A joia intocada da Biosfera do Espinhaço: por que os exploradores estão a trocar os picos famosos por este recanto
Poucos sabem, mas a primeira fábrica de ferro do Brasil funcionou neste pequeno município mineiro, hoje cercado por cachoeiras e trilhas pouco exploradas
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
10/07/2026


Igreja em Morro do Pilar com palmeiras, arquitetura marcante e céu nublado ao fundo - Foto: Igor Souza
Cercado pelas montanhas da Reserva da Biosfera do Espinhaço, existe um pequeno município mineiro que reúne dois atrativos raros na mesma viagem: cachoeiras quase intocadas e um capítulo pioneiro da história industrial brasileira. Trata-se de Morro do Pilar, vizinho ao Parque Nacional da Serra do Cipó, que tem atraído viajantes cansados dos destinos lotados em busca de natureza preservada e história pouco contada.
Como surgiu esse pequeno município nas montanhas?
A história do lugar começou em 1701, quando o bandeirante paulista Gaspar Soares encontrou ouro no alto de um morro da região e ali ergueu uma capela dedicada a Nossa Senhora do Pilar. O povoado que se formou ao redor recebeu inicialmente o nome de Morro de Gaspar Soares, em referência direta ao seu fundador.
Com o passar do tempo, o arraial foi transferido para uma parte mais baixa da colina, nos contrafortes da Serra do Espinhaço, e a mineração de ouro que o originou entrou em declínio já no início do século XIX. A trajetória administrativa também passou por mudanças até o município ganhar autonomia, percorrendo diferentes vínculos ao longo das décadas:
Distrito de Conceição do Mato Dentro até 1842;
Posterior vínculo ao município do Serro;
Emancipação definitiva como município autônomo em 1953.
Por que esse lugar é importante para a história do Brasil?
Poucos imaginam, mas foi nesse pequeno município que funcionou a primeira fábrica de ferro gusa do país. Em 1809, após autorização de Dom João VI, o Intendente Manuel Ferreira da Câmara Bitencourt e Sá deu início à construção da Real Fábrica de Ferro de Morro do Pilar, marco pioneiro da siderurgia em território brasileiro.
A fábrica conseguiu realizar sua primeira corrida de ferro no alto-forno em 1814 e funcionou até por volta de 1830, deixando um legado importante para a industrialização nacional. Hoje, as ruínas dessa estrutura permanecem como um dos atrativos mais visitados da cidade, documentando de forma concreta o passado ousado de quem tentou transformar a região em polo industrial muito antes do restante do país.
O que torna a natureza local tão especial?
A inserção do município na Reserva da Biosfera do Espinhaço e na área de proteção ambiental vizinha garante uma paisagem de mata preservada, formações rochosas e cursos d'água de águas limpas. Rios como o Picão e o Preto cortam o território com águas cristalinas, cercados por vegetação nativa típica da serra.
As cachoeiras são, sem dúvida, o grande chamariz para quem busca contato com a natureza, com opções para diferentes perfis de visitante. Entre as mais procuradas da região, vale destacar algumas com características bem distintas entre si:
Cachoeira das Andorinhas, encravada dentro de um cânion que lembra um templo natural;
Cachoeira do Tombo, com queda de cerca de cinquenta metros e poço fundo;
Cachoeira da Fumaça, conhecida pela vista privilegiada;
Cachoeira do Lajeado, com formações rochosas que funcionam como banheiras naturais.
A cidade preserva tradições culturais próprias?
Sim, e elas seguem vivas no cotidiano da comunidade. Uma das mais marcantes é a produção artesanal de chapéus feitos com fibras de indaiá e taquaraçu, técnica enraizada na cultura local que continua encantando quem visita o município e busca levar uma lembrança autenticamente regional.
O calendário cultural também movimenta a cidade ao longo do ano, com festas que reforçam os laços da população. Celebrações religiosas como a Festa do Divino dividem espaço com eventos populares, mostrando que, apesar do tamanho modesto, o município mantém uma vida comunitária intensa e acolhedora para quem chega de fora.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Vale a pena trocar os destinos famosos por esse recanto?
Sim, especialmente para quem já cansou de disputar espaço nos picos e cachoeiras mais badalados da Serra do Espinhaço. A cerca de 150 quilômetros de Belo Horizonte, o município oferece trilhas de todos os níveis, hospedagem simples e de preços acessíveis, além da possibilidade de combinar a visita com a vizinha região da Serra do Cipó.
Mais do que um simples ponto de natureza, esse recanto entrega a rara combinação de cachoeiras preservadas, história industrial pioneira e a tranquilidade de uma cidade que não se rendeu à pressa. Para os exploradores que procuram autenticidade longe das multidões, é exatamente o tipo de destino que justifica deixar de lado os roteiros óbvios e apostar em um lugar ainda pouco descoberto.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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