A vila de 500 habitantes que virou o novo paraíso das águas no Espinhaço
Uma vila com pouco mais de quatro centenas de moradores concentra mais de uma dezena de cachoeiras diferentes, todas a poucos quilômetros uma da outra, um paraíso das águas no Espinhaço
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
08/07/2026
Quem decide explorar a Serra do Espinhaço depois de visitar o centro histórico de Diamantina costuma esbarrar em um nome que pega muita gente de surpresa: Conselheiro Mata. A vila reúne pouco mais de quatrocentas famílias, fica a cerca de 45 quilômetros da cidade-sede e funciona como porta de entrada para um conjunto de cachoeiras que poucos imaginam existir tão perto de um destino já consagrado pelo turismo histórico.
De onde vem esse nome tão específico?
O nome do distrito é uma homenagem a João da Mata Machado, médico que fundou a Santa Casa de Diamantina e atuou como conselheiro do imperador Dom Pedro II. Diferente de muitos povoados da região, que receberam nomes ligados a santos ou características geográficas, Conselheiro Mata carrega no próprio nome uma referência direta a uma figura histórica concreta.
A origem do povoado, porém, remonta ao período do ouro e do diamante, quando tropeiros buscavam locais de pastagem para o gado e descanso para as comitivas que cruzavam a região. Com o declínio da mineração, foi justamente a chegada da estrada de ferro, no início do século XX, que sustentou o crescimento local por décadas.
O que a antiga estação ferroviária tem a ver com tudo isso?
A construção da linha que ligava Diamantina a Corinto começou em 1912, recebendo inicialmente o nome de Estação Ferroviária Riacho das Varas. Essa estrada de ferro foi, durante muito tempo, a principal razão de existir da vila, garantindo escoamento de produção e conexão com outras regiões de Minas Gerais.
A ferrovia foi desativada nas décadas seguintes, mas o traçado original deu origem a um percurso hoje conhecido como Trilha Verde da Maria Fumaça, usado por quem pratica caminhada e cicloturismo na região. No centro do distrito, um prédio que abrigou um colégio para meninas fundado em 1950 pela educadora Helena Antipof segue de pé, hoje funcionando como escola estadual.


Cachoeira das Fadas em Conselheiro Mata com queda d’água entre rochas e poço de águas verdes - Foto: Igor Souza


Cachoeira do Telésforo em Conselheiro Mata com faixa de areia, rio calmo e serra ao fundo - Foto: @praondevou
Quais cachoeiras valem mais a pena conhecer?
A fama recente de Conselheiro Mata se deve quase inteiramente às quedas d'água espalhadas ao redor da vila, em terrenos de quartzito típicos da Serra do Espinhaço. A mais conhecida é a Cachoeira das Fadas, dentro de uma área de preservação, com queda que passa dos vinte metros de altura e poço de águas esverdeadas usado tanto para banho quanto para a prática de rapel.
Outras opções menos óbvias completam o roteiro de quem fica mais de um dia na região, com níveis de dificuldade bem diferentes entre si:
Cachoeira do Telésforo, com extensa faixa de areia clara às margens do rio;
Cachoeira dos Três Desejos, com três quedas em sequência e acesso recomendado apenas com guia;
Cachoeira do Tombador, alcançada após caminhada de cerca de uma hora;
Cachoeira do Diquinho, em propriedade particular, sem cobrança de entrada;
Cachoeira da Candonga, de acesso mais íngreme e indicada para veículos com tração.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Por que essa região virou destino de quem busca águas e silêncio?
A geografia ajuda a explicar o fenômeno. A vila fica em um vale cercado de serras, em uma área mais plana e arborizada que mantém clima ameno mesmo durante o verão, condição rara em boa parte do estado. No centro do povoado está a capela dedicada a Nossa Senhora das Dores, e bem próximo dali corre o Riacho das Varas, de águas calmas, usado por moradores para banho e descanso no dia a dia.
A combinação entre poucas opções de hospedagem, ausência de grandes estruturas comerciais e uma quantidade incomum de cachoeiras a poucos quilômetros de distância criou um cenário raro para os padrões de Minas Gerais. Para quem já visitou Diamantina e busca um desdobramento natural da viagem, vale considerar a melhor época de visita: entre abril e setembro, durante a estação seca, quando as trilhas ficam mais firmes e os dias seguem ensolarados, mesmo que o volume de água nas quedas seja um pouco menor do que no período chuvoso.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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