Araxá, no Alto Paranaíba, abastece mais de 75% da demanda mundial de nióbio, metal descoberto ali em 1953
Um metal invisível no dia a dia está em aviões, carros e hospitais do mundo todo, e quase tudo sai da mesma terra que guarda famosas fontes termais
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
29/10/2026
Turbinas de avião, gasodutos e carros mais leves têm em comum um metal que sai, em grande parte, do subsolo de uma cidade mineira. O nióbio em Araxá foi identificado em 1953 e, desde então, transformou o município do Alto Paranaíba no principal fornecedor mundial de um material que quase ninguém vê, mas que está em toda parte.
Como o nióbio foi descoberto em Araxá?
A história começa com o geólogo e professor Djalma Guimarães, que se dedicou ao estudo da região do Barreiro, área formada por processos vulcânicos muito antigos nos arredores da cidade. Foi ali, em março de 1953, que ele identificou o pirocloro, mineral que carrega o nióbio, além de reservas de fosfato que também ganhariam importância.
Na época, pouco se sabia sobre o metal e praticamente não existia mercado para ele. A descoberta mudou esse cenário e deixou marcas no calendário e na economia local, que podem ser resumidas em três momentos:
1953: identificação do pirocloro no Barreiro, em março;
1955: início da operação da mina, hoje a maior do mundo em atividade;
31 de março: data que passou a ser lembrada como o Dia do Nióbio.
O Brasil concentra quase todas as reservas conhecidas do metal
As reservas de nióbio do Brasil somam cerca de 98% do total conhecido no mundo, bem à frente de Canadá e Austrália. Dentro do país, Araxá responde sozinha por aproximadamente 75% das reservas nacionais, enquanto Catalão, em Goiás, fica com cerca de 4%.
O restante, por volta de 21%, está em depósitos na Amazônia que não são explorados comercialmente. Na prática, isso significa que a mina mineira não tem concorrente à altura em nenhum lugar do planeta, o que explica o peso de uma cidade do interior num mercado global.
O que torna a mina de Araxá tão diferente?
A extração é feita a céu aberto, sem túneis e sem uso de explosivos, porque o minério está numa camada já desgastada pelo tempo. O material retirado tem, em média, pouco mais de 2% de nióbio, e por isso passa por várias etapas até virar produto comercial. O caminho percorrido pelo minério é este:
Escavação do minério na cava;
Concentração até atingir cerca de 50% de nióbio;
Refino para obter o óxido de nióbio;
Produção do ferronióbio, liga com 65% de nióbio e 35% de ferro.
Cerca de 90% de tudo o que sai da mina vira ferronióbio, a forma mais vendida do metal. Os rejeitos ficam em barragens com o fundo revestido de material plástico, erguidas pelo método a jusante, em que o aterro cresce para fora, e não sobre o próprio rejeito acumulado.


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar o estudo de amostras minerais nos anos 1950


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar peças metálicas que podem levar nióbio em sua composição
Onde o nióbio de Araxá vai parar?
O segredo do metal está na quantidade. Basta acrescentar uma fração mínima, perto de 0,05%, para deixar o aço mais resistente sem que ele perca a capacidade de suportar impactos. Com isso, peças e estruturas ficam mais finas e leves, o que reduz o consumo de material e de combustível.
Essa característica abriu espaço para o nióbio em setores muito diferentes entre si, da construção pesada à medicina. Entre os usos mais comuns, estão:
Aços especiais para grandes construções;
Gasodutos e oleodutos com paredes mais finas;
Carrocerias de carros mais leves;
Turbinas de avião e motores de foguete;
Fios supercondutores de aparelhos de ressonância magnética.
Quanto o nióbio pesa na economia de Minas?
O nióbio deixou de ser uma curiosidade geológica para se tornar um dos produtos mais importantes da pauta mineira. Minas lidera as vendas do metal para fora do país, e os números de 2024 ajudam a dimensionar o tamanho desse peso:
95 mil toneladas de ferronióbio produzidas em Araxá;
Mais de 75% da demanda mundial atendida;
Cerca de US$ 2,1 bilhões em vendas do estado ao exterior.
O metal também começa a ganhar espaço em tecnologias mais recentes. No fim de 2024, a cidade passou a abrigar a maior fábrica do mundo de ânodos de nióbio, usados em baterias de lítio que, nos testes com um ônibus elétrico, chegaram à recarga completa em cerca de dez minutos.
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O mesmo solo que guarda o nióbio deu origem às termas do Barreiro
Os minerais e as águas da região surgiram dos mesmos processos vulcânicos que formaram a bacia do Barreiro. Foi sobre essa mesma origem que Araxá construiu sua fama como destino de saúde e descanso, com fontes procuradas desde o fim do século XIX.
Hoje, o turismo em Araxá gira em torno do complexo das Termas e do Grande Hotel, projetados na década de 1940 por Luiz Signorelli, com jardins de Roberto Burle Marx e a Fonte Andrade Júnior, de 1947. Caminhar por ali ajuda a entender como a mesma terra rendeu, ao mesmo tempo, riqueza mineral e um dos endereços mais tradicionais de Minas.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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