A Serra dos Alves funciona como divisor de águas entre as bacias dos rios São Francisco e Doce
Uma pequena comunidade isolada de Minas Gerais vive exatamente no ponto onde a água decide para qual lado do estado vai correr
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
12/08/2026
Poucos lugares em Minas Gerais reúnem geografia e isolamento como a Serra dos Alves. Localizada em Itabira, a formação funciona como divisor de águas entre as bacias dos rios São Francisco e Doce, onde nasce o Rio Tanque, em meio a cachoeiras e ao Canyon do Marques. Ao redor dessa paisagem, uma pequena comunidade de casas de pau-a-pique preserva costumes que remontam ao século XIX, distante das rotas turísticas mais conhecidas do estado.
Onde fica a Serra dos Alves e por que ela funciona como divisor de águas?
A Serra dos Alves está a cerca de 45 km da sede de Itabira e 15 km do distrito de Senhora do Carmo. A região fica na vertente leste da Serra do Espinhaço, na fronteira com o Parque Nacional da Serra do Cipó e dentro da Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira.
Essa posição geográfica garante à Serra dos Alves seu papel como um dos divisores de águas entre as bacias do rio São Francisco e do rio Doce. É ali que nasce o Rio Tanque, curso d'água responsável por alimentar diversas cachoeiras da região, entre elas o Canyon do Marques, um dos atrativos naturais mais citados por quem conhece o local.
Como surgiu o povoado ao redor da serra?
A ocupação da região remonta a cerca de 1850, quando bandeirantes começaram a explorar ouro e cristais na serra, seguindo o padrão de expansão do interior de Minas Gerais. A exploração ordenada pelo governo português, porém, não trouxe resultados significativos.
Foi essa mineração pouco produtiva que definiu o caráter rural do povoado desde os primeiros anos, direcionando a comunidade para atividades agrícolas. O nome da localidade tem origem simples: veio da família Alves, primeira a se instalar no local. Alguns elementos resumem essa origem:
por volta de 1850: início da exploração de ouro e cristais na região;
resultados pouco expressivos da mineração ordenada pelo governo português;
consolidação de um perfil rural para o povoado desde sua formação;
origem do nome ligada à família Alves, primeira a se instalar no local.


Casas coloridas aos pés das montanhas no distrito de Serra dos Alves, Itabira, MG - Foto: @praondevou


Casario colorido e igreja histórica em rua tranquila do distrito de Serra dos Alves, Itabira, MG - Foto: @praondevou
A Capela de São José é o coração histórico da comunidade
No centro da Serra dos Alves, cerca de 33 casas de pau-a-pique cercam a Capela de São José, construída por volta de 1860 em estilo colonial. A estrutura é erguida em madeira, com vedação em adobe e pau-a-pique sobre base de pedra, técnica comum em povoados rurais da época.
Em frente à capela, um cruzeiro de cerca de seis metros traz adereços do martírio de Cristo, enquanto o interior guarda um retábulo em madeira e imagens de valor histórico, em madeira, barro e papel machê, com semelhanças ao trabalho do santeiro itabirano Alfredo Duval. Em 2004, esse conjunto foi reconhecido como patrimônio pelo órgão municipal de preservação de Itabira, reunindo elementos como:
a Capela de São José, erguida por volta de 1860;
o cruzeiro de cerca de seis metros em frente ao templo;
as sete casas que formam o entorno direto da praça da igreja;
uma inscrição de 1727 vinda da fundição de um sino, guardada na capela.
Como vive a pequena comunidade da Serra dos Alves hoje?
Segundo dados de 2004, a Serra dos Alves reunia cerca de 102 moradores: 36% homens, 39% mulheres e 25% crianças, com a maioria dos adultos acima dos sessenta anos. Esse perfil envelhecido reflete na economia local, sustentada majoritariamente por aposentadorias.
Ao lado da renda previdenciária, a comunidade mantém agricultura de subsistência, produzindo rapadura, polvilho, farinha de mandioca, queijos e cachaça artesanal. A distância até Senhora do Carmo, ponto mais próximo para comprar produtos industrializados, favorece uma antiga tradição de comércio por troca.
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O que atrai turistas para esse canto isolado de Minas Gerais?
O turismo na Serra dos Alves ainda acontece de forma tímida, divulgado pelo boca a boca entre viajantes interessados em trilhas pouco exploradas. A região integra o eixo da Estrada Real, o que tem despertado interesse até de turistas estrangeiros.
Além da paisagem natural, as festas religiosas da comunidade também funcionam como atrativo cultural, reunindo tradições que atravessam gerações. Entre os elementos dessa experiência estão:
o Canyon do Marques e as cachoeiras alimentadas pelo Rio Tanque;
as trilhas de caminhada que cortam a serra, algumas com várias horas de duração;
as festas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, ao Divino, a São José e à Senhora do Bonfim;
as apresentações da Banda de Marujo Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga de Itabira;
as cavalgadas tradicionais entre Senhora do Carmo e a Serra dos Alves.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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