Berço do poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa, Mariana guarda casarões coloniais preservados há três séculos
Ruas traçadas com régua, uma cadeia com esgoto até nas celas e um órgão alemão do século XVIII: o roteiro a pé pela primeira cidade planejada de Minas
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
28/10/2026
Em 1789, interrogado na devassa da Inconfidência Mineira, Cláudio Manuel da Costa se declarou natural de Mariana. A resposta explica por que a primeira cidade de Minas trata o poeta como filho da terra. As ruas que ele conheceu seguem de pé, com casarões coloniais em Mariana que guardam portas e sacadas do século XVIII.
Por que Mariana é chamada de berço de Cláudio Manuel da Costa?
Cláudio Manuel da Costa nasceu em 1729, filho de um português e de uma paulista que viviam da mineração e da lavoura. Formou-se em Direito em Coimbra e, de volta a Minas, publicou em 1768 o livro Obras, marco inicial do Arcadismo no Brasil.
A ligação com Mariana, porém, vai além da certidão de nascimento. Ela aparece no lugar onde ele veio ao mundo, no trabalho que exerceu na cidade e na própria poesia, como mostram estes três pontos:
Nasceu no sítio da Vargem do Itacolomi, zona rural da antiga Vila do Carmo.
Foi almotacé em Mariana, cargo que fiscalizava pesos, medidas e preços.
Escreveu a “Fábula do Ribeirão do Carmo”, sobre o curso d’água da cidade.
A primeira cidade de Minas cresceu seguindo uma planta oficial
Enquanto outras vilas do ouro cresceram como o terreno permitia, Mariana seguiu outro rumo. A partir de 1743, sua expansão passou a obedecer a uma planta atribuída ao engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim, com ruas retas e praças retangulares.
Em 1745, a vila virou cidade, ganhou o nome em homenagem à rainha Maria Ana de Áustria, esposa de dom João V, e recebeu o primeiro bispado de Minas. O conjunto urbano foi tombado em 1938 e elevado a Monumento Nacional em 1945.
O que observar nos casarões da Rua Direita?
A Rua Direita reúne um dos conjuntos mais completos de casarões coloniais em Mariana, com sobrados de dois pavimentos colados uns aos outros, perto da Catedral da Sé. Para quem caminha com calma, alguns detalhes merecem atenção:
Portas e janelas de madeira, com esquadrias que variam de casa para casa.
Sacadas com guarda-corpo de ferro ou de madeira.
O sobrado do Barão de Pontal, com sacadas rendilhadas em pedra-sabão.
A Casa Setecentista, ligada ao Iphan, que guarda documentos coloniais.
O calçamento de pedra, que pede sapato confortável.
O sobrado do Barão de Pontal contou com o trabalho de José Pereira Arouca, português que se tornou o maior construtor da Mariana setecentista. Ele também trabalhou na Casa Capitular, e suas obras ajudam a entender o padrão construtivo da época.


Casarão colonial com janelas roxas e Igreja de São Pedro dos Clérigos ao fundo, em Mariana, MG - Foto: Igor Souza


Fachada de casarão histórico em Mariana, MG, com portas de madeira, janelas coloniais e sacadas de ferro - Foto: Igor Souza
O que a Praça Minas Gerais revela sobre o poder colonial?
A poucos minutos dali, a Praça Minas Gerais reúne em formato de U as igrejas de São Francisco de Assis e do Carmo e a antiga Casa de Câmara e Cadeia, erguidas a partir da segunda metade do século XVIII. Um pelourinho de pedra completa o conjunto.
O prédio da Câmara segue como sede do Legislativo municipal e passou por um restauro concluído em 2023. Foi a essa instituição que Cláudio Manuel prestou serviços, e alguns fatos ajudam a medir a importância dela:
Criada em 1711, é a câmara mais antiga de Minas.
Antes do prédio, funcionou na casa do primeiro juiz, Pedro Frasão.
O prédio foi pioneiro no país com água corrente e esgoto, até nas celas.
O desenho segue influências da arquitetura do norte de Portugal.
A Casa do Conde de Assumar virou o museu da cidade
Aberta ao público em setembro de 2023, após restauro, a Casa do Conde de Assumar abriga o Museu de Mariana, dedicado à história do município. Além do acervo, o próprio imóvel carrega capítulos importantes da trajetória local:
Teria sido erguida por volta de 1715 para o governador conde de Assumar.
Depois serviu de residência ao primeiro bispo, dom frei Manoel da Cruz.
Foi restaurada junto com a Igreja de São Francisco, reaberta após 14 anos.
O próprio edifício é a principal peça da exposição, e o percurso inclui café e jardim ao ar livre. O museu fica na Rua João Pinheiro, no centro histórico de Mariana, e cobra ingresso, com gratuidade para moradores.
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Como percorrer o centro histórico de Mariana a pé?
Graças ao traçado quase ortogonal, as atrações ficam próximas, e o ideal é deixar o carro e caminhar, usando a Praça Minas Gerais como referência. A cidade fica a 12 km de Ouro Preto e a cerca de 115 km de Belo Horizonte.
No fim do passeio, vale ir até a Praça Cláudio Manuel, onde fica a Catedral da Sé, com um órgão alemão enviado pela Coroa ao primeiro bispo em 1753. Ali, na praça que leva o nome do poeta, a história do inconfidente e a das casas antigas se encontram.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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