Aleijadinho assinou a portada de pedra-sabão de uma igreja de Congonhas que representa a Arca de Noé
Uma portada de pedra-sabão atribuída a Aleijadinho traz a Arca de Noé esculpida e passa despercebida por muitos visitantes desta cidade histórica mineira
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
22/10/2025
Os profetas do Santuário do Bom Jesus são a obra mais famosa de Aleijadinho em Congonhas, mas não a única. No centro da cidade, a entrada da Matriz de Nossa Senhora da Conceição tem uma portada de pedra-sabão com a Arca de Noé esculpida.
Onde fica a portada da Arca de Noé?
A Matriz de Nossa Senhora da Conceição fica na Praça Sete de Setembro, em Congonhas, a cerca de 80 km de Belo Horizonte pela BR-040. A fachada segue o estilo jesuítico, com duas torres. Na portada esculpida, o visitante encontra:
volutas;
querubins;
uma cartela barroca;
a Arca de Noé;
a Pomba Imaculada.
O frontispício e a portada são atribuídos a Aleijadinho, o escultor Antônio Francisco Lisboa. A atribuição aparece tanto no registro do patrimônio quanto nos materiais da prefeitura e da Câmara de Congonhas.
A Arca de Noé tem um significado ligado a Maria
A escolha da cena não foi por acaso. A Arca de Noé e a Pomba Imaculada simbolizam Maria Imaculada acima do dilúvio do pecado, uma referência direta à santa que dá nome à igreja.
O material também ajuda a entender a obra. A pedra-sabão, comum em Minas Gerais, é macia o bastante para receber detalhes finos, e foi a mesma pedra usada por Aleijadinho nos profetas do Santuário.
Como a igreja foi construída?
Segundo a tradição local, os alicerces da Matriz foram feitos quase em um único dia, contrariando ordens do governador da capitania. As obras terminaram às pressas, sem autorização da Coroa portuguesa.
A história da igreja acompanha a formação da própria cidade, uma das belezas mineiras do período colonial. Os registros oficiais sobre a Matriz, reunidos pelo Iphan e pela Câmara de Congonhas, mostram alguns marcos importantes dessa trajetória:
1734: criação da vigaria por decreto real;
1735: conclusão apressada das obras;
1749: elevação a paróquia;
1764: data registrada na capela-mor.


Igreja Matriz de Congonhas, MG, com fachada colonial, torre de sinos e detalhes em pedra-sabão - Foto: Igor Souza


Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG, com esculturas dos profetas de Aleijadinho - Foto: Igor Souza
O que chama atenção dentro da Matriz?
A nave da igreja é considerada uma das maiores de Minas Gerais e não tem corredores laterais. O espaço amplo faz com que os altares fiquem bem à vista de quem entra. Entre os detalhes que merecem atenção, estão:
o forro de madeira em formato de gamela;
o arco-cruzeiro com colunas e talha;
a capela-mor, datada de 1764;
o altar-mor com colunas douradas e a imagem do Sagrado Coração de Jesus;
os altares laterais de épocas diferentes, alguns com colunas retorcidas;
a balaustrada de madeira que separa os altares da nave.
Na sacristia, há uma pintura da Aparição de Nossa Senhora, um confessionário antigo e uma caixa de esmolas. A igreja foi tombada pelo Iphan em 1950, e o tombamento inclui todo o acervo.
Onde mais o escultor deixou sua marca em Congonhas?
A obra mais conhecida de Aleijadinho na cidade está no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial em 1985. A construção foi iniciada em 1757 pelo português Feliciano Mendes.
Segundo a Câmara Municipal, foi em Congonhas que o talento do escultor se libertou. Para quem visita a cidade, vale reservar algumas horas para conhecer com calma as obras que ele e sua oficina executaram no Santuário:
os 12 profetas esculpidos em pedra-sabão no adro;
as seis capelas dos Passos, com cenas da Paixão de Cristo;
as 66 imagens em madeira que ocupam essas capelas.
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Congonhas guarda outras igrejas históricas
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi construída por pessoas escravizadas, provavelmente na primeira metade do século 18, e foi reaberta em dezembro de 2016, depois de restaurada pelo Iphan. A da Soledade foi autorizada em 1756.
A Igreja de São José teve obras iniciadas em 1814, e a de Nossa Senhora da Ajuda, de 1746, guarda na sacristia um chafariz de pedra-sabão. Para quem quer juntar história e belezas naturais, a cidade é uma boa base para explorar a região.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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