Aos pés de uma montanha gigante, esse povoado do ciclo do ouro respira paz

A menos de uma hora de BH, um vilarejo do século XVII guarda a igreja mais antiga de Minas, ateliês de cerâmica, congado centenário e a Serra da Moeda como pano de fundo permanente

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
03/07/2026

Igreja em Piedade do Paraopeba, com palmeiras, gramado verde e céu azul em Minas Gerais
Igreja em Piedade do Paraopeba, com palmeiras, gramado verde e céu azul em Minas Gerais

Igreja em Piedade do Paraopeba, com palmeiras, gramado verde e céu azul em Minas Gerais - Foto: Igor Souza

Há um detalhe que a maioria das pessoas que passa pela BR-040 em direção ao Rio de Janeiro não percebe: logo após a saída para Ouro Preto, uma estrada à direita sobe em direção à Serra da Moeda e chega a um dos lugares mais antigos do estado. Piedade do Paraopeba, distrito de Brumadinho, foi fundado por bandeirantes por volta de 1674, o que a torna mais antiga que Ouro Preto, Mariana e Sabará. Com cerca de 4.900 habitantes segundo o censo de 2022, o vilarejo ainda guarda ruas de pedra, igrejas coloniais e um congado que existe há séculos.

Por que Piedade do Paraopeba é mais antiga que Ouro Preto?

O nome "Paraopeba" vem do tupi e significa "rio do peixe chato", referência ao rio que corre pela região. Os bandeirantes chegaram por volta de 1674 em busca de ouro, bem antes da corrida mineral que daria origem às cidades mais famosas do estado.

A paróquia de Nossa Senhora da Piedade foi instituída em 1729. Em 1832, o povoado foi elevado a Freguesia por Decreto da Regência. Em 1912, por Bula Papal, foi consagrado o Jubileu de Nossa Senhora da Piedade, celebrado anualmente no dia 8 de setembro e que atrai devotos de toda a região.

O que ver no centro histórico do distrito?

O coração de Piedade do Paraopeba é pequeno e pode ser percorrido a pé em algumas horas. Os principais pontos concentrados no entorno da praça principal são:

  • Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade: inaugurada em 1713, uma das mais antigas de Minas Gerais; guarda a imagem original trazida de Portugal em 1731, entalhada em madeira; atualmente fechada para restauração, mas a fachada pode ser visitada;

  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário: construída no século XVIII por pessoas escravizadas e forras, palco das festas do Rosário e das apresentações da Guarda de Moçambique;

  • Cachoeira do Carrapato: a poucos minutos da praça da Igreja da Piedade, acessada por uma rua defronte ao muro lateral da matriz;

  • Coletivo de Ceramistas de Piedade do Paraopeba: grupo de dez artistas, majoritariamente mulheres, que produz e vende cerâmica no próprio vilarejo.

A Guarda de Moçambique é um dos maiores grupos de congado da região, com apresentações frequentes durante as festas religiosas do distrito.

Piedade tem ateliês de cerâmica?

Sim, e essa é uma das grandes surpresas de quem visita o distrito sem expectativa prévia. A região de Brumadinho, especialmente nas imediações de Piedade do Paraopeba, virou um polo de cerâmica artesanal. Os ateliês se instalaram ao longo da Serra da Moeda e no próprio vilarejo. Os mais visitados na área são:

  • Saracura Três Potes: ateliê com cachoeira particular na propriedade;

  • Ateliê Adel Souki: no centrinho, com forno de barro e produção experimental;

  • Ateliê Nanart: em Palhano, vila próxima a Piedade, com cursos e café da manhã estilo bufê;

  • Ateliê Inês Antonini: propriedade com deck voltado para a floresta e o rio.

Todas essas iniciativas fazem parte da Rota Céu de Montanhas, programa de turismo sustentável criado em parceria com o Instituto Rede Terra e outras organizações em Brumadinho.

O que mais fazer na região durante a visita?

Piedade do Paraopeba serve de base para explorar a Serra da Moeda e os atrativos do entorno, todos em curta distância de carro. Os pontos que completam o roteiro são:

  • Topo do Mundo: mirante no alto da Serra da Moeda, ponto de partida para parapente e asa-delta;

  • Forte de Brumadinho: ruínas de uma casa de fundição de 1750, com muralhas de mais de 5 metros; trilha de 5 km a partir do Retiro das Pedras;

  • Instituto Inhotim: a 15 km do distrito, o maior museu de arte contemporânea a céu aberto da América Latina;

  • Cachoeira da Ostra e Poço Encantado: cachoeiras da região com trilhas de diferentes níveis de dificuldade.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como chegar a Piedade do Paraopeba?

O acesso é pela BR-040, sentido Rio de Janeiro, com saída logo após a indicação para Ouro Preto. São cerca de 35 a 55 quilômetros de Belo Horizonte, com tempo médio de uma hora. Há linha de ônibus a partir da Avenida Afonso Pena com parada no centrinho do distrito.

Pontos práticos antes de ir:

  • Jubileu de Nossa Senhora da Piedade: 8 de setembro, principal evento religioso do ano;

  • Rota Céu de Montanhas: mapa com 39 indicações de experiências, restaurantes e artesanato disponível online;

  • Igreja Matriz: fechada para restauração; confirmar abertura antes da visita;

  • Inhotim: entrada a partir de R$ 60; recomendado separar um dia inteiro.

Piedade do Paraopeba não aparece nos roteiros clássicos de Minas, e esse é exatamente o motivo pelo qual vale a pena ir. Enquanto as cidades vizinhas mais famosas acumulam turistas nos fins de semana, este vilarejo de mais de 350 anos mantém o ritmo próprio de quem nunca precisou se apressar.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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