Adeus destinos óbvios de fim de semana: esta pacata cidade mineira é a nova descoberta dos aventureiros

Há relatos do século XIX de que, após chuvas fortes, lascas de ouro chegavam a escorrer pelas ruas de terra desse antigo arraial mineiro

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
17/07/2026

A menos de uma hora de Belo Horizonte existe uma cidade que poucos associam a esportes radicais, mas que tem se tornado parada certa para quem busca trilhas, rapel e voo livre sem enfrentar multidões. Mateus Leme, na região metropolitana da capital, nasceu da corrida pelo ouro no início do século XVIII e hoje combina história de mineração com um terreno acidentado que atrai cada vez mais aventureiros em busca de novidade.

Como o ouro deu origem a essa cidade?

A história do município começa com o bandeirante paulista Mateus Leme, que chegou à região no início do século XVIII em busca de metais preciosos e encontrou ouro de aluvião nos cursos d'água locais. O povoado que se formou ao redor de uma serra acabou batizado com o nome do próprio bandeirante, originando o antigo Arraial do Morro do Mateus Leme.

A quantidade de ouro encontrada na região era tão expressiva que rendeu relatos curiosos ao longo dos séculos. Segundo registros do final do século XIX, após chuvas muito fortes era possível encontrar lascas valiosas do metal espalhadas pelos caminhos abertos na mata, fenômeno semelhante ao que também se relatava na cidade vizinha de Pitangui.

Quais técnicas de mineração marcaram a região?

A extração de ouro na área seguiu basicamente dois métodos distintos, cada um com seu nível de complexidade e custo. O mais comum era a chamada mineração de cascalho, feita pela lavagem do material entre pedras e sedimentos dos rios, técnica mais simples e acessível para a maioria dos garimpeiros da época.

Já a forma mais eficiente, porém mais cara, envolvia retirar o ouro diretamente das rochas, prática conhecida como mineração de morro. Esses métodos deixaram marcas visíveis na paisagem da serra, e entre os vestígios que ainda podem ser observados na região, destacam-se:

  • Talhos abertos diretamente nas encostas rochosas;

  • Galerias escavadas no interior da serra;

  • Antigos aquedutos e lavrados citados em registros do século XVIII.

O que torna a serra local tão procurada por aventureiros?

A formação rochosa que emoldura a cidade faz parte do Quadrilátero Ferrífero e do sul do Cráton do São Francisco, com altitude que chega perto dos 1.300 metros. Esse relevo acidentado, somado à vista ampla do alto, transformou a serra em um dos principais points de turismo de aventura da região metropolitana, especialmente para quem pratica voo livre e caminhadas mais longas.

O acesso ao topo pode ser feito de carro, por estrada de terra, ou a pé, pela histórica Trilha dos Escravos, que corta a encosta sul da formação. Quem chega ao cume encontra uma capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida, construída na década de 1980, além de diferentes atividades que atraem visitantes ao longo do ano:

  • Trekking pelas cristas rochosas;

  • Trilhas técnicas de mountain bike e downhill;

  • Voo livre a partir das encostas mais altas;

  • Rapel em pontos específicos da serra;

  • Caminhadas de contemplação até os mirantes.

Serra do Elefante em Mateus Leme coberta por vegetação, com torres de comunicação no topo
Serra do Elefante em Mateus Leme coberta por vegetação, com torres de comunicação no topo

Serra do Elefante em Mateus Leme coberta por vegetação, com torres de comunicação no topo - Foto: Igor Souza

Igreja Matriz de Mateus Leme com fachada colonial branca, porta azul, sinos e palmeiras ao redor
Igreja Matriz de Mateus Leme com fachada colonial branca, porta azul, sinos e palmeiras ao redor

Igreja Matriz de Mateus Leme com fachada colonial branca, porta azul, sinos e palmeiras ao redor - Foto: Igor Souza

A cidade tem algum marco histórico além da mineração?

Sim, e um dos principais é a Igreja Matriz de Santo Antônio, cuja construção é atribuída por algumas fontes ao próprio Aleijadinho, reforçando a ligação do município com o período colonial mineiro. A freguesia foi oficialmente criada em 1832, com o nome de Santo Antônio do Morro de Mateus Leme, e a autonomia administrativa só veio em 1938.

Outro detalhe pouco conhecido é que a cidade abrigou a instalação do primeiro radar meteorológico de Minas Gerais, dado que mostra como o município também teve papel relevante fora do campo histórico e turístico. Esses elementos somam camadas à identidade local, que vai muito além das trilhas e dos esportes radicais que atraem os visitantes mais recentes.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Vale a pena trocar os destinos tradicionais por essa cidade?

Sim, especialmente para quem já cansou dos roteiros mais óbvios e busca um lugar que combine aventura, história e tranquilidade em uma mesma viagem. A proximidade com a capital permite transformar a visita em um simples bate e volta, com possibilidade de incluir ainda cachoeiras, fazendas históricas e a culinária típica mineira servida nos pequenos restaurantes da cidade.

Esse equilíbrio entre adrenalina e descanso é justamente o que tem chamado atenção de aventureiros nos últimos anos. Em vez de disputar espaço nos destinos já consagrados de Minas Gerais, cada vez mais visitantes têm apostado nesse antigo arraial do ouro para fugir da rotina sem se afastar muito de Belo Horizonte.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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