Chegou a ter 110 teares e 210 operários, sendo 180 mulheres: a fábrica da Vila do Biribiri, em Diamantina

Uma fábrica erguida por um bispo, no meio da serra, chegou a empregar mais de 200 pessoas antes de virar um vilarejo silencioso

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
29/09/2026

O som da água corrente virou motor. Foi assim, aproveitando a força de uma cachoeira na Serra do Espinhaço, que nasceu, em 1876, uma das maiores fábricas de tecidos do interior de Minas Gerais. A Vila do Biribiri, a poucos quilômetros de Diamantina, chegou a operar 110 teares ao mesmo tempo, com 210 operários — a maioria deles, mulheres — e somou 300 trabalhadores no auge. Mais de cinquenta anos depois de fechada, a vila ainda guarda esse passado industrial em meio a belezas naturais que hoje atraem outro tipo de visitante. Passear por lá hoje é caminhar entre casas de operários, uma capela centenária e o silêncio que só o fim de uma fábrica pode deixar para trás.

Uma fábrica no meio da serra

Um bispo fundou uma fábrica têxtil. Parece contradição, mas foi exatamente isso que aconteceu em 1876, quando Dom João Antônio dos Santos, primeiro bispo de Diamantina, se juntou aos irmãos Joaquim Felício dos Santos e Antônio Felício dos Santos para instalar a produção em terras da própria família.

A escolha do local não foi por acaso. Havia uma cachoeira ali, capaz de gerar força motriz para as máquinas e, mais tarde, energia elétrica para toda a vila. Diamantina, a cerca de 13 quilômetros dali, oferecia ainda outra vantagem: instituições como o Colégio e o Asilo de Órfãs Nossa Senhora das Dores, que se tornariam fonte direta de mão de obra para o novo empreendimento. O maquinário, por sua vez, veio de muito mais longe: comprado em Massachusetts, nos Estados Unidos, percorreu navios, trens, jangadas, carroças e até lombos de burro até chegar à serra.

Casa histórica branca com detalhes azuis e área arborizada na Vila do Biribiri, em Diamantina, MG
Casa histórica branca com detalhes azuis e área arborizada na Vila do Biribiri, em Diamantina, MG

Casa histórica branca com detalhes azuis e área arborizada na Vila do Biribiri, em Diamantina, MG - Foto: Igor Souza

Como 63 operários viraram 300?

Sessenta e três. Esse foi o número de pessoas contratadas quando a fábrica abriu as portas, trabalhando em 45 teares. Trinta e seis eram mulheres, dezoito eram meninos, e apenas nove eram homens adultos — uma proporção que definiria a identidade da fábrica por quase um século. Muitas dessas trabalhadoras chegavam à fábrica vindas de instituições assistenciais, sendo conhecidas na época como "pobres órfãs-operárias".

A produção cresceu rápido, e o quadro de funcionários acompanhou o ritmo: em pouco tempo, o número de teares mais que dobrou, chegando a 110 máquinas ativas, e o total de operários passou a somar:

  • 210 pessoas ao todo;

  • 180 delas, mulheres jovens;

  • O restante dividido entre homens e meninos;

  • 300 trabalhadores no auge da produção, já na primeira metade do século XX.

Antiga polia da fábrica de tecidos exposta como memória histórica na Vila do Biribiri, em Diamantina
Antiga polia da fábrica de tecidos exposta como memória histórica na Vila do Biribiri, em Diamantina

Antiga polia da fábrica de tecidos exposta como memória histórica na Vila do Biribiri, em Diamantina - Foto: Igor Souza

Por que a vila foi construída como um vilarejo inglês?

O responsável pelo desenho arquitetônico foi John Rose, contratado inicialmente para coordenar a montagem do maquinário vindo dos Estados Unidos. Rose acabou assumindo também o projeto das casas e da Capela do Biribiri, aplicando um estilo pitoresco, inspirado em subúrbios e áreas rurais da Inglaterra, dentro dos princípios do movimento Arts and Crafts. Antes disso, dificilmente uma vila operária do interior de Minas Gerais tinha recebido projeto arquitetônico tão elaborado.

Esse desenho ia muito além da estética. A vila organizava fisicamente a vida dos operários, reunindo em um só conjunto:

  • Um pensionato para moças, conhecido internamente como Convento;

  • Casas reservadas para trabalhadores casados;

  • A residência da gerência;

  • Um armazém e uma igreja;

  • Uma praça central, ponto de encontro da comunidade.

Era controle. Era também comunidade.

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O que resta da fábrica que fechou há mais de cinco décadas?

A produção parou em 1973, depois de quase um século de funcionamento ininterrupto. Passados mais de cinquenta anos, parte da estrutura original ainda resiste dentro da vila, transformada aos poucos em atrativo para quem visita a região. Ao longo das décadas, a administração da fábrica também passou para outras mãos — da família Felício dos Santos para os Duarte e, depois, para os Mascarenhas —, chegando a operar sob o nome de Estamparia S.A., empresa que ainda hoje é dona da vila. Numa espécie de platô próximo à igreja, ficam expostos a céu aberto:

  • Teares que integravam o antigo maquinário da fábrica;

  • Uma polia de grande porte, usada até 1962;

  • Galpões industriais, que desde julho de 2026 abrigam o Centro de Memórias, museu sobre a história da vila.

Desde 1994, o conjunto arquitetônico e paisagístico da vila é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. Hoje, dois restaurantes com mesas ao ar livre e uma pousada recebem visitantes, e algumas antigas casas de operários funcionam como hospedagem por temporada, mantendo o silêncio característico do lugar mesmo com o movimento turístico. Diamantina, ponto de referência na Estrada Real, garante fácil acesso a quem quer conhecer esse pedaço de história.

Máquina antiga da fábrica de tecidos preservada como peça histórica na Vila do Biribiri, Diamantina
Máquina antiga da fábrica de tecidos preservada como peça histórica na Vila do Biribiri, Diamantina

Máquina antiga da fábrica de tecidos preservada como peça histórica na Vila do Biribiri, em Diamantina - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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