Ao lado da Gruta Rei do Mato, uma pequena caverna guarda pinturas rupestres feitas há mais de 6 mil anos em Sete Lagoas
Uma pequena caverna perto de Belo Horizonte guarda pinturas feitas com sangue e gordura vegetal há mais de seis mil anos, quase apagadas pelo tempo
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
17/09/2026
Antes mesmo de chegar às formações mais conhecidas da Gruta Rei do Mato, os visitantes passam por uma pequena caverna que guarda um capítulo bem mais antigo da história da região. A Grutinha, como é chamada, expõe pinturas rupestres feitas há mais de 6 mil anos, testemunho de populações que habitaram Sete Lagoas muito antes de qualquer registro colonial. Entre arte pré-histórica, ferramentas petrificadas e a réplica de um animal extinto, essa gruta menor concentra parte importante da beleza natural e científica de todo o conjunto.
A Grutinha guarda um dos registros rupestres mais antigos da região de Sete Lagoas
A Grutinha fica logo na entrada do complexo, sendo o primeiro ponto visitado por quem chega ao Monumento Natural Estadual Gruta Rei do Mato. Diferente da caverna principal, com seus 998 metros de extensão, a Grutinha é bem menor, mas guarda um valor histórico igualmente relevante. É ali que estão as pinturas rupestres mais antigas registradas em todo o conjunto.
As pinturas mostram predominância de figuras monocromáticas, muitas delas de temática zoomórfica, retratando animais que faziam parte do cotidiano dessas populações antigas. Esse tipo de registro ajuda pesquisadores a reconstruir aspectos da vida de quem habitou a região milhares de anos antes da chegada dos europeus. O Monumento Natural, que inclui tanto a Grutinha quanto a Gruta Rei do Mato, ocupa uma área de 141 hectares administrada pelo Instituto Estadual de Florestas.


Pinturas rupestres nas paredes da Grutinha, ao lado da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, MG - Foto: Igor Souza
Como essas pinturas de 6 mil anos foram feitas e por que estão apagadas?
As pinturas rupestres da Grutinha foram feitas com sangue e gordura vegetal, materiais orgânicos que, apesar de terem resistido por milênios, não são tão duráveis quanto pigmentos minerais usados em outras regiões do país. Esse fator explica por que muitas das imagens aparecem hoje bastante apagadas, exigindo o direcionamento da luz de lanternas para serem enxergadas com clareza.
Além do desgaste natural causado pelo tempo, alguns registros também sofreram com ações de vandalismo ao longo dos anos, o que compromete ainda mais a leitura de certos trechos. Diante desse cenário, a preservação do que resta dessas pinturas se tornou prioridade para a gestão do Monumento Natural. Dois fatores ajudam a explicar o estado atual desses registros:
O desgaste natural causado por milhares de anos de exposição;
Ações de vandalismo que comprometeram parte das imagens ao longo do tempo.
Uma réplica de animal extinto reforça a importância científica do local
Dentro da Grutinha, os visitantes também encontram uma réplica em resina do Xenorhinotherium bahiensis, animal herbívoro que habitou partes de Minas Gerais, Bahia e do sul de São Paulo há cerca de seis mil anos. Essa espécie ajuda a situar o contexto da fauna que convivia com os autores das pinturas rupestres. Alguns dados ajudam a entender a relevância dessa réplica dentro do percurso:
Espécie herbívora que viveu há cerca de seis mil anos;
Presença registrada em Minas Gerais, Bahia e sul de São Paulo;
Coincidência temporal com a datação das pinturas rupestres da Grutinha.
Essa coincidência de datas reforça a ideia de que os grupos humanos que produziram as pinturas conviviam diretamente com essa fauna já extinta. Junto com as pinturas, a réplica transforma a Grutinha em um pequeno museu dentro da própria caverna.


Placa da Grutinha, atração localizada ao lado da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, MG - Foto: Igor Souza
Que outros achados arqueológicos surgiram dentro da Grutinha?
Além das pinturas e da réplica do animal extinto, a Grutinha também revelou ferramentas indígenas petrificadas, encontradas soterradas dentro da caverna. Esses objetos foram recolhidos em perfeito estado de conservação e hoje estão sob análise em laboratórios especializados.
Esses achados se somam a outra curiosidade científica do complexo: a chamada estalagmite bebê, uma formação com cerca de três mil anos que ainda mede apenas alguns centímetros. Ela ilustra bem a lentidão desse tipo de processo geológico, já que uma estalagmite leva décadas para crescer um único centímetro cúbico. Alguns achados ajudam a resumir a riqueza científica desse conjunto de cavernas:
Ferramentas indígenas petrificadas, encontradas soterradas na Grutinha;
A réplica do Xenorhinotherium bahiensis, animal extinto há seis mil anos;
A estalagmite bebê, com cerca de três mil anos de idade;
As pinturas rupestres, com predominância de temas zoomórficos.
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Como funciona a visita a esse conjunto de cavernas hoje?
O primeiro mapeamento documentado do complexo foi feito pela Sociedade Excursionista e Espeleológica em 1973, mas a área só se tornou Monumento Natural Estadual em 2009. Hoje, a visitação acontece de forma organizada, sempre acompanhada por monitores especializados, o que ajuda a preservar tanto a Grutinha quanto a Gruta Rei do Mato. Alguns detalhes práticos ajudam a organizar essa experiência:
Grupos de até 20 pessoas, sempre com monitor;
Visita com duração aproximada de uma hora;
Idade mínima de 6 anos, acompanhados por responsáveis;
Uso obrigatório de calçado fechado;
Galeria com exposição permanente de arte rupestre no centro de visitantes.
A estrutura conta ainda com um auditório para receber grupos escolares, reforçando o caráter educativo do passeio. Localizado às margens da BR-040, o Monumento Natural fica a cerca de 70 quilômetros de Belo Horizonte. Assim, entre pinturas rupestres e réplicas de animais extintos, a Grutinha segue como um programa completo de história e natureza.


Esqueleto exposto no interior da Grutinha, ao lado da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, MG - Foto: Igor Souza
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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