A Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, é uma joia barroca revestida de ouro com raras pinturas de influência oriental
Uma fachada simples esconde um interior coberto de ouro, com pinturas raras que remetem à China e à Índia dentro de uma igreja colonial mineira
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
23/08/2026
Por fora, pedra rústica e uma fachada sem grandes ornamentos. Por dentro, ouro, talha entalhada e pinturas que remetem à China e à Índia, num canto de Sabará a poucos quilômetros de Belo Horizonte. A Igreja de Nossa Senhora do Ó começou a ser erguida em 1717 e hoje é considerada uma das construções mais raras do barroco mineiro, justamente por reunir, sob o mesmo teto, a devoção católica portuguesa e uma estética oriental pouco comum em templos católicos.
Por que a fachada simples da Igreja do Ó esconde um interior tão rico?
A construção começou em 1717, foi formalmente autorizada em 1º de janeiro de 1718 e teve as obras aceleradas em 1719 sob o comando do capitão-mor Lucas Ribeiro de Almeida. A conclusão provável aconteceu em 20 de dezembro de 1720, com a decoração interna finalizada anos depois.
Esse contraste entre o exterior discreto e o interior luxuoso reúne elementos como:
fachada chanfrada em três planos, sem grandes ornamentos externos;
torre sineira, acrescentada apenas no fim do século 18;
interior revestido de talha dourada e painéis pintados.
A devoção a Nossa Senhora do Ó veio de longe até chegar a Sabará
O culto a Nossa Senhora do Ó tem origem em Toledo, na Espanha, e chegou ao Brasil por meio de Duarte Coelho, que fundou uma igreja dedicada à santa em Olinda. Bandeirantes paulistas levaram essa devoção para o interior de Minas Gerais.
Em Sabará, a capela erguida em homenagem à santa se tornou uma das igrejas mais antigas do estado, marco inicial de um estilo que ficaria conhecido como barroco mineiro.


Igreja de Nossa Senhora do Ó com fachada colonial e torre única sob céu azul em Sabará, MG - Foto: Igor Souza
O que faz dessa igreja um exemplo raro do barroco mineiro?
A planta segue duas seções retangulares, a nave e uma capela-mor menor, construídas em madeira e adobe. As proporções internas seguem razões associadas ao relato bíblico sobre o Templo de Salomão, um detalhe pouco comum em igrejas coloniais brasileiras.
O programa decorativo reúne 15 painéis no forro da nave, 14 painéis nas paredes retratando a Sagrada Família e mais 6 painéis com temas marianos na capela-mor. A variação na qualidade das pinturas sugere que diferentes artistas trabalharam na igreja ao longo do tempo.
De onde vem a influência oriental nas pinturas da igreja?
Oito painéis da Igreja do Ó trazem pagodes e pássaros em estilo orientalizante, um traço conhecido como chinesice. A autoria é atribuída a Jacinto Ribeiro, artista documentado em 1721 como natural da Índia, o que ajuda a explicar essa influência pouco comum no barroco católico.
As pinturas orientais retratam:
pagodes, templos chineses de múltiplas beiradas;
dragões ornamentando colunas, associados a divindade e fortuna na tradição asiática;
pássaros, flores e plantas em vermelho, preto e dourado;
painéis atribuídos a Jacinto Ribeiro, artista documentado como natural da Índia.


Interior da Igreja de Nossa Senhora do Ó com altar dourado e rica ornamentação barroca em Sabará - Foto: Igor Souza
O ouro presente na igreja não é só decoração religiosa comum.
O altar segue o chamado estilo nacional português, com arcos arredondados apoiados em colunas de inspiração salomônica. A talha combina folhas de videira, acanto, cachos de uva e figuras de fênix, tudo integrado por ouro, vermelho e azul distribuídos de forma coordenada pelo interior.
Entre os elementos ligados ao ouro estão:
talha dourada revestindo altares e painéis internos;
painéis azul-escuro com desenhos dourados imitando laca chinesa.
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A Igreja do Ó tem proteção como patrimônio histórico?
Sim. A igreja foi tombada pelo IPHAN em 1938, dentro do processo que também reconheceu parte do conjunto histórico de Sabará ligado à Rua Direita. O tombamento reconhece tanto o valor arquitetônico quanto a raridade das pinturas orientais preservadas no interior.
Quase três séculos depois de erguida, a Igreja de Nossa Senhora do Ó segue como um dos exemplos mais completos de como o ciclo do ouro em Minas Gerais também abriu espaço para trocas culturais vindas de lugares distantes, como a China e a Índia.


Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Ó, com torre única e detalhes coloniais em Sabará, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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