrica. O gesto reconheceu, de forma direta, quem havia dado origem a toda essa história.
O que o relevo e o cerrado da região têm a ver com essa história?
Caetanópolis fica a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte, pela BR-040 em direção a Brasília, em uma área de aproximadamente 156 quilômetros quadrados. O relevo do município é marcado pela Serra do Imbiruçu, que chega a 1.065 metros de altitude na divisa com Sete Lagoas, e pela Serra da Lontra, com 946 metros. Essas elevações fazem parte do domínio dos campos e cerrados que caracteriza boa parte do interior de Minas Gerais.
O bioma cerrado, oficialmente reconhecido pelo IBGE como vegetação original da área, também influenciou o tipo de ocupação da terra ao longo dos séculos. Entre indústria têxtil, extração de pedra ardósia e atividades rurais, o município soma hoje diferentes frentes econômicas que convivem lado a lado. Alguns pontos ajudam a resumir essa combinação entre relevo, produção e história:
Indústria têxtil, herança direta da fábrica fundada em 1872;
Extração e beneficiamento de pedra ardósia;
Agricultura ligada às características do solo da região;
Pecuária distribuída pelas propriedades rurais do entorno;
Relevo com altitudes que variam entre 946 e 1.065 metros.
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Quais lugares contam essa trajetória hoje?
Quem visita Caetanópolis encontra pontos turísticos que resgatam essa história por toda a cidade. A antiga fábrica, hoje sob a marca Cedro, continua sendo o marco mais evidente dessa trajetória centenária. Outros espaços completam esse roteiro e ajudam a entender como o município se desenvolveu ao longo do tempo:
Museu Têxtil Décio Mascarenhas, em funcionamento desde 1983;
Igreja Matriz de Santo Antônio, um dos maiores templos dedicados ao santo em Minas Gerais;
Memorial Clara Nunes, inaugurado em 2012.
O Museu Têxtil reúne mais de mil peças ligadas à história da fábrica e é considerado um dos mais completos do país no seu segmento. Caetanópolis também é lembrada como terra natal da cantora Clara Nunes, o que amplia ainda mais o interesse por sua história. Juntas, essas referências mostram como um projeto iniciado em 1872 segue presente no dia a dia do município.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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