Com 1.630 km cruzando Minas, Rio e São Paulo, a Estrada Real é a maior rota turística oficial do Brasil
Mais de 1.600 km de terra, serra e cidades coloniais ligando três estados. Veja como surgiram os quatro caminhos do ouro e como percorrê-los hoje
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
28/09/2026
O ouro que saía de Minas Gerais no período colonial tinha caminho certo até o mar, por estradas vigiadas pela Coroa portuguesa. Hoje, esses trajetos formam a Estrada Real, com mais de 1.630 quilômetros entre Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. O Instituto Estrada Real apresenta o conjunto como a maior rota turística do país, e os números ajudam a entender o motivo.
Quais são os quatro caminhos da Estrada Real?
A rota não é uma linha única. Ela reúne quatro trajetos diferentes, cada um com história, paisagem e ponto de partida próprios, todos ligados de alguma forma a Ouro Preto, a antiga Vila Rica.
Pelos dados do Instituto Estrada Real, a divisão fica assim:
Caminho Velho: 710 km entre Ouro Preto e Paraty;
Caminho Novo: 515 km entre Ouro Preto e o Porto Estrela, no Rio de Janeiro;
Caminho dos Diamantes: 395 km entre Ouro Preto e Diamantina;
Caminho do Sabarabuçu: 160 km entre Glaura e Cocais.


Passaportes da Estrada Real com carimbos de cidades históricas de Minas Gerais - Foto: Igor Souza
A rota nasceu para controlar o ouro da Coroa
A Estrada Real surgiu para levar ouro e pedras preciosas das minas até os portos, de onde seguiam para Lisboa. Ao oficializar esses trajetos, a Coroa podia fiscalizar o transporte e combater o contrabando. A linha do tempo mostra como a rede cresceu:
1698: começa a abertura do Caminho Novo;
Entre 1722 e 1725: o Caminho Novo é concluído;
1729: os diamantes da região de Diamantina ganham destaque e o Caminho dos Diamantes passa a ter grande importância.
O Caminho do Sabarabuçu tem uma origem curiosa. Segundo o instituto, os bandeirantes acreditavam que o brilho da Serra da Piedade indicava ouro. Na verdade, era o minério de ferro do topo da montanha refletindo a luz do sol.
Por que o Caminho Novo substituiu o Velho?
O Caminho Velho foi o primeiro aberto oficialmente pela Coroa entre o litoral do Rio de Janeiro e a região das minas. O problema estava na distância: o trajeto terminava em Paraty, e de lá a carga ainda precisava seguir por mar até o Rio de Janeiro, o que tornava a viagem longa e demorada.
O Caminho Novo surgiu como uma alternativa mais rápida e mais fácil, ligando as minas diretamente à Baía de Guanabara. Com o tempo, passou a ser o trajeto preferido para o transporte das riquezas. Esse transporte era feito em lombo de mula, pelas tropas que subiam e desciam a serra.


Passaporte da Estrada Real com carimbos de destinos mineiros diante de igreja em Minas Gerais - Foto: Igor Souza
Quais cidades aparecem ao longo da Estrada Real?
A lei que reconheceu a rota como monumento nacional lista 183 municípios e distritos nos três estados. Alguns dos mais conhecidos estão em Minas Gerais, mas o trajeto também passa por destinos como Petrópolis, Guaratinguetá e Cunha. No lado mineiro, a lista inclui:
Ouro Preto;
Tiradentes;
São João del-Rei;
Diamantina;
Congonhas.
No Caminho Velho, ainda aparecem cidades do Sul de Minas, como Caxambu, São Lourenço, Itamonte e Passa Quatro. Já o Caminho do Sabarabuçu passa por Caeté, Sabará, Raposos e Rio Acima, bem perto de Belo Horizonte.
Como é percorrer a Estrada Real hoje?
A maior parte do trajeto é feita em estrada de terra. No Caminho Velho, 82,5% do percurso é de chão batido, e no Caminho dos Diamantes esse número chega a 73,5%. Há marcos de sinalização nas bifurcações e nos pontos que costumam confundir o viajante.
Para organizar a viagem, o Instituto Estrada Real divide os caminhos em planilhas com trechos detalhados. Alguns números dão a medida do esforço:
27 planilhas no Caminho Velho e 18 no Caminho dos Diamantes;
Cerca de 8 dias para percorrer o Caminho dos Diamantes de bicicleta;
Cerca de 27 dias para fazer o mesmo trajeto a pé.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Desde 2023, a Estrada Real é monumento nacional
O reconhecimento veio com a Lei nº 14.698, publicada em outubro de 2023. Ela nasceu de um projeto de lei apresentado em 2021 na Câmara dos Deputados. O texto declara a rota monumento nacional e lista as localidades que fazem parte dela nos três estados.
O instituto responsável pela gestão turística da rota foi criado em 1999, com a tarefa de organizar e divulgar os caminhos. Um trecho do Caminho dos Diamantes perto de Mariana segue com desvio por causa do rompimento de barragem. Por isso, vale conferir as orientações atualizadas antes de sair.


Passaporte da Estrada Real em frente ao letreiro “Eu Amo Lagoa Dourada”, em Minas Gerais - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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