Às margens dessa lagoa mineira existe o conjunto arquitetônico moderno mais importante das Américas
Patrimônio Mundial da Unesco desde 2016, o conjunto à beira de uma lagoa artificial de BH reúne obras de Niemeyer, Portinari e Burle Marx que anteciparam a criação de Brasília
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
06/07/2026
Em 1943, o então prefeito de Belo Horizonte Juscelino Kubitschek encomendou a um jovem arquiteto chamado Oscar Niemeyer um conjunto de edifícios ao redor de uma lagoa artificial no norte da cidade. O resultado foi inaugurado em 16 de maio daquele ano na presença do presidente Getúlio Vargas e se tornou, décadas depois, Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. A Pampulha não é apenas uma atração turística de BH. É onde a arquitetura moderna brasileira encontrou sua própria linguagem.
Por que a Pampulha é considerada tão importante para a arquitetura mundial?
O conjunto foi o primeiro da história a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade na categoria "Paisagem Cultural do Patrimônio Moderno", em decisão tomada por consenso pelos 21 países do Comitê da Unesco, em julho de 2016. A Unesco enquadrou a Pampulha como representante de três critérios essenciais: obra-prima do gênio criativo humano, intercâmbio de valores que impactou a arquitetura mundial e exemplar excepcional de conjunto arquitetônico que ilustra um estágio significativo da história humana.
O projeto reuniu quatro dos maiores nomes da arte brasileira do século XX: Oscar Niemeyer (arquitetura), Roberto Burle Marx (paisagismo), Cândido Portinari (painéis de azulejo) e Alfredo Ceschiatti (escultura). O conjunto antecipou em mais de uma década os conceitos que seriam aplicados na construção de Brasília.
O que compõe o Conjunto Moderno da Pampulha?
Os cinco monumentos tombados pelo IPHAN em 1997 e reconhecidos pela Unesco em 2016 são:
Igreja de São Francisco de Assis: a obra-prima do conjunto, com abóbada parabólica em concreto e painel de azulejos de Portinari; foi o primeiro monumento moderno a receber proteção federal no Brasil, em 1947;
Museu de Arte da Pampulha (MAP): funcionou como cassino de 1942 a 1946; fechado com a proibição dos jogos, virou museu em 1957; primeiro edifício construído no conjunto;
Casa do Baile: em ilha artificial ligada à orla por ponte de concreto; originalmente um restaurante dançante, hoje é o Centro de Referência em Urbanismo, Arquitetura e Design;
Iate Tênis Clube: projetado com formas que remetem a um barco se lançando nas águas; foi o Iate Golfe Clube até 1961;
Museu Casa Kubitschek: residência de fim de semana de JK, com jardim de Burle Marx em terreno de cerca de 3 mil metros quadrados; museu desde 2013.


Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, com Igreja São Francisco de Assis, árvores e céu azul - Foto: Igor Souza
Qual é a história da Igreja de São Francisco de Assis?
A "Igrejinha da Pampulha" é considerada a obra mais importante do conjunto e um divisor de águas na carreira de Niemeyer. Na concepção do projeto, o arquiteto abandonou a laje sobre pilotis e criou uma abóbada parabólica em concreto que era, até então, usada apenas em hangares. Isso inaugurou aquilo que seria a diretriz de toda a sua obra: a plasticidade do concreto armado em formas ousadas e inusitadas. O projeto estrutural foi assinado pelo engenheiro Joaquim Cardozo, que Niemeyer chamava de "o brasileiro mais culto que existia".
Apesar da consagração por arquitetos, a igreja inaugurada em 1943 foi rejeitada pela arquidiocese, que se recusou a consagrá-la por anos. O painel externo de azulejos de Portinari, com cenas da vida de São Francisco, também gerou controvérsia. A igreja só foi consagrada muitos anos depois da inauguração.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Como aproveitar a visita à Lagoa da Pampulha?
A orla da lagoa tem 18 quilômetros de extensão, usados tanto para visitas aos monumentos quanto para caminhada, ciclismo e lazer. O Mirante Bandeirantes reúne esculturas de Niemeyer, Portinari, Burle Marx e Kubitschek. Os monumentos podem ser visitados individualmente, com horários e entradas próprias.
Pontos práticos para planejar a visita:
MAP e Casa do Baile: verificar programação atualizada na Fundação Municipal de Cultura de BH;
Museu Casa Kubitschek: quarta a domingo, das 10h às 18h; Av. Otacílio Negrão de Lima, 4.188;
Igreja de São Francisco de Assis: entrada paga; uma das mais fotografadas de BH;
Acesso: cerca de 10 km do centro de BH; ciclovia ao longo de toda a orla.
A Pampulha não precisa de roteiro elaborado para impressionar. Chegar à beira da lagoa no fim da tarde, caminhar da Igreja até a Casa do Baile e entender que tudo aquilo foi projetado em 1942 por um arquiteto de 35 anos já é suficiente para entender por que o mundo olha para Belo Horizonte como um dos berços da arquitetura moderna.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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