Antiga Vila Rica, Ouro Preto foi capital de Minas por quase 180 anos e ainda preserva o maior conjunto barroco das Américas
Uma cidade de Minas comandou o estado por quase dois séculos e hoje reúne mais obras de Aleijadinho do que qualquer outro lugar do país
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
16/08/2026
Vila Rica comandou os destinos de Minas Gerais por 177 anos, entre 1720 e 1897 — tempo suficiente para ver nascer boa parte do barroco que hoje atrai visitantes do mundo inteiro. A cidade, rebatizada Ouro Preto ainda no século 18, foi a primeira do Brasil a entrar na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, em 1980. A 98 km de Belo Horizonte, o antigo centro do poder colonial guarda hoje o que muitos consideram o maior conjunto de arte barroca das Américas.
Vila Rica nasceu da junção de vários arraiais de garimpo
A origem da cidade remonta a arraiais de garimpo formados no fim do século 17 e início do 18, entre eles o arraial do Padre Faria, ligado ao bandeirante Antônio Dias de Oliveira e ao padre João de Faria Fialho. O nome Ouro Preto viria depois, em referência ao aspecto escurecido do metal encontrado ali, resultado de impurezas de óxido de ferro na composição do ouro.
Da formação do primeiro arraial até a consolidação do nome que a cidade carrega hoje, alguns marcos resumem essa trajetória:
por volta de 1698: formação do arraial do Padre Faria, um dos núcleos que deram origem à cidade;
1712: decreto real confirma oficialmente o nome de Vila Rica;
1720: elevação a capital da recém-criada capitania de Minas Gerais;
1823: Dom Pedro I concede o título de Imperial Cidade de Ouro Preto, consolidando o nome atual.


Feira de artesanato em pedra-sabão diante da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza
Por que Ouro Preto perdeu o posto de capital em 1897?
Vila Rica manteve o posto de capital por 177 anos, mesmo depois de virar Imperial Cidade de Ouro Preto. O declínio começou com a redução da mineração aurífera, que empurrou a economia local para a pecuária e o cultivo de café, reduzindo a importância econômica da cidade dentro da própria província.
Dois momentos, porém, marcaram tentativas de reverter esse cenário, um ainda no auge da crise e outro décadas depois:
1876: criação da Escola de Minas, que atraiu estudantes e pesquisadores para a cidade;
meados do século 20: retomada econômica puxada pela siderurgia e pela extração mineral, já bem depois da perda da capital para Belo Horizonte, em 1897.
O que torna o conjunto barroco de Ouro Preto único nas Américas?
A partir de meados do século 18, as construções passaram a usar pedra e cal no lugar do pau a pique e do adobe, técnica mais cara que só a riqueza do ouro e o trabalho escravo tornavam viável em larga escala. Foi nesse contexto que floresceu o talento de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escultor e mestre de obras, e do pintor Manoel da Costa Athaíde.
O resultado dessa combinação de riqueza, mão de obra e talento artístico está espalhado por templos como a Igreja de São Francisco de Assis, considerada pelo Iphan e pela Unesco uma das obras-primas do barroco brasileiro, e a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, de 1733, cuja ornamentação interna usou mais de 400 kg de ouro. Outras igrejas, como a de Nossa Senhora do Carmo e a de Santa Efigênia dos Pretos, completam um conjunto raro em concentração e qualidade artística.


Igreja histórica com telhado colonial diante das montanhas e do casario de Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza
A Praça Tiradentes concentra os símbolos da vida política da capital
O grande espaço urbano que hoje leva o nome do mártir da Inconfidência Mineira já foi o centro administrativo de toda a capitania. Foi ali que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ganhou status de patrono cívico do Brasil, depois de participar do movimento que pedia a independência da colônia em relação a Portugal.
Dos dois lados da praça, dois prédios resumem essa importância política: o Palácio dos Governadores, hoje sede da Escola de Minas, e a antiga Casa de Câmara e Cadeia, construída entre 1785 e 1855, que hoje abriga o Museu da Inconfidência.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Vale a pena visitar Ouro Preto hoje?
A cidade que já foi o centro do poder colonial hoje vive de mineração e turismo, e o casario preservado segue funcionando como testemunha viva desse passado. A 98 km de Belo Horizonte, o acesso é relativamente rápido para quem sai da capital mineira, mas vale reservar pelo menos dois dias para conhecer o centro histórico com calma.
Além das igrejas já citadas, alguns programas ajudam a completar a visita:
Casa dos Contos, antiga sede da administração e contabilidade da capitania;
comércio de artesanato em pedra-sabão, tradição colonial ainda viva no centro histórico;
passeio de trem turístico entre Ouro Preto e Mariana;
Escola de Minas, hoje parte da Universidade Federal de Ouro Preto;
Museu da Inconfidência, na antiga Casa de Câmara e Cadeia.


Igreja histórica entre árvores e casarão colonial no centro de Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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