Antes de se chamar Ribeirão Vermelho, a cidade nasceu em 1886 com o nome de Porto Alegre, em Minas Gerais

Vapores no rio Grande, uma rotunda com ferro trazido da Escócia e um porto que virou estação: a história da cidade que cresceu ao redor dos trilhos

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
19/10/2026

Barcos chegando pelo rio Grande, um engenho de cana na beira d’água e um porto improvisado que deu nome ao lugar. Muito antes dos trilhos, Ribeirão Vermelho era conhecida como Porto Alegre, um ponto de embarque no Sul de Minas que só mudou de nome quando a ferrovia chegou e transformou o povoado por completo.

Por que a cidade se chamava Porto Alegre?

As terras na margem do rio Grande, em frente à foz do ribeirão Vermelho, pertenciam a dona Ana Custódia do Nascimento e aos filhos. Ligada a Lavras, a família criava gado, mas vivia principalmente da cana, que abastecia um grande engenho de açúcar, rapadura e aguardente.

Foi ali que o negociante Antônio Lúcio chegou de Capetinga com alguns barcos e abriu o local que, por muitos anos, ficou conhecido como Porto Alegre. Depois, um comerciante de São João del-Rei passou a usar um pequeno vapor e uma lancha para levar mercadorias rio acima, atendendo cidades como Formiga e Campo Belo.

Como a ferrovia mudou o povoado?

A virada veio com a construção da Estrada de Ferro Oeste de Minas, cujo pátio começou a ser montado em 1885. A estação ganhou o nome de Ribeirão Vermelho, e em poucos anos o povoado ganhou comércio, ruas e empregos. A transformação pode ser acompanhada por quatro marcos:

  • 1887: Amaro José Soares abre uma casa de comércio e um hotel;

  • 14 de abril de 1888: inauguração da estação ferroviária;

  • 1892: construção de oficinas e casas para os operários;

  • 1892: entrega da ponte metálica sobre o rio Grande.

Com a estação virando ponto de referência, o nome Porto Alegre foi ficando para trás, e o povoado passou a ser chamado pelo mesmo nome dos trilhos. A ferrovia ainda construiu uma represa para abastecer os funcionários e deu ao lugar o papel de entroncamento.

O rio Grande já foi uma estrada de vapores

Em 26 de novembro de 1889, um decreto deu à Estrada de Ferro Oeste de Minas, por dez anos, a exclusividade da navegação entre a foz do ribeirão Vermelho e a do rio Sapucaí. No mesmo ano, foi inaugurada a estação fluvial, que ligava os trilhos ao transporte pelo rio.

Os barcos levavam carga e também passageiros, geralmente até Formiga. Quando os trilhos chegaram a essa cidade, a navegação perdeu sentido e foi abandonada. Enquanto funcionou, o serviço tinha uma estrutura que impressionava para o interior de Minas no fim do século XIX:

  • Dois vapores e seis chatas para carga;

  • Um percurso de 208 km até Capetinga, atual Santo Hilário.

Letreiro turístico Eu Amo Ribeirão Vermelho em frente à antiga estação ferroviária Ribeirão Vermelho
Letreiro turístico Eu Amo Ribeirão Vermelho em frente à antiga estação ferroviária Ribeirão Vermelho

Letreiro turístico Eu Amo Ribeirão Vermelho em frente à antiga estação ferroviária de Ribeirão Vermelho, MG - Foto: Igor Souza

Locomotiva histórica a vapor preservada na estação ferroviária de Ribeirão Vermelho, MG
Locomotiva histórica a vapor preservada na estação ferroviária de Ribeirão Vermelho, MG

Locomotiva histórica a vapor preservada na estação ferroviária de Ribeirão Vermelho, MG - Foto: Igor Souza

O que é a rotunda de Ribeirão Vermelho?

A rotunda é a construção mais marcante do conjunto ferroviário. É um prédio circular, em formato de coliseu, onde as locomotivas eram guardadas e recebiam manutenção. No centro, ao ar livre, fica o girador que distribuía as linhas para cada um dos boxes individuais.

Boa parte do material veio de fora do país, o que mostra o tamanho do investimento feito na ferrovia naquela época. Para quem visita, alguns detalhes ajudam a entender por que a rotunda chama tanta atenção:

  • Diâmetro de 75 metros;

  • Prisma interno com 30 faces;

  • Estrutura metálica importada da Escócia;

  • Telhas francesas;

  • Trinta colunas de ferro fundido e nove portões com frontões.

Quando a cidade ganhou autonomia?

O povoado virou distrito de Lavras em 12 de setembro de 1901. A emancipação veio com a lei de 27 de dezembro de 1948, e o novo município, desmembrado de Lavras e formado apenas pelo distrito sede, foi instalado em 1º de janeiro de 1949.

No Censo 2022, Ribeirão Vermelho registrou 4.080 moradores, em uma área de pouco mais de 49 km². Quem nasce na cidade é chamado de ribeirense, e o conjunto ferroviário, principal marca da história local, fica na Avenida Antônio Rocha.

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O conjunto ferroviário é patrimônio de Minas

Em 19 de agosto de 2014, o Conselho Estadual de Patrimônio Cultural aprovou por unanimidade o tombamento estadual do conjunto ferroviário. A área tem cerca de 85 mil metros quadrados, pertence ao município e já era protegida pela prefeitura desde 2004. O tombamento abrange vários prédios:

  • Estações ferroviária e fluvial;

  • Quatro oficinas e a rotunda;

  • Engenho de café e a locomotiva nº 315.

A atividade ferroviária foi diminuindo a partir dos anos 1950, e a última viagem do expresso de passageiros até Barra Mansa, no Rio de Janeiro, aconteceu em 1996. Parte das estruturas já estava em ruínas quando veio o tombamento, o que torna a recuperação dos prédios um trabalho lento e cuidadoso.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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