Carrancas: a parada esquecida da rota do ouro entre Ouro Preto e Paraty
Uma cidade no meio da rota que levava ouro e diamantes até o litoral segue esquecida pelos roteiros turísticos. Veja a história e o que ainda resta lá
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
01/08/2026
Entre Ouro Preto e o litoral fluminense existe um trecho de estrada que carregou ouro, diamantes e escravizados durante todo o período colonial, e Carrancas está bem no meio desse caminho. Mesmo assim, a cidade costuma ficar de fora dos roteiros mais procurados da Estrada Real, ofuscada por vizinhas mais conhecidas. Quem chega até lá encontra um pedaço da rota que segue quase do mesmo jeito de há três séculos.
Por que Carrancas é chamada de parada esquecida da rota do ouro?
O trecho conhecido como Caminho Velho, ou Caminho do Ouro, foi a primeira via oficializada pela Coroa Portuguesa para ligar a região mineradora de Ouro Preto ao porto de Paraty, no Rio de Janeiro, com a função de garantir o transporte seguro de ouro e diamantes. Ao longo do trajeto, algumas cidades concentram a maior parte da atenção dos visitantes:
Congonhas, com o conjunto de esculturas de Aleijadinho;
São João del Rei, com seu casario colonial preservado;
Tiradentes, um dos destinos mais visitados de Minas Gerais;
Caxambu, conhecida pelo complexo hidromineral;
Carrancas, muitas vezes deixada de fora do roteiro principal.
Carrancas concentra o maior trecho contínuo de Estrada Real dentro de um único município, o que por si só já justificaria mais destaque do que costuma receber.
A cidade nasceu junto com o ciclo do ouro
Os primeiros moradores fixaram residência na região ainda na segunda década de 1700, quando famílias de bandeirantes paulistas se instalaram nas margens do Rio Grande, área hoje ocupada pela Represa dos Camargos. A primeira capela foi erguida em 1721, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, e a localidade chegou a se chamar Nossa Senhora do Rio Grande.
Com o esgotamento das jazidas de ouro, a economia local passou a depender da agricultura e da pecuária, um cenário que se manteve por gerações até o turismo ganhar força nas últimas décadas. Essa transição é parte do que explica o ritmo mais lento que ainda marca a cidade hoje.
De onde vem o nome Carrancas?
A versão mais aceita para a origem do nome está ligada à geologia da região. Duas formações rochosas no alto da serra lembravam rostos gigantes, quase carrancudos, e essa semelhança acabou batizando o povoado que se formava ali.
Outras versões relacionam o nome à intensa exploração mineral na região, que teria criado relevos parecidos com rostos nos morros. De qualquer forma, a referência às formações rochosas é o ponto em comum entre as diferentes explicações.


Fachada da Igreja Matriz de Carrancas com torres amarelas e escadaria, MG - Foto: Igor Souza


Casarões coloniais com portas e janelas coloridas no centro de Carrancas, MG - Foto: Igor Souza
O que fazer em Carrancas além de conhecer sua história?
O município reúne mais de 70 cachoeiras, reunidas em complexos que concentram a maior parte da estrutura de visitação:
Complexo da Esmeralda, com poço de água verde característico;
Complexo da Fumaça, com queda de 15 metros de altura;
Complexo da Zilda, com mais de dois quilômetros de trilhas;
Complexo Vargem Grande, com piscinas naturais e corredeiras.
A Cachoeira da Esmeralda, a mais procurada da região, fica a cerca de 9 quilômetros do centro e é alcançada por uma trilha de aproximadamente 30 minutos. Além das cachoeiras, o interior do município reúne fazendas históricas da época dos bandeirantes, algumas ainda em atividade e outras transformadas em hotéis-fazenda.
Carrancas já apareceu na televisão?
Sim, o cenário de serras e casario chamou a atenção de produções da Rede Globo em mais de uma ocasião, o que ajudou a colocar a cidade no mapa do turismo nacional. Entre as novelas gravadas na região estão:
Alma Gêmea, exibida em 2004;
Paraíso, exibida em 2009;
Império, exibida em 2014.
Além das gravações, a cidade também guarda uma pequena capela branca de janelas azuis, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais como primeiro patrimônio municipal de Carrancas.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
A vida local segue um ritmo bem diferente das grandes cidades da Estrada Real
Carrancas está a 1.060 metros de altitude, o que garante um clima ameno mesmo nos dias mais quentes do ano, com médias de 25°C durante o dia e 10°C à noite. A população reduzida e a religiosidade marcante reforçam esse compasso mais lento que diferencia Carrancas das paradas mais movimentadas da Estrada Real.
Entre as tradições que sustentam esse calendário mais tranquilo estão:
Congado e folia de reis, celebrações católicas mantidas há gerações;
Carnaval Antecipado, realizado duas semanas antes da data oficial em outras cidades.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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