Chamada de montanha dos bem-aventurados, a Serra do Carola guarda uma vila fantasma de cem casas no Serro
Cem casas de pé, mas quase ninguém mora ali: essa vila no interior de Minas só ganha vida durante um mês inteiro do ano
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
05/10/2026
Cem casas de pé, ruas desenhadas, uma capela no centro — e quase ninguém morando ali o ano inteiro. No alto da Serra do Carola, a cerca de 18 quilômetros do Serro, existe um vilarejo que só ganha vida de verdade durante alguns dias de julho. O resto do tempo, portas e janelas ficam trancadas, e o silêncio domina essa montanha conhecida como a montanha dos bem-aventurados. Empresas de turismo já organizam passeios guiados até lá, mas a experiência muda completamente dependendo da época do ano em que se chega.
Cem casas, uma vila, quase nenhum morador
Cem. É esse o número aproximado de casinhas espalhadas pelo topo da Serra do Carola, todas construídas ao redor da Capela de Nossa Senhora das Dores. Elas fazem parte de um conjunto arquitetônico tombado pelo município do Serro, reconhecido oficialmente por seu valor histórico e paisagístico. A área protegida soma cerca de 3,1 hectares, o suficiente para abrigar tanto as casas quanto a capela que dá origem a tudo.
Só uma família mora ali o ano inteiro: a de dona Maria do Amparo, que planta feijão e milho e cuida de algumas cabeças de gado enquanto as casas ao redor permanecem fechadas. O restante da vila pertence, na prática, ao calendário. Fora de época, o vento é o único visitante regular daquele platô, e é ele que quebra o silêncio entre as casas fechadas durante a noite.


Casas simples com telhados antigos e montanhas ao fundo na Serra do Carola, em Serro, MG - Foto: Igor Souza
Por que essa vila só recebe visitantes durante uma semana do ano?
Todo mês de julho, a Serra do Carola muda de figura. É quando acontece o jubileu de Nossa Senhora das Dores, festa que atrai moradores dos povoados vizinhos para dentro das casinhas fechadas o resto do tempo. Por cerca de uma semana, entre o segundo e o terceiro domingo de julho, cada família ocupa temporariamente uma dessas moradias, reacendendo fogões que ficaram apagados por meses.
Passado o jubileu, a rotina se inverte outra vez: portas se fecham, famílias voltam para suas casas de origem, e a vila retoma o silêncio até o próximo julho, dividindo o calendário entre:.
Uma semana de movimento intenso, em julho;
O resto do ano em silêncio quase absoluto;
Casas reabertas apenas por quem tem laço direto com a tradição;
Um ciclo que se repete todos os anos, sem grandes mudanças.


Igreja histórica com torres azuis e vista para as montanhas da Serra do Carola, em Serro, MG - Foto: Igor Souza
De onde vem o nome montanha dos bem-aventurados?
A devoção que deu fama à serra começou no início do século XX, quando um devoto chamado José Osvaldo de Gulim ergueu um cruzeiro de madeira no ponto mais alto do platô. A partir daí, fiéis passaram a subir uma trilha íngreme de cerca de três quilômetros para pedir proteção e milagres a Nossa Senhora das Dores. Alguns nomes marcam essa fase inicial:
José Osvaldo de Gulim, responsável pelo primeiro cruzeiro de madeira;
Expedito, um dos companheiros na construção da capela;
José, outro nome envolvido nessa etapa inicial;
Nicodemos, também parte do grupo fundador;
Romão Eduardo dos Santos, que doou a área onde a capela foi erguida;
Nossa Senhora das Dores, padroeira que dá nome à devoção.
Com o tempo, a montanha passou a ser chamada de montanha dos bem-aventurados, uma referência aos devotos que subiam em busca de proteção espiritual e às graças atribuídas ao lugar. O nome pegou e resistiu ao tempo, mesmo depois que as casas ao redor da capela passaram a ficar vazias na maior parte do ano.
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Como chegar a esse vilarejo escondido no interior de Minas Gerais?
O caminho começa na cidade do Serro, seguindo pela rodovia MG-010 em direção a Conceição do Mato Dentro. Depois de cerca de 15 quilômetros, uma placa indica a entrada para o distrito de Deputado Augusto Clementino, antigo Mato Grosso, núcleo habitado da região, com comércio simples e moradores fixos. O trecho final é curto, mas pede atenção, sobretudo em dias de chuva. Alguns pontos ajudam a organizar essa subida:
Saída do centro do Serro pela rodovia MG-010, sentido Conceição do Mato Dentro;
Entrada, após cerca de 15 km, para o distrito de Deputado Augusto Clementino;
Últimos três quilômetros em subida íngreme, por estrada de terra batida.
Do alto, as belezas naturais compensam o esforço da subida: montanhas, vales e uma paisagem que muda de cor conforme a hora do dia. Empresas de turismo da região oferecem passeios guiados até a serra, geralmente incluindo explicações sobre a história do jubileu e da própria vila fantasma.


Casas antigas e estrada de terra em meio à paisagem rural da Serra do Carola, em Serro, MG - Foto: Igor Souza
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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